Uma em cada cinco mortes pela polícia em agosto foi provocada por agentes de folga em SP

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Por Mariana Rosetti — Ponte

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Uma em cada cinco mortes pela polícia em agosto foi provocada por agentes de folga em SP

Mariana Rosetti 13/10/2026 4h10 Mariana Rosetti

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Participação dos agentes fora de serviço nas mortes subiu de 11,6% para 19,6% em um ano; especialista aponta falta de transparência sobre casos envolvendo policiais que atuam na segurança privada

Detalhe do uniforme da Polícia Militar do Estado de São Paulo, exibindo distintivos, brasão e câmera corporal acoplada ao colete tático | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Resumo

Em agosto de 2026, o número de pessoas mortas por policiais de folga em São Paulo subiu 37,5% em relação ao mesmo mês de 2025. Agentes fora de serviço foram responsáveis por quase uma em cada cinco mortes registradas como decorrentes de intervenção policial no mês.
Especialista aponta que parte dessas ocorrências pode envolver trabalhos informais de segurança (bicos), cuja circunstâncias nem sempre aparecem nos registros oficiais.
A proporção de mortes causadas pela polícia em relação aos homicídios dolosos no estado ultrapassou 20% ao longo de 2026, patamar que especialistas indicam como reflexo de padrões abusivos no uso da força.

O número de vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) envolvendo agentes folga em São Paulo aumentou 37,5% em agosto de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Foram 11 vítimas neste ano, contra oito em agosto de 2025. Ou seja: quase uma em cada cinco pessoas mortas pela polícia paulista em agosto foi vítima de um agente fora do horário de serviço.

O levantamento feito pela Ponte parte de dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), chefiada por Osvaldo Nico e vinculada ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A pasta disponibiliza registros de MDIPs a partir de 2013.

O crescimento ocorreu na contramão do total de mortes decorrentes de intervenção policial no estado, que caiu de 69, em agosto de 2025, para 56, no mesmo mês de 2026. A redução foi puxada pelas mortes envolvendo agentes em serviço, que passaram de 61 para 45.

As MDIPs envolvendo por agentes de folga costumam acontecer em duas situações: quando o policial reage a uma agressão ou intervém em um crime, explica Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz. Segundo o pesquisador, a relação com a atividade policial é um elemento que diferencia esses registros dos classificados como homicídio doloso.

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Essa distinção, entretanto, nem sempre é clara. “Existe uma área cinzenta entre um homicídio e uma MDIP de folga, principalmente quando o policial está agindo, por exemplo, num bico [atividade de segurança privada]”, explica Rocha. Segundo o pesquisador, nem sempre os registros permitem identificar se o agente exercia uma atividade particular de segurança.

Isso dificulta identificar quantas dessas mortes ocorreram em reações a agressões ou intervenções em crimes e quantas envolveram agentes que faziam trabalhos particulares de segurança. “Na letalidade [policial] de folga, você tem alta participação de um fenômeno que é uma cifra negra. Nós não sabemos explicar, não sabemos dizer em que contexto que acontece”, define Rocha.

87 pessoas mortas por agentes de folga em oito meses

Como a Ponte já havia noticiado, o primeiro semestre de 2026 registrou o maior número absoluto de mortes decorrentes de intervenção policial envolvendo agentes de folga desde o mesmo período de 2022.

De janeiro a agosto de 2026, foram registradas 480 vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial no estado: 393 em ações de agentes em serviço e 87 em ações de agentes de folga. Assim, 18,11% das vítimas dessa categoria no período foram mortas por policiais fora de serviço.

Além disso, os dados revelam que, mesmo em meses com diminuição das mortes envolvendo policiais em serviço, não há uma redução equivalente entre agentes de folga. Para Rocha, isso pode acontecer devido a diferenças entre os mecanismos de fiscalização aplicados em cada contexto. “Quando o policial está em serviço, o Estado tem mais controle ou, pelo menos, tem mecanismos mais fáceis de aplicação, supostamente, para controlar uma maior ou uma menor letalidade”, afirma.

