Seu time ajudou a decidir o 1º turno e pode definir quem será o novo presidente

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Por Leonardo Miazzo — Carta Capital

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Em meio a protestos de estudantes que venceram o desânimo, torcedores organizados demonstraram ter a capacidade de despontar na cena pública

A céu aberto, os torcedores diante do gramado de São Januário não acompanhavam os movimentos iniciais do período eleitoral. Embora o estádio tenha sido escolhido como um dos primeiros locais para campanha da principal candidatura de oposição, não seria perante os olhos das multidões na arquibancada que o principal gesto do dia se consumaria. Depois de atravessar corredores vazios, Flávio Bolsonaro visitou representantes de Vasco da Gama e Santos, envolvidos na partida do Campeonato Brasileiro em 16 de agosto, e teve a camisa autografada por Neymar.

A cena serve de alegoria para a conduta desde então: subterrâneo e menos propenso a rompantes para grandes audiências do que o pai, Flávio investe às sombras na ofensiva até o poder. As plataformas digitais oferecem visibilidade ao candidato envolto em tamanha penumbra – foram o destino, afinal, das fotos que registravam os encontros no Rio de Janeiro . Reluz, assim, o contraste com as imagens do seu adversário cercado pela multidão no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no mesmo dia: à luz do sol , Lula começou a campanha . 

Mas o episódio é ainda mais marcante devido à associação entre esporte e política. O senador optou pelo tradicional estádio dos atos públicos por direitos trabalhistas para pedir votos. Sob a Colina Histórica, organizações sindicais presenciaram anúncios de conquistas como o estabelecimento do salário mínimo, a instalação da Justiça do Trabalho e a assinatura da CLT . Tudo isso durante os anos 1940, no gramado do Vasco. Já em agosto deste ano, o então presidente Pedrinho ofereceu o espaço para o desfile do encarregado de levar adiante as intenções da tentativa de golpe de 8 de Janeiro de 2023.

Entre lampejos e apagões , o futebol voltou à tona com a derrubada dos sites de apostas, graves fontes de endividamento das famílias do Brasil —  país no qual todos se julgam especialistas na modalidade, a ponto de perderem dinheiro com a crença. O  fim das bets provocou reações histriônicas de dirigentes de clubes, sob a alegação de que a medida inviabilizaria a manutenção das equipes profissionais. Entretanto, novamente o conflito assumia duas faces: e a menos aparente, aqui, foi adotada por quem arrancou mais votos no primeiro turno da eleição presidencial.

São Paulo, Santos, Palmeiras, Cruzeiro, Fluminense e Botafogo fizeram coro à histeria. A despeito de não ser diretamente mencionado, Flávio Bolsonaro foi um fator de coesão às reivindicações: enquanto os clubes lançavam torcedores contra a decisão, Lula ficava exposto sem que a oposição se indispusesse. Não é exagero afirmar que, em maior ou menor grau, os demais clubes da Série A endossaram a reclamação – ora com a cumplicidade do silêncio, ora com acenos sugestivos. E o caso reuniu novamente Vasco e Flamengo em torno do bolsonarismo.

Durante a pandemia, os dois rivais haviam negligenciado medidas sanitárias. Ambos fizeram lobby, passaram por cima das regras de distanciamento e outra vez alegaram que a economia do futebol ia quebrar caso suas ambições não se concretizassem . A exemplo do que aconteceu na crise do coronavírus, o Flamengo é o mais enfurecido. Entrou como parte interessada na ação das empresas de aposta no Supremo Tribunal Federal, publicou manifesto e esperneou publicamente de diferentes maneiras . Esse aparente consenso, contudo, não resiste à diversidade que caracteriza o esporte.

Se os clubes se resumissem a gabinetes e cartolas, não comoveriam as multidões arrastadas pelo futebol. Compõem o universo dos times as decisões administrativas, sim, mas também jogadores , treinadores e outros profissionais que não permitem imaginar qualquer unanimidade política. Para além do histórico do século XX, exemplos recentes demonstram isso. Ao longo da pandemia, grupos de torcedores romperam o domínio que bolsonaristas tinham nas ruas com seus atos e retomaram o protagonismo por meio de manifestações contra o negacionismo .

Torcidas jovens, formadas principalmente durante a repressão da ditadura (1964-85), apoiaram timidamente candidaturas pelo Brasil. As manifestações públicas escaparam dos cargos majoritários . O histórico de violência é um desafio para a compreensão de como esses grupos se inserem na vida partidária, mas a reiterada perseguição por parte do poder público, a participação de torcedores de diferentes classes sociais e a disposição para o enfrentamento contra hierarquias ou subordinações fazem surgir mais focos de confronto. 

Portanto, essa comoção vai influenciar o segundo turno – no mínimo, as discussões serão incentivadas por adesões ou rejeições de quem acompanha e vibra com suas equipes. Os últimos dias dão outras sinalizações nessa direção: em meio aos protestos de estudantes que venceram o desânimo com o resultado das urnas, torcedores organizados demonstraram ter a capacidade de despontar na cena pública . Caso a postura institucional se mantenha, os dirigentes dos clubes de futebol podem ser surpreendidos com expressões em grande escala, antagônicas aos próprios interesses . 

Como os principais clubes cariocas foram centrais na investida de Flávio Bolsonaro sobre o futebol, a cidade pode iluminar a paisagem política com mais exemplos de participação. Também reconhecidas pela popularidade, competidoras da divisão de elite do Carnaval como Mangueira e Paraíso do Tuiuti manifestaram abertamente apoio a Lula. Em contraponto à obscuridade, posicionamentos públicos. As duas escolas de samba pertencem à zona norte do Rio de Janeiro – mesma região em que se situa o estádio de São Januário, cuja memória agora se encontra em disputa.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Helcio Herbert Neto

Doutor em História Comparada pela UFRJ, é professor substituto da UFRRJ e desenvolve pesquisas sobre esporte e sociedade na UERJ no âmbito do Programa de Pós-Doutorado Nota 10 (Faperj)

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Fonte: Carta Capital

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