Flávio Bolsonaro mudou o discurso, não a prática: a extrema direita e o fim da escala 6×1
Por Márcio Ayer — Brasil de Fato
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Depois de três anos chamando a medida de “inoportuna” e “eleitoreira”, Flávio Bolsonaro anunciou que vai votar a favor da PEC que acaba com a escala 6×1 no Brasil, reduzindo a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salários e sem perda de direitos. A mudança veio a 12 dias do segundo turno. Não por convicção, mas em resposta à pressão da classe trabalhadora, que colocou o tema no centro do debate político e encurralou a extrema direita.
Queria ver agora a cara dos bolsonaristas que eram contra o fim da escala 6×1.
Mas não se engane com a conversa de véspera. As palavras dele mudam conforme o vento da eleição. O que ele escreve não vale o papel em que está escrito, o que ele promete hoje pode ser rasgado amanhã. A verdade é que, embora agora diga da boca pra fora que é favorável ao fim da 6×1, Flávio sempre defendeu o modelo sintetizado na PEC 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN). A ideia é pagar ao trabalhador apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, com férias, 13º salário, FGTS e outros direitos econômicos proporcionais, sem a necessidade de intermediação dos sindicatos para negociar novos arranjos.
Aqui mora um perigo que ninguém está vendo. A PEC 12/2026 é uma armadilha para demitir sem pagar rescisão. Atualmente, é proibido reduzir salários no país. A proposta de Flávio e Marinho, porém, permite ao patrão cortar gradualmente a jornada e o salário, sem a intervenção do sindicato, até o trabalhador não conseguir mais sobreviver e ser forçado a pedir demissão. Com isso, a empresa consegue demitir sem pagar a rescisão, a multa do FGTS, o seguro-desemprego e o aviso prévio, deixando o trabalhador sem direitos e com o fundo de garantia preso.
Se ele for eleito, não se iluda: vai usar a caneta para tentar anular essa conquista da classe trabalhadora. A promessa de campanha serve apenas para ganhar o voto. No Palácio do Planalto, ele vai acenar com uma mão enquanto esconde na outra seu “tesouraço” de cortar direitos.
Segundo o Dieese, os trabalhadores intermitentes no Brasil receberam em média 762 reais por mês. Se considerarmos apenas as mulheres, a média é ainda menor: 483 reais. É esse o futuro que Flávio e seus seguidores querem para todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.
O caminho é outro. O fim da 6×1 garante cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução de salário, porque as pessoas querem melhorar de vida, mas também querem tempo para viver, descansar, cuidar da saúde estar com a família.
A votação no Senado do fim da escala 6×1 está em curso. Nossa luta arrancou essa mudança de discurso de quem se dizia contra. Agora é pressão total para arrancar o voto pelo fim da 6×1 — sem perda de salário, sem precarização, sem entregar o nosso descanso na mão do patrão.
Que ninguém se esqueça de quem chamou a PEC de oportunista e tentou empurrar uma falsa negociação entre patrão e empregado. Fica a lição: direitos não se ganham de favor, se conquistam com organização e luta.
*Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e Secretário Nacional de Comércio e Serviços da CTB.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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Fonte: Brasil de Fato