Por Rodrigo Martins — Carta Capital

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O recado das urnas é claro: a esquerda precisa radicalizar e propor mudanças capazes de transformar concretamente a vida dos brasileiros

A ressaca moral deixada pelas urnas de 4 de outubro de 2026 exige do campo progressista algo mais difícil do que procurar culpados, denunciar algoritmos ou esperar que a ameaça da extrema direita seja suficiente para reorganizar uma maioria social. O resultado eleitoral expôs uma questão muito incômoda: a direita continua capaz de oferecer pertencimento, indignação e uma imagem de futuro, ainda que regressiva.

O recado das urnas é claro: no mundo atual, em que a democracia liberal parece não encontrar respostas aos desafios da sociedade, os discursos radicalizados se ampliam, ganham corpo e adesão das massas. Atônitos, representantes da social-democracia assistem a estratégias de frentes-amplas e cordões sanitários contra o fascismo se romperem. Caberia à esquerda tradicional dos países ocidentais retomar posições antissistema e recuperar o campo da indignação coletiva?

A enormidade de votos conferidos a figuras da extrema direita como Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, e Lucas Pavanato, em São Paulo, sugere a resposta positiva à pergunta acima. Por outro lado, importantes nomes da chamada esquerda radical também foram eleitos com votações expressivas, a exemplo de Jones Manuel, em Pernambuco, Elias Jabbour e Renato Teixeira, ambos no Rio de Janeiro. A bancada ligada ao MST elegeu oito deputados.

Em 2022, a frente ampla foi uma resposta a uma circunstância excepcional. Diante do risco de continuidade do bolsonarismo, reuniu-se um arco político que ia da esquerda a setores liberais e conservadores em defesa da democracia. A composição cumpriu sua função eleitoral. O problema foi permitir que uma solução de emergência se transformasse, aos poucos, no horizonte da própria ação política.

Entre 2023 e 2026, o governo se dedicou à reconstrução de políticas públicas, à recomposição de capacidades estatais e à administração de uma coalizão heterogênea. Era necessário reconstruir o que havia sido desmontado. Mas necessidade não é projeto histórico.

Aos poucos, a defesa das instituições passou a ocupar o espaço antes reservado à transformação das instituições. A gestão do possível substituiu a disputa pelo desejável. A esquerda chegou ao governo, mas deixou de dizer com clareza para onde pretende levar o país.

É esse o bode que precisa ser colocado na sala.

Durante boa parte do século XX, a esquerda organizou sua identidade política em torno de promessas coletivas: trabalho, salário, terra, educação, industrialização, mobilidade social, soberania e redução das desigualdades. Podia-se discordar das respostas oferecidas, mas havia uma ideia de futuro reconhecível. A política progressista apresentava uma promessa na qual a vida de quem vinha depois poderia ser melhor.

Hoje, parte importante desse discurso parece dividida entre a administração técnica do presente e uma gramática política crescentemente organizada em torno de identidades específicas. A defesa dos direitos de mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBT e de outros grupos historicamente discriminados é uma conquista democrática que não pode ser relativizada. Precisamos, porém, assumir que estas demandas deixaram de estar articuladas a uma interpretação comum da sociedade e a um projeto compartilhado de transformação.

A fragmentação da política em experiências individuais pode produzir reconhecimento, mas dificilmente produz, sozinha, pertencimento coletivo. Quando cada grupo é convocado sobretudo a partir de sua própria identidade, torna-se mais difícil construir uma linguagem capaz de aproximar o trabalhador informal, a mulher da periferia, o jovem sem perspectiva, o pequeno agricultor, o servidor público e os moradores das regiões esquecidas em torno de uma mesma expectativa de mudança.

A extrema direita percebeu essa lacuna. Ela não oferece apenas conservadorismo moral. Oferece antagonistas, pertencimento e uma explicação para o mal-estar social. Sua narrativa pode ser falsa, simplificadora e muitas vezes profundamente injusta, mas tem uma qualidade politicamente decisiva, em que organiza a indignação e oferece uma saída individual para o apocalipse do projeto coletivo.

O campo progressista, em contraste, passou muitas vezes a responder com defesa institucional, indicadores de políticas públicas e alertas sobre os riscos à democracia. Apesar de pontos importantes estas pautas não mobilizam a sociedade. A busca por adesão popular ao campo progressista passa, necessariamente, pela compreensão de que a defesa das instituições de estado liberal não encontra eco entre as massas empobrecidas e oprimidas por essas mesmas instituições. Novamente, o recado é claro: ou o campo progressista se radicaliza ou morre!

Alguns exemplos práticos de reposicionamento que podem ser adotados no campo da esquerda é a entrada efetiva nos serviços virtuais. A exemplo do aplicativo desenvolvido na cidade de Ouro Preto (MG) o governo brasileiro pode lançar seu aplicativo de transporte individual, vinculando ao programa de renovação da frota (Move Brasil). Iniciativas desta natureza podem prosperar nas áreas de aluguel de temporada, e nos mecanismos de redes sociais. Aumentar a fatia da remuneração que fica com a população brasileira, e diminuir a contínua transferência de recursos para as big techs, parece um caminho promissor neste sentido.

É nesse ponto que a esquerda precisa enfrentar suas próprias zonas de conforto. Radicalizar não significa abandonar a democracia nem reproduzir a brutalidade discursiva de seus adversários. Significa voltar a formular mudanças capazes de alterar materialmente a vida das pessoas.

Mais do que isso, significa recuperar a capacidade de oferecer uma imagem desejável de futuro.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Pedro Assumpção Alves

Economista e mestre em Demografia, é servidor público federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental


Cristiano Lafetá

Graduado em Ciências Sociais pela USP e em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Belo Horizonte, possui mais de 20 anos de experiência em projetos socioambientais, socioculturais e de promoção do desenvolvimento territorializado

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Fonte: Carta Capital

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