Marcelo Santos abandona de vez o palanque de Ricardo e Casagrande

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Publicado em 14 de Outubro de 2026 às 05:00

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O presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo,
Marcelo Santos, abandonou de vez o palanque governista. Com uma mão, soltou a
do governador Ricardo Ferraço (MDB); com a outra, soltou a do ex-governador
Renato Casagrande (PSB). Pelo que apurei, Marcelo entende já ter feito sua
parte e já não ter compromisso político algum com ambos, no segundo turno da
eleição estadual.

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Presidente estadual do União Brasil, Marcelo não se
pronunciou até agora sobre o segundo turno entre Ricardo e Pazolini. Não
pretende dar declaração alguma sobre o tema até a conclusão do processo, no
próximo dia 25. Mas é fato: foi ele quem articulou, junto ao presidente nacional
do União, Antônio de Rueda, o anúncio de apoio da direção nacional do partido a
Pazolini – contra Ricardo Ferraço, apesar de o União fazer parte da coligação
do emedebista no Espírito Santo.

O anúncio foi feito no último fim de semana. Foi uma forma
de terceirizar para a nacional a guinada em direção a Pazolini, eximindo-se de
responsabilização direta, enquanto “mergulha” durante o segundo turno.  

Antes disso, em um gesto repleto de significação, Marcelo e Josias
da Vitória tomaram café da manhã com Pazolini e se deixaram fotografar com ele,
na última sexta-feira (9). Em gesto obviamente calculado, a foto foi postada
pelo adversário de Ricardo nas redes sociais.

Da Vitória é o presidente estadual do PP, a outra perna da
Federação União Progressista. Ele e Marcelo são os dois líderes estaduais da
federação que está na coligação governista. Café com sabor de infidelidade.

Tem mais. Ainda na sexta-feira, Marcelo reuniu dezenas de
aliados e apoiadores dele em um cerimonial de Bento Ferreira, em Vitória, para
fazer um balanço da campanha, na qual ele mesmo foi candidato a deputado federal
e conseguiu se eleger, com 82.365 votos (o 6º mais votado para o cargo no
Espírito Santo).

Acorreu muita gente do União, incluindo dirigentes municipais,
mas também pessoas de outros partidos politicamente ligadas a Marcelo. Segundo
três participantes, nessa reunião a portas fechadas, Marcelo…

1) Externou grande insatisfação com Casagrande e com o
prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB). Citou os dois pelo nome. O
presidente da Assembleia acredita ter sido desidratado e prejudicado em sua
própria campanha por “movimentos bruscos”, em redutos dele, realizados por
Euclério em favor de Messias Donato (União) e por Casagrande em benefício de
Emanuela Pedroso (PSB), também candidatos a deputado federal.

2) Informou que, no que lhe diz respeito, o acordo político-eleitoral
com Casagrande e Ricardo está cumprido e encerrado. Ele deu todo o apoio a
Ricardo no primeiro turno, mas, no seu entendimento, o acordo venceu no dia 4.
Não previa apoio no segundo turno.

3) Abriu a palavra e ouviu dirigentes municipais do União,
que em sua grande maioria manifestaram preferência pela ideia de apoiar
Pazolini no segundo turno.

4) Liberou a militância e os representantes do partido nos
municípios para se posicionarem agora conforme a consciência de cada um.

Resumindo: Marcelo
liberou seu grupo político
.

“Ele liberou a base do União. Disse que, agora no segundo turno,
os capixabas vão fazer o que entenderem ser melhor para eles. E que agora ele
vai se dedicar da casa e da família dele”, relata um interlocutor de Marcelo.

O que Casagrande e
Euclério têm a ver?  

No caso de Euclério, um interlocutor de Marcelo fala em
ajuda que não veio, na forma de cabos eleitorais que ele pediu, mas que foram
direcionados para Messias Donato. Marcelo esperava obter pelo menos 20 mil
votos em Cariacica, seu reduto original; em vez disso, só recebeu 14.894.

Já no caso de Casagrande, há referências a gestões pessoais
do governador (telefonemas etc.) junto a prefeitos que já tinham compromisso de
exclusividade com Marcelo, para que estes dividissem suas tropas e ajudassem
também Manu, em vez de concentrá-las no presidente da Assembleia.

Noves fora, a votação de Marcelo não foi ruim, mas ficou
aquém do esperado por ele mesmo e sua equipe de campanha. A meta estabelecida
eram pelo menos 100 mil votos, sendo 50 mil na Grande Vitória, 30 mil no Sul e
Caparaó e 20 mil no Norte. E a expectativa era a de que ele fosse o candidato
mais votado da chapa da Federação União Progressista.

Na verdade, com 82,3 mil votos, ele foi o terceiro mais votado
da própria chapa, atrás do surpreendente Bruno Resende (100.675) e de Da Vitória
(107.466). Entrou na terceira vaga da federação, única chapa que fez três
federais no Estado, e por muito pouco não ficou de fora: com mais votos no
total, a chapa do PL só não abocanhou essa terceira vaga porque Neucimar Fraga,
o terceiro mais votado do PL, ficou longe do número mínimo de votos para poder
se eleger nas sobras.

