O negócio por trás de Banksy: como um grafiteiro “sem identidade” virou um nome milionário

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Por Sara Magalhães — Seu Dinheiro

Em outubro de 2018, uma pintura de Banksy havia acabado de ser arrematada por 1,04 milhão de libras quando começou a se destruir diante dos compradores. Uma máquina escondida na moldura triturou parte da imagem de uma menina tentando alcançar um coração vermelho. O público assistiu à cena perplexo e o mercado de arte ganhou ali um de seus episódios mais emblemáticos.

A provocação não saiu exatamente como se esperaria de uma obra destinada a desmoralizar os leilões. Rebatizada de Love is in the Bin, a peça voltou à leiloeira britânica Sotheby’s três anos depois e alcançou 18.582 milhões de libras, quase 18 vezes o valor da venda original.

Banksy, o artista por trás da obra, construiu sua reputação no anonimato radical e suas obras ficaram conhecidas por criticar o consumismo, a desigualdade e a própria comercialização da arte. Mas quem é a pessoa – ou as pessoas – por trás do pseudônimo Banksy? Um homem, uma mulher ou até um coletivo de artistas?

De Bristol para o mercado internacional

Banksy surgiu na cena de arte urbana de Bristol, na Inglaterra, nos anos 1990. Em vez de seguir o caminho tradicional de artistas que buscam reconhecimento por galerias, exposições e colecionadores, ganhou notoriedade com grafites e estênceis em espaços públicos.

O anonimato do artista ajudou a sustentar essa narrativa meio de crítico enigmático. Sem uma figura pública disputando atenção com as obras, o interesse se concentrava nas intervenções, nas mensagens e na pergunta que acompanhava cada novo trabalho.

Ao longo dos anos, o artista levou esse modelo para além de Bristol. Suas intervenções em Londres, na Cisjordânia e, mais recentemente, na Ucrânia ampliaram seu alcance e consolidaram sua presença no debate público. Em 2015, o projeto Dismaland, uma paródia sombria de um parque de diversões, levou a crítica social para uma instalação temporária de grande escala.

Obra de Banksy em muro na Ucrânia
Obra de Banksy em muro na Ucrânia – Imagem: Getty Images

A reputação construída nas ruas passou a alimentar o interesse do mercado. Quando uma obra de Banksy chega a um leilão, por exemplo, seu preço não depende apenas do material utilizado ou do tamanho da tela como acontece para muitos artistas. Fatores como a história da imagem, o contexto em que surgiu, sua raridade e a possibilidade de comprovar sua autenticidade também pesam na avaliação.

Uma possível identidade revelada

A ausência de uma identidade pública alimentou essa aura de surpresa em torno de suas obras. Banksy podia, de repente, aparecer em uma cidade, deixar uma imagem em um muro e simplesmente desaparecer.

Mas em março de 2026, uma investigação da Reuters voltou a associar Banksy a Robin Gunningham, artista nascido em Bristol, no sudoeste da Inglaterra. Ele, inclusive, já havia sido apontado como possível identidade do grafiteiro em reportagens anteriores. A agência, aliás, reuniu documentos, registros e entrevistas para sustentar a identificação.

Segundo a investigação, Gunningham também teria adotado o nome David Jones. O artista, porém, não confirmou publicamente essa identidade, e seu advogado contestou vários detalhes apresentados pela agência.

O mercado que movimentou quase US$ 250 milhões

A dimensão comercial desse fenômeno aparece nos números. As revendas de obras de Banksy movimentaram aproximadamente US$ 248,8 milhões desde 2015, de acordo com dados da consultoria de mercado ArtTactic.

O número se refere ao mercado secundário, isto é, às transações em que colecionadores revendem obras que já haviam comprado. Portanto, não representa o faturamento do artista nem o dinheiro que ele recebeu diretamente.

Quando uma obra passa de um colecionador para outro em um leilão, o vendedor recebe o valor da transação descontadas as taxas aplicáveis. O artista pode ter direito a royalties em determinadas revendas, conforme a legislação britânica, mas não fica automaticamente com o valor integral da venda.

Os recordes, ainda assim, ajudam a dimensionar o interesse dos compradores. Além de Love is in the Bin, outra obra, Game Changer, que retrata um menino brincando com uma boneca vestida de enfermeira enquanto deixa de lado seus super-heróis, alcançou quase 17 milhões de libras em 2021. Banksy doou a pintura ao hospital universitário de Southampton durante a pandemia de covid-19, e a instituição destinou o dinheiro arrecadado a projetos de saúde.

A empresa que decide o que é um Banksy autêntico

Uma das peças menos visíveis desse negócio é o Pest Control Office. Criada em 2008, a organização funciona como o ponto oficial de contato para questões relacionadas à obra de Banksy e é a única entidade autorizada pelo artista a emitir certificados de autenticidade para seus trabalhos elegíveis.

O próprio nome da entidade, aliás, que significa “controle de pragas” em tradução literal, carrega o característico humor crítico do artista.

“A perícia de autenticidade é um procedimento técnico conduzido por um profissional especializado, com o objetivo de avaliar a autenticidade, o estado de conservação e outros aspectos de uma obra, emitindo uma conclusão imparcial fundamentada em conhecimento especializado e em evidências”, explicou Gustavo Perino, perito de arte e CEO da Givoa, em entrevista ao Seu Dinheiro.

Além disso, a popularidade de Banksy também estimula falsificações. Uma imagem reproduzida em uma camiseta, uma impressão decorativa ou um grafite atribuído ao artista não se transforma em obra autêntica simplesmente porque imita seu estilo. A organização alerta para a circulação de produtos e exposições que não têm relação oficial com ele.

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Fonte: Seu Dinheiro

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