Lula se recupera na reta final
Por Emir Sader — Brasil 247
Desde o resultado do primeiro turno, o cenário político brasileiro passou a considerar a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Ele passou a se comportar como favorito, a ponto de escolher ministros de seu possível futuro ministério. Grupos políticos pequenos, supostamente de centro, aderiram a Flávio.
As bolsas de valores e o preço do dólar expressaram seu contentamento: uma subindo, o outro descendo. O grande empresariado superou o susto de uma eventual reeleição de Lula.
Mas, ao mesmo tempo, setores democráticos — inclusive de centro, bem como meios de comunicação — começaram a se assustar com as possíveis consequências para a democracia que adviriam de um eventual governo de extrema-direita no país.
Contudo, a maior reação veio, de forma surpreendente, do movimento popular — e de uma maneira inesperada. Pesquisas indicavam que os jovens seriam os menos interessados em política e que, inclusive, estariam mais propensos a votar em Flávio do que em Lula.
Mas, de repente, eclodiu no país uma outra reação, com as maiores manifestações populares que o Brasil já viu, lideradas justamente por jovens. Isso demonstrou que o suposto desinteresse deles era em relação à política tradicional. Quando perceberam que suas liberdades e direitos individuais seriam profundamente afetados por uma eventual vitória da extrema-direita, eles saíram às ruas de forma espetacular por todo o país para manifestar apoio a Lula e defender a democracia.
As manifestações ocorreram em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e na Bahia, mas se estenderam a praticamente todas as regiões do Brasil. Nunca se tinha visto algo assim no país. Milhões de pessoas — inclusive nas províncias mais alinhadas à direita, segundo o resultado eleitoral de poucos dias antes — saíram de forma espetacular às ruas de cidades grandes, médias e pequenas.
Com música — como é característico de tudo o que é importante no Brasil — e com manifestações que lembravam o Carnaval, mas desta vez carregadas de um profundo sentido político, expressando indignação contra Bolsonaro e apoio a Lula e à democracia.
Depois que pesquisas haviam apontado que Flávio teria uma vantagem de 4 pontos sobre Lula, essas manifestações começaram a demonstrar uma reviravolta na situação política, a ponto de os grandes meios de comunicação — que, de forma espantosa, haviam tentado esconder as gigantescas concentrações — serem obrigados a noticiá-las, ainda que de maneira modesta e quase envergonhada.
Até que novas pesquisas tiveram de refletir a mudança na situação política e na opinião pública, refugiando-se no empate técnico, mas chegando até a apontar um empate numérico entre os dois. Uma fotografia da situação que não expressa a tendência. Para quem se voltaria o favoritismo?
Flávio sentiu o impacto da rejeição generalizada à sua proposta de “privatizar 95% das empresas estatais”. Passou a dizer que não privatizará nem a Petrobras, nem o Banco do Brasil, nem a Caixa Econômica — ou seja, as principais empresas estatais.
De sua rejeição às políticas sociais — vistas como formas de comprar o voto dos pobres —, passou a dizer que manterá o Bolsa Família e outros programas sociais do governo Lula. Essa mudança de posição e adesão às políticas de Lula é quase uma tentativa desesperada de reconhecer que tais políticas são vitoriosas, obrigando-o a desdizer o que havia afirmado anteriormente e a aderir a propostas centrais do governo Lula. O mais provável é que o vencedor o faça por uma margem muito estreita, o que, segundo as pesquisas, aponta para um país dividido. Mas, como se costuma dizer, a pesquisa é uma fotografia. Seria preciso analisar as tendências, que projetam o resultado para o futuro.
Com base nessa tendência, é possível apontar uma leve vantagem para Lula, que chega em condições mais favoráveis — com mais ritmo e reservas de energia — graças às gigantescas manifestações populares a seu favor que continuam ocorrendo em todo o país.
O desempate, caso ocorra, dar-se-á pela intervenção das massas na política. São pouco menos de duas semanas decisivas para o destino do Brasil, com consequências também em âmbito internacional.
Fonte: Brasil 247