Marcelo atribui a Casagrande e a Euclério sua votação
abaixo da expectativa. Na reunião com apoiadores, na última sexta-feira, ele
citou os dois nominalmente. Só não chamou pelo nome os respectivos protegidos,
Emanuela e Messias Donato – que teriam sido favorecidos em prejuízo dele –, porque
o próprio Messias, também filiado ao União, estava no encontro. Mas todos
entenderam assim.   

“Desculpa esfarrapada”:
a resposta do lado governista

Não consegui falar diretamente com Euclério e com
Casagrande. Entretanto, um interlocutor do ex-governador expôs a visão corrente
no grupo político liderado por ele:

A visão é que a debandada de Marcelo não passa de traição
pura e simples; que ele só está sendo oportunista e buscando se reacomodar politicamente
no lado que ele agora avalia ter mais chances de ser o vencedor; e que atribuir
sua mudança de lado agora a uma suposta insatisfação com procedimentos de
Euclério e Casagrande na campanha não passa de uma “desculpa esfarrapada”.

Por essa visão, para começo de conversa, como é que Marcelo
poderia ter a coragem de alegar que Casagrande dificultou sua eleição para a
Câmara dos Deputados, se foi ele mesmo, Casagrande, quem o elegeu para a
presidência da Assembleia, com sua força política, em fevereiro de 2023? “Não
tem nada mais estratégico do que essa posição para se eleger deputado federal”,
diz um auxiliar do ex-governador.

De fato, é preciso convir que Marcelo valeu-se
sem parcimônia da sua posição na Assembleia para fins de projeção política nos
últimos quatro anos. 

O histórico de
Marcelo com Pazolini

Marcelo sempre cultivou bom relacionamento político com
Pazolini. Vale lembrar que, em julho de 2024, o presidente da Assembleia declarou
apoio pessoal à reeleição do prefeito de Vitória. 

Ele acabara de se filiar ao
União Brasil, que ficou com Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB), apoiado naquele
pleito municipal por Ricardo Ferraço e Casagrande (que também apoiou João Coser,
do PT).

Em janeiro de 2025, como parte do acordo do Palácio Anchieta
com ele para abonar sua reeleição à presidência da Assembleia, Marcelo levou
Casagrande e Ricardo pessoalmente ao encontro de Antônio de Rueda, em Brasília.
Os quatro fizeram fotos juntos, e o União, já indo para as mãos de Marcelo no
Estado, comprometeu-se a seguir apoiando o projeto político de Casagrande e
Ricardo no Espírito Santo.

De fato, já em meados do ano passado, Marcelo passou a apoiar publicamente a pré-candidatura de Ricardo Ferraço a governador, participando ao lado dele de vários atos de pré-campanha.

Em março deste ano, a Federação União Progressista declarou apoio a Ricardo. Em julho, formalizou a coligação com o MDB. 

Enquanto isso, Da
Vitória mergulha

Mergulhado desde o primeiro turno, Da Vitória é outro que
até agora não disse uma palavra sobre o 2º turno para governador do Estado.
Mas, em imagem que vale mais que mil palavras, esteve no café da manhã e na
foto com Marcelo, ao lado de Pazolini.

Da Vitória é, no Espírito Santo, o presidente do PP e também
da Federação União Progressista.

É outro que também sempre cultivou ótima relação com
Pazolini. Ainda não federado com o União, o PP apoiou a reeleição do prefeito
de Vitória, indicou sua vice-prefeita em 2024 (a hoje prefeita Cris Samorini,
filiada ao PP naquele pleito para garantir o acordo) e ainda emplacou o
presidente da Câmara de Vitória (Anderson Goggi, hoje no Republicanos).

Da Vitória demorou bem mais que Marcelo para entrar para
valer no projeto Ricardo Ferraço. No meio do percurso, realizou várias
conversas com Erick Musso, o presidente estadual do Republicanos e articulador
de Pazolini. Por muito tempo, manteve um pé em cada jangada.

Por fim, de fevereiro para março deste ano, fechou a aliança
e o apoio a Ricardo. Como parte do acordo, poderia ter sido candidato a senador,
ao lado de Casagrande. Preferiu disputar mais um mandato na Câmara e indicar o
vice de Ricardo: Camillo Neves, vereador de Vitória, filiado ao PP.

Mesmo assim, até o último momento, com outras siglas
disputando o mesmo espaço e gente defendendo a indicação de Vidigal (PDT), Da
Vitória se manteve friamente em contato com o outro lado.

No auge das convenções, ele e Marcelo chegaram a se reunir (e
fazer foto) com Evair de Melo, aliado de Pazolini… Até que Ricardo optou por
Camillo, a federação foi contemplada em seu pleito e tudo se assentou… até o
fim do primeiro turno.  

A PEC do Orçamento Impositivo

Aprovada do jeito que foi nesta terça-feira (13), a PEC do Orçamento Impositivo
parece ter sido, antes de tudo, a pá de cal no relacionamento político de
Marcelo com Casagrande e Ricardo.

É Marcelo definitivamente dizendo, nas entrelinhas: “Meu
acordo político com vocês acabou no primeiro turno. Não tenho mais compromisso
algum. Agora eu faço o que quero, inclusive aqui.

O presidente da Assembleia desmoralizou a articulação
política do governo de Ricardo. Deu um olé no Palácio Anchieta, na Casa Civil…

Mostrou que o governo de Ricardo perdeu o controle da
Assembleia, enquanto ele luta para se salvar no segundo turno.

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Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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