Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Médica, professora titular da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento da Saúde

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A política de saúde pode transcender o perímetro de cada partido e tendência no Congresso, mas a limitação do governo será um desafio incontornável

As primeiras análises sobre as eleições proporcionais sinalizaram ampliação na Câmara de Deputados da presença do Partido Liberal e redução da participação do Centrão e do PDT.

Entre os 503 deputados federais, os progressistas elegeram 124, dois a menos do que em 2022. Embora a representação da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) tenha aumentado de 81 para 88 cadeiras. Para o Senado, entre os 54 eleitos, os progressistas somam 16 parlamentares, uma redução de três cadeiras em relação à eleição anterior.

Embora sejam previstas reorientações políticas dos parlamentares, inclusive trocas de partidos, ao longo dos mandatos, o Congresso, em fevereiro de 2027, terá como principal força uma bancada de extrema-direita.

Caso as bancadas se movessem sempre e exclusivamente de acordo com sua vinculação partidária, um Congresso avesso aos direitos sociais, aos serviços públicos e à distribuição de renda exterminaria a saúde pública.

Contudo, temos experiências de realinhamentos transversais em relação a pautas sobre ampliação de acesso a cuidados à saúde e reconhecimento da relevância de agravos e doenças. Por isso, é importante examinar cuidadosamente o perfil e as possibilidades de coalizões temáticas entre políticos afeitos às políticas de saúde.

Entre os progressistas foram reeleitos para a Câmara de Deputados, por exemplo, Daiana Santos, sanitarista do Rio Grande do Sul, e os médicos Ana ­Pimentel, de Minas Gerais, ­Jandira ­Feghali, do Rio de Janeiro, e Jorge Solla, da Bahia. Rogério Carvalho, de Sergipe, e Humberto Costa, da Bahia, também médicos, renovaram seus mandatos no Senado.

Esses parlamentares aguerridos, de diferentes gerações, conferiram um suporte imprescindível para a preservação do preceito constitucional “saúde é direito de todos.”

Uma excelente novidade para a representação setorial popular foi a estreia de Nisia Trindade, ex-Ministra da Saúde, na carreira política, como representante do Rio de Janeiro.

Conservadores, de direita e extrema-direita, também contam com parlamentares vinculados a agendas da saúde. Contudo, a bancada conservadora da saúde se dispersa em uma ­miríade de temas expressos em projetos que não prosperam, em razão do falso ou até bem-intencionado acolhimento de ­demandas pontuais e indisposição para apresentação de pautas estruturantes.

Outra diferença com os progressistas refere-se à intensidade da correlação entre o uso de emendas orçamentárias e a busca de votos por políticos com atuação paroquial.

Deputados e senadores, com poucas exceções, se posicionaram a favor de vacinas e extensão de coberturas de ações e serviços de saúde. Projetos de Lei do Executivo para o fortalecimento do setor têm sido aprovados por maiorias expressivas.

Portanto, a saúde é política que pode transcender o perímetro de cada partido, tendência ou crença. Mas a limitação do governo para melhorar efetivamente a situação da saúde por meio de políticas, apenas incrementais, é um desafio incontornável.

Flávio Bolsonaro mente sobre quase tudo. Promete cortar gastos públicos e declara amor ao SUS, vai acabar com as filas, modernizar sistemas de informação, implementar telemedicina e manter a vacinação.

Mas não se pode acusá-lo de ocultar intenções genuínas quando propõe castração química para estupradores condenados, penas severas para menores e megapresídios.

O enraizamento do bolsonarismo e a necessidade de o desestabilizar exigem um debate corajoso sobre saúde e barbárie.

O tempo tem sido um marcador de comportamentos políticos que renunciam a delinear estratégias de longo prazo. O imediatismo resulta na produção de ­trailers de filmes que jamais serão realizados.

A disputa acirrada para a Presidência da República envolve o questionamento da dignidade humana e a razão de ser da saúde. Engajamento social e articulação política são essenciais para encontrar consensos, encarar com competência divergências e construir futuros compartilhados. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A bancada da saúde’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


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Médica, professora titular da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento da Saúde

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Fonte: Carta Capital

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