O SUS pode ajudar a virar o jogo nas eleições?

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Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental

Presidente do Cebes reflete sobre o desafio posto para o Brasil nas próximas duas semanas e a urgência de reeleger Lula diante da ameaça de retorno da ultradireita à presidência. E compara: “Nós temos a saúde como um direito inerente à cidadania e à condição humana”

Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

Os movimentos sociais e sindicais da saúde já mergulharam de cabeça na campanha de segundo turno em favor de Lula. Nos dias seguintes ao primeiro turno, dezenas de reuniões de grupos profissionais, universitários e populares foram realizadas para delinear as ações destes próximos dias.

Neste embalo, o primeiro legado que pode sair desta campanha eleitoral é uma nova atitude de todo o espectro ligado à esquerda frente as mídias digitais. Tal como no primeiro turno, as ruas já estão tomadas pela base de apoio a Lula. No entanto, há a grande esfinge a ser decifrada.

“Enfrentamos forças muito poderosas, das plataformas digitais que segmentam públicos, formatam opiniões e criam, o que acho fantástico e tenebroso ao mesmo tempo, a sensação de realidade. A pessoa pertence a um grupo por um viés de confirmação”, introduziu Carlos Fidelis, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde.

Apesar de focada em saúde, a entrevista com Fidelis, veiculada no programa do Outra Saúde no Farol Brasil, tratou das novas formas de fazer política, assunto onipresente neste momento.

Para Fidelis, parte do eleitorado de Flavio Bolsonaro foi condicionada por um fluxo direcionado de informações que provocaram o desejo “mudança”. O fenômeno é tão avassalador que o candidato do PL não precisou fazer um único discurso afirmativo em sua campanha. “De certa forma, o eleitor do Flavio Bolsonaro foi coerente diante das informações recebidas dentro de bolhas que só confirmam sua noção”, pontuou.

O choque das urnas abalou as estruturas partidárias e toda a campanha petista foi reestruturada. Novas figuras, como a jovem deputada Ana Elisa (PT-MG), passaram a participar da campanha e até a forma de Lula se comunicar já está alterada. É hora de passar ao ataque, com o reforço de pautas que ilustrem a grande diferença de perfil dos dois postulantes.

“Como escreveu Eliane Brum nestes dias, o sucesso de alavancar segmentos de um setor mais pobre para uma situação melhorada pode significar que as expectativas aumentam. E, ao subir de patamar, as pessoas atribuem ao seu esforço próprio, quem é religioso diz que é a vontade de Deus, mas efetivamente aumenta a exigência e a campanha precisa focar nisso”, alertou.

Na sexta, Outra Saúde já adiantou significados práticos de um eventual governo Flavio Bolsonaro, a partir de sua já anunciada política de austeridade. Como de hábito em toda sua campanha, o candidato mente ao falar de manutenção do SUS nos termos atuais ao mesmo tempo em que sinaliza cortes de pelo menos R$ 200 bilhões de reais na agenda social.

Sua revisão do piso constitucional é incerta e deve continuar escondida. Mas parece o caminho para cumprir um ajuste fiscal tão profundo como sonha o mercado financeiro. Assim, as comparações com o governo do pai são inevitáveis.

“Isso ocorreu justamente quando a população envelhecia, crescia a necessidade de incorporar tecnologias e medicamentos para melhorar os resultados em saúde e se faziam sentir os efeitos das mudanças climáticas sobre as condições de saúde da população. Entre 2017 e 2022, a perda acumulada foi de aproximadamente R$ 60 bilhões”, lembrou a economista Mariana Alves Melo.

Mais objetivamente, uma possível eleição de Flávio Bolsonaro indica que os programas retomados pelo governo Lula, em especial no período de Nísia Trindade à frente do Ministério da Saúde, serão desmantelados. Menos acesso a médicos e equipes de saúde na atenção básica, menos remédios e menos especialistas, em resumo.

“O Farmácia Popular atende 27 milhões de pessoas. No governo Bolsonaro, o orçamento foi lá pra baixo, coisa de R$ 1 bilhão. Hoje, é quase R$ 5 bi. Um programa importante que oferece medicamento gratuito para hipertensão, diabetes, Parkinson, fraldas geriátricas e dignidade menstrual. Fora isso, houve um acúmulo de cirurgias, demanda reprimida, que foi atacada tanto com Nísia como Padilha”, destacou Fidelis.

Outra característica já cristalizada nesta e nas últimas campanhas eleitorais é a rejeição ao adversário. Mais do que falar das próprias propostas, parte dos candidatos parece se sustentar no discurso de aversão ao outro. E tal dinâmica é altamente potencializada pelos algoritmos. Dessa forma, Fidelis destaca ameaças práticas do bolsonarismo contra o direito à saúde.

“Bolsonaro atacou o Programa Nacional de Imunizações, de controle do câncer, do HIV, fora as denúncias de propina para aquisição de vacinas, o ataque ao uso de máscaras e isolamento na pandemia. Aquele momento virou uma loucura, as pessoas dizendo que os hospitais estavam vazios, que era uma propaganda e os caixões carregavam pedras”, rememorou Carlos Fidelis a respeito da crise sanitária de covid-19.

Mais que isso, a depredação seria institucional. Provavelmente, como já alertado por alguns analistas do setor, o ministério voltaria a ser militarizado e aparelhado. E instituições que fizeram alguma resistência ao governo de Jair Bolsonaro quase certamente seriam alvos mais explícitos.

“Flavio vai querer picotar a Fiocruz, acabar com o controle social do SUS e o Conselho Nacional de Saúde, como fez seu pai em outros órgãos de participação social. No caso do CNS, só não conseguiu porque havia lei protetora, mas isso não impede novo ataque.”

Para ele, o SUS é bandeira que oferece caminhos para ampliar a esperança em dias melhores. “O conceito de saúde ampliada é um poderoso instrumento. Flávio vende um conceito de saúde como direito do consumidor. Nós temos a saúde como um direito inerente à cidadania e à condição humana”, sintetizou.

Dentro desta ideia ampliada de saúde, Fidelis reflete como um governo violento e autoritário pode determinar condições gerais de saúde e custos socioeconômicos menos visíveis. “Uma sociedade que não se espanta com a fome, com o tiroteio, as mortes, as chacinas não está saudável. Cada um de nós passa a ter medo, que se traduz em adoecimento físico e psíquico, como ansiedade, depressão, gastrite, hipertensão.”

Sua fala ecoa o discurso de Sergio Arouca, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986: “[Saúde] é não estar todo o tempo submetido ao medo da violência, tanto daquela violência resultante da miséria, que é o roubo, o ataque, como da violência de um governo contra o seu próprio povo, para que sejam mantidos interesses que não sejam os do povo, como aconteceu, infelizmente, na última década, na América Latina, e continua ainda a acontecer em alguns países”.

Clique aqui para consultar postagens publicadas até 31/dez/15.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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