Crise de fertilizantes no Estreito de Ormuz ameaça segurança alimentar na Ásia e na África, alerta ONU

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – A falta de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã, dentro do prazo de poucas semanas, em relação a um plano apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para restabelecer o transporte de fertilizantes pelo Estreito de Ormuz, pode deflagrar uma crise grave de segurança alimentar em diversas regiões da Ásia e da África, segundo reportagem da Reuters.

As Nações Unidas estruturaram uma força-tarefa em março com o objetivo de viabilizar a passagem segura dos insumos agrícolas pelo estreito. Apesar de o mecanismo elaborado ainda não ter sido colocado em prática, o subsecretário-geral das Nações Unidas, Jorge Moreira da Silva, afirmou que a operação pode ser ativada entre sete a dez dias após a assinatura de um entendimento formal entre Washington e Teerã.

“É absolutamente crucial fechar o acordo nas próximas semanas. Caso contrário, perderemos a época de plantio”, alertou Moreira da Silva durante entrevista em Bangcoc, concedida à margem dos encontros anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. A Casa Branca, o Departamento de Estado norte-americano e a Embaixada do Irã em Bangcoc não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.

Teerã tem buscado intensificar o controle sobre o Estreito de Ormuz desde os ataques perpetrados pelos Estados Unidos e por Israel em 28 de fevereiro, utilizando essa rota estratégica como ponto de pressão contra Washington, que mantém seu próprio cerco naval aos portos iranianos. Antes do início do conflito, a via marítima respondia pelo trânsito de aproximadamente um terço da ureia negociada globalmente — o fertilizante mais utilizado no planeta — e por quase metade do enxofre transportado por via marítima, insumo fundamental para a produção agrícola, além de ser um canal vital para o suprimento mundial de petróleo.

Mais de seis meses após o início das hostilidades, os embarques de fertilizantes a partir do Golfo seguem praticamente paralisados, segundo avaliação divulgada no mês passado pelo Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar, sediado em Washington. A entidade destacou que os fertilizantes representaram uma parcela “muito insignificante” na retomada pontual de cargas ocorrida durante um breve cessar-fogo entre meados de junho e meados de julho.

Diante do impasse prolongado, um relatório publicado em agosto pela Câmara de Comércio Internacional projetou impactos severos nos preços das commodities caso a interrupção no Estreito de Ormuz persistir. As altas estimadas podem atingir até 81% para os cereais, 66% para as culturas oleaginosas e 30% para os produtos de origem animal.

“Se perdermos essa época de plantio, a produtividade da agricultura cairá significativamente e o impacto sobre os preços aumentará consideravelmente”, reiterou o subsecretário-geral da ONU.

A logística proposta pelo organismo internacional prevê o uso de um centro de coordenação localizado em Omã para fazer o registro dos navios e coordenar a travessia segura. Monitores das Nações Unidas atuariam em conjunto com autoridades locais nos portos do Golfo para verificar o carregamento e a autenticidade das cargas. De acordo com Moreira da Silva, a autorização de passagem para apenas cinco embarcações por dia pelo Estreito de Ormuz já seria suficiente para manter o abastecimento contínuo de fertilizantes aos países em situação de necessidade crítica. Todo o percurso dos navios seria rastreado e inspeções adicionais poderiam ser conduzidas caso qualquer nação apresentasse questionamentos sobre o navio ou o conteúdo transportado.

Atualmente, Irã e Estados Unidos trocam propostas por meio de intermediários diplomáticos desde o fracasso do cessar-fogo provisório firmado em junho. As tratativas para reabrir o tráfego no estreito encontram-se travadas devido às exigências impostas pelo governo iraniano e pela insistência de Washington em incluir o programa nuclear de Teerã na pauta desde o início das conversas.

Apesar das divergências, o representante da ONU reforçou que a estrutura humanitária pode funcionar em paralelo às negociações políticas de longo prazo. “O que estamos dizendo a eles é: enquanto vocês continuam suas discussões rumo a um acordo abrangente, deixem-nos trabalhar, deixem-nos fazer nosso trabalho”, declarou Moreira da Silva, que preferiu não detalhar os pontos específicos de desacordo por conta do andamento diplomático com ambas as partes.

A ameaça à estabilidade alimentar mundial é agravada por tensões adicionais em outros pontos logísticos vitais. A deterioração da segurança na região do Mar Negro, onde navios cargueiros têm sido alvo de ataques constantes, somada às ofensivas promovidas por militantes houthis apoiados pelo Irã em rotas decisivas do Mar Vermelho, intensifica o risco global.

“O que estamos testemunhando agora é uma concentração de fatores”, concluiu Moreira da Silva. “A crise climática, a interrupção simultânea de pontos de estrangulamento marítimos no Mar Negro, no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz”.

Fonte: Brasil 247

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