Acordo comercial entre China e UE sobre veículos híbridos garante crescimento das exportações e tratamento justo às empresas chinesas, dizem especialistas

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Por Leonardo Sobreira — Brasil 247

247 – A China e a União Europeia (UE) conduziram mais de 30 rodadas de consultas intensivas sobre o comércio de veículos híbridos e elétricos. Durante as negociações, a delegação chinesa manteve uma postura aberta e diálogo contínuo com as indústrias automobilísticas de ambos os lados, segundo uma fonte próxima às tratativas ouvida pelo jornal Global Times.

As partes chegaram a um acordo que prevê um ajuste progressivo, adotando como base o volume de veículos híbridos chineses importados pela UE em 2025, com acréscimos anuais fixos a partir desse marco. Segundo informou o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) nesta segunda-feira, a medida assegura que as montadoras do país tenham espaço para manter e expandir gradativamente suas exportações

Ficou também acordado que nenhuma medida poderá visar especificamente os produtos chineses ou discriminar as empresas do país. Além disso, a cota atribuída à China não será inferior àquela concedida pela União Europeia a qualquer outro mercado fornecedor.

O acordo está entre os 16 resultados alcançados durante a segunda reunião do mecanismo de consultas sobre comércio e investimentos entre China e UE, realizada em Pequim nos dias 8 e 9 de outubro. As discussões abrangeram temas como comércio e investimentos, controles de exportação, direitos de propriedade intelectual e reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O entendimento sobre veículos híbridos atraiu atenção após reportagens da imprensa estrangeira sugerirem que ele poderia reduzir as exportações chinesas desses automóveis para a União Europeia em mais de 50% nos próximos quatro anos, em comparação com os volumes projetados.

O Global Times apurou que as negociações utilizaram como referência as importações efetivas de veículos híbridos chineses realizadas pela UE em 2025. Segundo dados do Eurostat, o bloco importou 107 mil veículos híbridos da China em 2024, número que aumentou para 302 mil em 2025.

De acordo com Chen Jingjing, secretária-geral do departamento automotivo da Câmara de Comércio da China para Importação e Exportação de Máquinas e Produtos Eletrônicos, as regras que regem as investigações de salvaguardas comerciais determinam que os cálculos sejam baseados nas estatísticas oficiais da economia importadora.

“Ao garantir um acordo que permite que as exportações continuem crescendo a partir do volume efetivamente importado pela UE em 2025, a China assegurou os maiores benefícios possíveis de exportação para suas montadoras”, afirmou.

Analistas observaram que a alegação de uma redução superior a 50% se baseia na projeção, para os próximos quatro anos, do rápido crescimento registrado pelas exportações chinesas de veículos híbridos nos últimos anos. Os números resultantes dessa projeção são então comparados com os limites estabelecidos pelo acordo, em vez de se utilizarem os volumes efetivos de importação considerados nas negociações.

Essas projeções são inerentemente incertas, uma vez que o crescimento das exportações observado anteriormente foi influenciado por fatores de mercado de curto prazo.

Cabe destacar que o acordo se aplica exclusivamente aos automóveis de passeio híbridos, e não a todas as exportações chinesas de veículos para a União Europeia.

Dados da alfândega chinesa mostram que a China exportou aproximadamente 1,009 milhão de veículos para o bloco em 2025, um aumento de 30,4% em relação ao ano anterior. Desse total, 181 mil eram veículos movidos a combustíveis convencionais, 472 mil eram elétricos e 356 mil eram híbridos.

Os automóveis híbridos representaram cerca de 35,3% do total, aproximadamente um terço, demonstrando que o acordo abrange apenas uma parcela das exportações automotivas chinesas destinadas à UE.

Zhou Mi, pesquisador da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, afirmou ao Global Times que o entendimento responde às preocupações das indústrias dos dois lados, ao mesmo tempo que preserva espaço para a continuidade do crescimento das exportações e para o planejamento empresarial.

Segundo ele, a União Europeia apresenta uma demanda significativa por veículos importados, especialmente híbridos, e restringir as importações provenientes da China tornaria mais difícil atender a essa demanda.

Zhou destacou que, nas últimas décadas, as empresas chinesas fortaleceram suas capacidades por meio da concorrência justa, da inovação e da resposta às necessidades dos consumidores. O tratamento igualitário, portanto, proporcionaria uma base mais sólida para que as empresas buscassem oportunidades de cooperação, acrescentou.

As consultas recentes também contribuíram para estabilizar as expectativas do ambiente empresarial de maneira mais ampla.

Durante uma reunião com o presidente-executivo da Danone, Antoine de Saint-Affrique, na segunda-feira, o ministro do Comércio da China, Wang Wentao, afirmou que a segunda reunião do mecanismo de consultas sobre comércio e investimentos entre China e UE produziu uma série de resultados e entendimentos que ajudaram a estabilizar as expectativas dos setores envolvidos.

Wang também declarou que a China continua comprometida com a ampliação de sua abertura econômica de alto padrão. Segundo ele, o crescimento do mercado consumidor chinês e a contínua modernização dos padrões de consumo criam amplas oportunidades para empresas com investimento estrangeiro.

O ministro incentivou a Danone a ampliar seus investimentos na China, bem como suas atividades de pesquisa e desenvolvimento orientadas pela inovação.

Segundo analistas, a importância mais ampla das negociações comerciais entre China e UE depende, em última instância, de sua capacidade de oferecer às empresas dos dois lados confiança para investir e operar em condições de mercado estáveis e previsíveis.

Entretanto, embora a China tenha participado das negociações com sinceridade, algumas ações da União Europeia prejudicaram a confiança mútua, segundo a fonte familiarizada com as conversas.

A China demonstrou tanto sinceridade quanto paciência na busca por soluções negociadas, mas a sinceridade não pode ser unilateral, assim como a paciência chinesa não é ilimitada.

Nesse contexto, a confirmação, por ambas as partes, de que os acordos comerciais devem estar em conformidade com as regras da OMC assume importância especial.

Chen afirmou que isso significa que a China mantém todos os seus direitos no âmbito da Organização Mundial do Comércio, incluindo o direito de recorrer aos mecanismos de solução de controvérsias e de buscar compensações comerciais.

Caso a União Europeia viole as regras pertinentes da OMC durante sua investigação, a China poderá utilizar todos os meios legais compatíveis com essas normas para proteger efetivamente os interesses das empresas chinesas, proporcionando maior segurança ao setor empresarial, concluiu Chen.

Fonte: Brasil 247

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