Paulo Figueiredo contratou empresa de lobby nos EUA para atuar sobre relações com o Brasil, revela ICL

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Por Emanuela Godoy — TVT News

Uma fundação presidida pelo influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo contratou uma empresa de lobby nos Estados Unidos para atuar junto ao governo de Donald Trump em temas relacionados às relações entre os dois países. Leia em TVT News.

Segundo documentos obtidos pelo núcleo investigativo do ICL Notícias, foram pagos US$ 80 mil, cerca de R$ 400 mil, pelos serviços.

A reportagem, assinada por Alice Maciel e publicada pelo ICL, identificou que a contratação foi feita pela America-Brazil Prosperity Advancement Foundation, entidade presidida por Figueiredo.

O trabalho da empresa Checkmate Government Relations envolveu interlocução com quatro órgãos do governo norte-americano: o Departamento de Estado, o Departamento do Tesouro, o Departamento de Segurança Interna e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

De acordo com os registros apresentados ao Congresso dos EUA, a atuação da empresa buscava influenciar iniciativas de cooperação entre Brasil e Estados Unidos nas áreas de comércio, investimentos, financiamento e segurança pública.

A contratação ocorre em meio à articulação de Figueiredo e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) junto a setores do governo Trump. Desde 2025, os dois têm atuado em iniciativas de pressão contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), incluindo a defesa de tarifas comerciais contra o Brasil e de sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Fundação de Paulo Figueiredo contratou empresa de lobby

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“Todo o percurso estratégico relatado confirma o dolo específico de Eduardo Bolsonaro e de Paulo Figueiredo”, aponta a denúncia. Foto: Reprodução

A America-Brazil Prosperity Advancement Foundation foi constituída no estado de Delaware, nos Estados Unidos, em 31 de janeiro de 2025. Em outubro daquele ano, a entidade foi inscrita no System for Award Management (SAM), sistema utilizado por organizações interessadas em contratos e recursos do governo norte-americano.

O cadastro identifica Paulo Figueiredo como presidente da fundação. Um dos endereços registrados pela entidade também coincide com um imóvel do influenciador em Weston, na Flórida.

A organização declara atividades que incluem relações públicas, representação de mídia, apoio educacional, concessão de subsídios, doações, organização cívica e defesa de causas sociais.

Procurado pelo ICL, Figueiredo afirmou que a fundação não possui vínculo formal ou informal com integrantes da família Bolsonaro e negou que políticos brasileiros ou norte-americanos participem de sua direção ou financiamento.

Em nota, classificou a entidade como uma organização privada sem fins lucrativos, constituída conforme a legislação dos Estados Unidos. Também declarou que suas atividades são privadas e não estão sujeitas à prestação de contas à imprensa.

Lobista tem ligações com governos e campanhas da direita latino-americana

A Checkmate Government Relations tem entre seus conselheiros para a América Latina o lobista Damian Merlo. Ele atuou como conselheiro de política externa do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e participou da aproximação do governo salvadorenho com o movimento MAGA, ligado a Donald Trump.

Em entrevista ao jornal argentino Clarín, em 2023, Merlo afirmou que sua trajetória profissional estava ligada ao Partido Republicano norte-americano e declarou manter relações com a equipe de Trump.

A reportagem do ICL também aponta conexões entre o ambiente político em que Merlo atua e a campanha presidencial argentina de Javier Milei. O lobista trabalhou na campanha ao lado do consultor político Fernando Cerimedo, conhecido por prestar serviços a representantes da ultradireita latino-americana.

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Cerimedo ficou conhecido no Brasil por disseminar informações falsas sobre as urnas eletrônicas em 2022. Segundo o texto do ICL, ele foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a trama golpista.

Próximo de Eduardo Bolsonaro, Cerimedo recebeu do ex-deputado, em fevereiro, um prêmio de consultoria política durante uma cerimônia realizada em Mar-a-Lago, resort de Donald Trump. Em julho, os dois participaram de uma transmissão ao vivo em que voltaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro.

Registro ocorreu no mesmo dia de encontro com Trump

O registro inicial do contrato de lobby foi protocolado pela Checkmate no sistema do Congresso norte-americano às 10h06 de 26 de maio de 2026. O documento indicava 15 de maio como a data de início do contrato com a fundação presidida por Figueiredo.

O protocolo foi apresentado no mesmo dia em que Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo se reuniram com Donald Trump na Casa Branca.

Após o encontro, Flávio declarou que, caso fosse eleito presidente do Brasil, levaria o país para o Escudo das Américas, iniciativa regional liderada pelo governo norte-americano. O senador também afirmou ter solicitado a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a medida em 28 de maio, e a designação entrou em vigor em 5 de junho.

No relatório referente ao segundo trimestre, registrado em 17 de julho, a Checkmate declarou ter recebido US$ 80 mil pelo trabalho realizado para a fundação. Os documentos identificam Charles McDowell, Nelson Freeman e Muhammad Rahim como lobistas responsáveis pela representação da entidade.

Segundo Figueiredo, a atuação junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos tinha como objetivo impedir a imposição de tarifas contra o Brasil. Ele afirmou que a iniciativa não obteve êxito e que, por esse motivo, o contrato não foi renovado. O influenciador não detalhou os objetivos da atuação junto aos outros três órgãos do governo norte-americano.

Recursos dos EUA para ações contra o STF

A reportagem do ICL também contextualiza a contratação em meio à destinação de recursos do governo norte-americano a iniciativas relacionadas à atuação do Judiciário brasileiro.

Segundo o jornal britânico The Guardian, o Departamento de Estado dos Estados Unidos destinou US$ 1 milhão a um projeto voltado a grupos que contestam o que a administração Trump classifica como excesso judicial e censura no Brasil.

Documentos obtidos pelo UOL detalham o programa Countering Lawfare and Censorship in Brazil, com recursos liberados em 30 de setembro de 2026, cinco dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras.

A identidade dos beneficiários permanece sob sigilo, inclusive para integrantes do Congresso dos Estados Unidos, conforme as informações publicadas pelo portal.

O cadastro da fundação de Figueiredo no sistema SAM, entretanto, não comprova que a entidade tenha solicitado ou recebido recursos desse programa. Até o momento, segundo a reportagem do ICL, não foi identificado documento que estabeleça essa ligação.

Os documentos citados pelo UOL descrevem o programa como uma iniciativa para apoiar organizações da sociedade civil que atuam contra o que seus responsáveis classificam como ativismo judicial excessivo e censura no Brasil.

O material também menciona a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

O ex-deputado foi condenado pelo Supremo a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, em razão de sua atuação para pressionar autoridades brasileiras por meio de medidas adotadas pelo governo norte-americano.

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Em 8 de outubro, Moraes determinou a expedição de mandado de prisão e o cancelamento do passaporte brasileiro de Eduardo Bolsonaro. Segundo o texto do ICL, ele pode continuar viajando com seu passaporte italiano.

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Fonte: TVT News

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