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Na avaliação do pesquisador, três fatores podem influenciar as mortes provocadas por agentes fora do expediente: a exposição a situações de violência, a expectativa de que não haverá punição pelo uso da força e uma cultura institucional que reforça a ideia de que o policial deve estar sempre em estado de alerta.

Sobre o último aspecto, Rocha argumenta que a percepção de ameaça permanente pode contribuir para decisões de intervenção, mesmo em situações nas quais não há risco imediato à vida, como em crimes contra o patrimônio, por exemplo. Na avaliação dele, essa percepção também pode reforçar uma sensação permanente de guerra e conflito.

Homens negros foram maioria das vítimas em agosto

Todas as 56 pessoas mortas pela polícia paulista em agosto eram homens. Dessas vítimas, 32 eram negras (57,1%) e 20 eram brancas (35,7%). Nos registros de outras quatro, não havia informação sobre raça ou cor. Considerando apenas as 52 vítimas com essa informação disponível, a participação de pessoas negras sobe para 61,5%.

Na distribuição territorial, o interior do estado concentrou o maior número de mortes, com 20 vítimas (35,7%), seguido pela capital paulista, com 19 (33,9%), e pelos demais municípios da Grande São Paulo, com 15 (26,8%). Outras duas pessoas foram mortas no litoral (3,6%).

O peso da polícia nas mortes violentas em SP

Entre janeiro e agosto de 2026, o estado de São Paulo registrou 1.549 vítimas de homicídios dolosos e 480 mortes decorrentes de intervenção policial. Juntas, essas duas categorias somaram 2.029 vítimas. As MDIP representam 24% desse total. Em agosto, 200 vítimas de homicídio doloso e 56 mortes pela polícia. Nesse mês, as MDIP correspondem a 22% da soma das duas categorias.

Estudos conduzidos pelo sociólogo Ignácio Cano indicam que, quando as mortes causadas por agentes do Estado ultrapassam cerca de 10% do total de homicídios, isso pode ser um sinal de uso excessivo da força policial. Pesquisas associadas ao trabalho de Paul Chevigny apontam que percentuais superiores a 7% já podem indicar padrões abusivos. 

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Em todos os meses de 2026, portanto, os números indicaram padrões abusivos. Em sete dos oito meses analisados, a proporção ultrapassou 20%. O menor percentual foi registrado em março, quando as mortes decorrentes de intervenção policial corresponderam a 16,4% da soma das duas categorias. 

Divergência de dados

Além da SSP-SP, cujos dados são usados pela Ponte como referência, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) também registra as mortes decorrentes de intervenção policial. Esses casos são contabilizados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).

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Em geral, os números do MPSP são divulgados antes dos da SSP-SP — que consolida as estatísticas de letalidade policial apenas ao final do mês seguinte ao período analisado. O Gaesp registrou 61 mortes cometidas pelas polícias em São Paulo em agosto de 2026, cinco a mais do que a SSP-SP.

A Ponte questionou a SSP-SP e o MPSP sobre a divergência nos dados de mortes decorrentes de intervenção policial em agosto de 2026.

Em resposta, a MPSP informou que os critérios de contabilização são os mesmos e atribuiu diferenças à atualização das bases em momentos distintos. Segundo o órgão, a revisão final torna os dois conjuntos de dados totalmente compatíveis. A resposta não esclareceu qual é o total definitivo de mortes em agosto.

A reportagem também perguntou à SSP-SP sobre os fatores relacionados ao aumento das mortes cometidas por agentes de folga e os mecanismos de fiscalização e controle dessas ocorrências, incluindo possíveis casos envolvendo policiais em atividades particulares de segurança.

Até a publicação desta reportagem, a SSP-SP não havia respondido aos questionamentos. O espaço segue aberto.

Fonte: Ponte

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