Lula aposta no Sul Global e na soberania, enquanto Flávio Bolsonaro prioriza aproximação com EUA e Israel
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Os programas de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) apresentam visões distintas sobre a inserção internacional do Brasil. Enquanto Lula propõe fortalecer a cooperação com o Sul Global, ampliar a integração latino-americana e diversificar as relações comerciais e diplomáticas, Flávio Bolsonaro defende uma reaproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina, além de maior abertura ao capital estrangeiro em setores estratégicos. A comparação foi realizada pela Agência Brasil, que analisou as propostas dos dois candidatos para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
As diferenças envolvem não apenas as prioridades diplomáticas, mas também a concepção de soberania nacional, o papel dos BRICS, a defesa das fronteiras, os investimentos na indústria militar e o aproveitamento econômico de minerais críticos e terras raras.
O programa de Lula dedica quase seis páginas à política externa, enquanto o documento de Flávio reserva aproximadamente três páginas ao tema.
Lula rejeita alinhamentos automáticos e defende autonomia internacional
O plano de governo de Lula parte do diagnóstico de que o mundo atravessa um período de intensificação dos conflitos geopolíticos, com ameaças ao direito internacional e à soberania dos países.
O documento defende uma política externa independente e rejeita a subordinação do Brasil aos interesses de outras potências.
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, afirma o programa.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, sustenta que a soberania deve ser exercida “na prática” e não por meio de “bravatas”. O candidato do PL critica a condução da política externa durante o governo Lula, especialmente em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel.
Seu programa promete recuperar relações com países que, segundo sua avaliação, tiveram os vínculos diplomáticos deteriorados nos últimos anos.
“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, afirma o documento.
BRICS e Sul Global ocupam lugar central no programa de Lula
Uma das principais diferenças entre os candidatos está no papel atribuído ao Sul Global na estratégia internacional brasileira.
Lula propõe aprofundar a participação do país nos BRICS e no G20, fortalecer as relações com economias emergentes e ampliar a cooperação com países da África, da Ásia e da América Latina.
O programa defende uma diplomacia universalista, orientada pela diversificação de parceiros e pela ampliação dos mercados para produtos e serviços brasileiros.
A África recebe atenção especial, tanto por sua crescente importância econômica e geopolítica quanto pelos vínculos históricos e culturais com o Brasil.
Na América do Sul e no Caribe, Lula propõe fortalecer o Mercosul e outros mecanismos de integração, além de consolidar a região como uma “zona de paz”.
Flávio Bolsonaro também afirma que pretende manter relações comerciais com diferentes polos econômicos, incluindo a China e a União Europeia, mas coloca maior ênfase na recuperação dos vínculos com Washington, Buenos Aires e Tel Aviv.
“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”, diz o programa do candidato do PL.
Defesa nacional é tratada como instrumento de soberania
Na área militar, Lula relaciona a capacidade de defesa à autonomia internacional do Brasil.
“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”, afirma seu programa.
O documento destaca os investimentos realizados desde 2023, incluindo R$ 20,4 bilhões executados em projetos estratégicos vinculados à modernização das Forças Armadas.
Entre os resultados mencionados estão a entrega de sete caças Gripen F-39, a produção da primeira aeronave desse modelo em território brasileiro, a aquisição de três cargueiros KC-390, a construção de quatro fragatas e a produção de 226 viaturas blindadas.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe ampliar investimentos em tecnologias militares, com destaque para drones, inteligência artificial e inovação.
O candidato defende que o orçamento das Forças Armadas seja compatível com a presença internacional do Brasil e com seus compromissos estratégicos.
Minerais críticos expõem diferenças sobre o desenvolvimento nacional
Outro tema de destaque é a exploração de minerais críticos e terras raras, recursos fundamentais para setores como inteligência artificial, equipamentos eletrônicos, defesa e transição energética.
O Brasil possui uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, estimada em aproximadamente 21 milhões de toneladas.
Lula propõe desenvolver uma política industrial específica para esses recursos, priorizando o beneficiamento nacional, a agregação de valor e a participação brasileira nas cadeias globais de produção.
“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, afirma o programa.
A proposta busca ampliar a capacidade brasileira de processamento e industrialização, evitando que o país permaneça restrito à condição de exportador de matérias-primas.
Flávio Bolsonaro defende a atração de investimentos estrangeiros e de novas tecnologias para o setor, acompanhada de transferência de conhecimento.
Em março, durante um evento conservador nos Estados Unidos, o candidato apresentou a exploração de minerais críticos brasileiros como uma oportunidade estratégica para reduzir a dependência norte-americana da China.
“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”, declarou.
A questão ganha importância diante da disputa tecnológica e comercial entre Estados Unidos e China, especialmente pelo controle de cadeias produtivas ligadas a componentes eletrônicos, equipamentos militares e tecnologias de energia limpa.
Relação com Trump e tarifas comerciais também divide candidatos
Os programas também apresentam diferenças sobre a relação com o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Lula critica as tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros e defende a autonomia do país na negociação comercial com as grandes potências.
Seu programa também afirma que o Brasil perdeu protagonismo internacional durante o governo de Jair Bolsonaro, período em que, segundo o documento, houve enfraquecimento da integração regional.
Flávio Bolsonaro, por outro lado, defende uma reaproximação diplomática com o governo norte-americano.
O candidato e seu irmão, Eduardo Bolsonaro, manifestaram apoio às medidas adotadas por Trump contra o Brasil. Em uma publicação, Flávio escreveu: “Obrigado Presidente Trump – Faça o Brasil Livre Novamente – Queremos Magnitsky!”.
Apesar desse posicionamento, o programa do candidato do PL afirma que buscará soluções diplomáticas para barreiras comerciais e sanções impostas ao Brasil por Estados Unidos, China e países europeus.
Flávio também propõe avançar na adesão brasileira à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), integrada por 38 países.
Dois projetos distintos de inserção internacional
A comparação realizada pela Agência Brasil evidencia diferenças de prioridades entre os dois candidatos.
Lula apresenta uma estratégia de inserção internacional baseada na diversificação de parcerias, no fortalecimento dos BRICS, na cooperação Sul-Sul e na ampliação da capacidade industrial e tecnológica brasileira.
Flávio Bolsonaro enfatiza a recuperação de relações com aliados tradicionais, especialmente Estados Unidos, Israel e Argentina, a atração de investimentos estrangeiros e a busca de acordos comerciais orientados pelos interesses econômicos nacionais, conforme definidos em seu programa.
As duas propostas também atribuem importância à defesa nacional e aos minerais críticos, mas apresentam instrumentos distintos para alcançar seus objetivos.
O resultado do segundo turno, marcado para 25 de outubro, definirá qual dessas orientações será adotada pelo próximo governo brasileiro, em um cenário internacional marcado pela competição entre grandes potências e por transformações nas cadeias globais de comércio, energia e tecnologia.
Fonte: Brasil 247