Brizola quase tinha razão: a juventude sabe, sim, a força que tem
Por João Antonio Cunha — Brasil 247
Nasci em 2002 e faço parte da chamada Geração Z, formada por aqueles que nasceram entre 1997 e 2010. Lembro que, assim que comecei a me identificar como alguém com uma visão de mundo progressista, me deparei com um discurso recorrente nos setores da esquerda: o de que a juventude estava cada vez mais conservadora e desmobilizada.
Também cheguei a reproduzir essa ideia, que não é inteiramente descabida. É evidente que uma parcela considerável dos jovens foi conquistada por movimentos de direita, seja pelo bolsonarismo, seja pela ala ligada ao Movimento Brasil Livre (MBL). Esses segmentos políticos compreenderam mais rapidamente a lógica das redes sociais, um ambiente no qual a juventude ocupa lugar central.
Os sucessivos ataques da imprensa comercial à esquerda brasileira e as perseguições judiciais sofridas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) ao longo da última década também contribuíram para esse cenário. Diante disso, era compreensível que se disseminasse a percepção de que os jovens haviam se tornado conservadores e, portanto, representavam parte do problema. Essa leitura ganhou ainda mais força após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Lideranças jovens como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanatto e Kim Kataguiri dão rosto a diferentes setores desse movimento.
No entanto, após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais e diante da necessidade de reverter o cenário eleitoral, foi justamente a juventude de esquerda que se mobilizou e ocupou as ruas. Não se trata de algo inédito. Foi assim nas lutas contra Michel Temer e Jair Bolsonaro, na mobilização pela queda de Fernando Collor e na defesa da democracia diante do golpe de 1964.
De maneira espontânea e sem uma orientação clara da campanha presidencial, os jovens foram às ruas. Centenas, milhares, milhões: uma onda vermelha começou a tomar forma em diferentes cidades brasileiras. É evidente que essas mobilizações, por si sós, não serão suficientes para garantir a vitória de Lula. Sem elas, porém, o triunfo se torna muito mais difícil.
Quanto mais a juventude fizer sua voz ser ouvida, mais difícil será para a mídia tradicional ignorar o clamor das ruas em defesa da democracia. Cada vídeo de uma manifestação estudantil que circula pelas redes sociais pode servir de estímulo para que mais pessoas, de todas as idades, participem dos atos. Essas imagens também despertam a curiosidade de quem ainda não se interessa por política e podem ajudar a trazer para o debate político parte dos 33 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno.
Não é à toa que as lideranças jovens da esquerda estão entre os alvos preferenciais da extrema direita. O caso de Ana Elisa, que sofreu covardes ameaças de morte e estupro, é um exemplo eloquente disso. É nessa juventude que reside parte fundamental do futuro do campo progressista brasileiro, e os fascistas sabem disso. Por essa razão, tentam sufocar essas vozes antes que ganhem ainda mais força.
Este artigo não é uma crítica aos setores mais experientes da esquerda brasileira, tampouco àqueles que reproduziram a ideia de que a juventude estava se tornando cada vez mais direitista. Trata-se, antes, de reconhecer que as expressivas manifestações realizadas após o primeiro turno nos oferecem uma lição importante. Diante delas, precisamos seguir o exemplo do presidente Lula.
Durante um ato na Avenida Paulista, neste domingo (11), Lula enalteceu a participação da juventude em sua campanha. Pouco depois do resultado do primeiro turno, também se reuniu, em Brasília (DF), com jovens lideranças do campo progressista, muitas delas eleitas para cargos no legislativo.
As mudanças recentes na comunicação da campanha, como a divulgação de vídeos curtos no formato selfie, demonstram que o presidente, mesmo com toda a sua experiência política, está disposto a dialogar com as novas gerações. Com humildade, Lula demonstra que não quer apenas mobilizar e incentivar a juventude a participar da luta pela democracia e pela soberania brasileira, mas também aprender com ela.
Sei que pode parecer um clichê, mas é entre esses jovens que se encontra uma parte importante do futuro da esquerda brasileira. Quem sabe não será justamente entre os jovens parlamentares eleitos do campo progressista que surgirá o tão esperado sucessor ou a tão esperada sucessora de Lula?
Como dizia Leonel Brizola: “Tome o vosso destino nas nossas próprias mãos. Vocês não sabem, jovens do meu país, a força que vocês têm”.
As manifestações recentes mostram que a juventude comprometida com o desenvolvimento, a democracia e a soberania brasileira está seguindo os conselhos do velho caudilho. Só que Brizola quase tinha razão: essa juventude sabe, sim, a força que tem. E está mostrando, nas ruas e nas urnas, que também quer participar da construção do futuro do Brasil.
Fonte: Brasil 247