A difícil arte de instalar uma turbina em uma carroça
Por Marcelo Guedes Nunes — JOTA
As lamentáveis cenas ocorridas no Supremo Tribunal Federal (STF) em meio a uma campanha eleitoral desprovida de propostas concretas, programas de governo e debates qualificados agravaram nas pessoas a percepção de que vivemos uma era sem precedentes de decadência moral.
Mas a ideia de que o estado geral das coisas é o pior já visto precisa ser analisada considerando uma diferença muito importante entre um fato social objetivamente considerado e sua percepção pelas pessoas em geral ou, como se diz em ciências sociais, entre o construto latente e o indicador observado.
Muitas vezes a ocorrência de um evento muito comentado e de elevada repercussão cria nas pessoas uma determinada impressão, que não necessariamente corresponde a uma variação efetiva nos indicadores sociais. Por conta de um viés de disponibilidade, a absolvição de um acusado em um crime que causou comoção social pode gerar revolta e uma sensação de impunidade, porém isso não significa que os milhares de juízes de um sistema judicial passaram a absolver mais os réus em suas rotinas de julgamento.
Daí a pergunta. A corrupção no Brasil vem aumentando ou os mecanismos de delação, a dinâmica das eleições e o uso generalizado de tecnologia tornaram essas condutas mais facilmente detectáveis?
O ponto de partida para esboçar uma resposta é entender que uma estatística não mede o fato social em si. Ela mede o fato social (designado aqui por N) ponderado pela probabilidade de ele ser comunicado e registrado por uma instituição (um valor p). Por exemplo, quando uma delegacia da mulher é instalada para combater violência doméstica, a política pode afetar as duas variáveis ao mesmo tempo. Pode reduzir a violência (N cai), por dissuasão ou proteção, e pode também aumentar a propensão a denunciar (p sobe), com acolhimento, menos constrangimento e menor custo de acesso.
Se p sobe mais do que N cai, os registros de violência aumentam mesmo com a política funcionando, o que evidentemente não significa que delegacias da mulher aumentam casos de violência doméstica. Significa apenas que as vítimas estão mais seguras para denunciar. Essa diferença entre fatos ocorridos e fatos documentados é chamada em criminologia cifra oculta, um conceito que já aparece em Adolphe Quételet no século 19 e foi posteriormente sistematizado por Albert D. Biderman e Albert J. Reiss Jr. em 1967.
Na violência doméstica, a cifra oculta é notoriamente alta. Por sua essência fraudatória e associação a manobras contábeis e jurídicas, dados sobre corrupção também são muito difíceis de documentar, apresentando uma cifra oculta elevadíssima. Assim, diante de uma percepção de aumento da venalidade, é preciso avaliar o quanto ela decorre de variações no construto latente (o fato em si) ou de mudanças na sua probabilidade de registro.
A discussão de causas para variações no N existe. Ao mesmo tempo em que as pessoas atestam com convicção o aumento da corrupção, as causas da corrupção são atribuídas a fatores estáveis e muito antigos como a colonização portuguesa, tradição cartorial e patrimonialista e uma formação cultural voltada para interesses pessoais e sem preocupação com a coisa pública. Não pretendo discutir aqui o acerto dessas explicações, mas apenas observo que, por serem muito antigas e estruturais, tais causas dificilmente explicariam uma variação recente no nível de corrupção e venalidade.
Há, porém, possíveis causas recentes que podem ter ampliado as oportunidades de desvio. Ocorrem-me aqui o crescimento nas emendas parlamentares, em especial as emendas Pix, sem destinação declarada, o aumento do volume do orçamento discricionário e o aumento do fundo eleitoral, cujos efeitos ainda estão por ser medidos.
Já as causas de aumento da probabilidade de detecção da corrupção são bem mais plausíveis. Até o início deste século, reunir provas de atos de corrupção era muito difícil. A corrupção é um crime sem vítima direta que denuncie e é praticado justamente para não deixar rastro. Não havia fotos, mensagens e documentos. Não havia registros de reuniões e encontros, pagamentos eram feitos em dinheiro, uso de aeronaves e viagens não era registrado, não havia meios de confrontação entre fontes legítimas de renda e patrimônio pessoal.
Hoje, no entanto, esse cenário geral mudou. A tecnologia monitora, cria e preserva registros e documentos de negócios e encontros privados de diversas fontes, principalmente através de celulares e sistemas financeiros.
A geolocalização (com GPS e ERBs) prova presença, encontros, trajetos e permite reconstruir reuniões que nunca constariam de agenda oficial. Fotografias em festas e redes sociais provam vínculos entre agentes públicos e empresários, que antes dependiam de testemunhas. Também documentam padrão de vida como o carro, a viagem, o relógio. Isso alimenta os chamados lifestyle audits.
As mensagens digitais de WhatsApp são a mudança mais profunda. Elas registram o acordo verbal por escrito, com data, hora, termos e metadados. Na Lava Jato e agora no Master, a apreensão de celulares deslocou a prova da confissão e da testemunha para o documento. Cada celular é um sistema portátil de gravações em que qualquer interlocutor pode filmar, fotografar e gravar. Isso eleva o risco de cada conversa ilícita e alimenta a colaboração premiada, porque a gravação vira moeda de negociação.
O mesmo ocorre com as movimentações financeiras. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a unidade de inteligência financeira brasileira, recebe dos setores obrigados as comunicações de operações suspeitas, analisa-as e produz Relatórios de Inteligência Financeira (RIF). O STF validou o compartilhamento com o Ministério Público sem autorização judicial (Tema 990) e, no Tema 1404, o ministro Alexandre de Moraes fixou, em cautelar de 27/3/2026, parâmetros para a requisição desses relatórios.
A Receita Federal cruza e-Financeira, Declaração sobre Operações Imobiliárias (DOI) e declarações de bens para identificar patrimônio a descoberto, que é a base do enriquecimento ilícito por evolução patrimonial incompatível. Já os fiscos estaduais recebem, pela Declaração de Informações de Meios de Pagamentos (DIMP), os dados das transações por cartão e Pix.
Soma-se a isso a enorme mudança na própria dinâmica das eleições, afetada por redes sociais e inteligência artificial. O custo de produzir e distribuir conteúdo da campanha despencou (apesar de o fundo eleitoral ter aumentado), a sofisticação do material de campanha aumentou, a velocidade de propagação e a viralização do conteúdo explodiram. O material de campanha é gerado a um custo mínimo e divulgado com uma envergadura e velocidade sem precedentes.
Essa nova realidade aumentou a polarização política. Ela intensifica o atrito entre candidatos e converte a troca de acusações em uma estratégia eleitoral quase que obrigatória. Há um aumento na agressividade institucional entre partidos através de estratégias recíprocas de desmoralização entre correntes ideológicas que dependem de provas de corrupção e da divulgação de materiais comprometedores como fotos, vídeos e documentos.
A combinação é explosiva. A polarização cria o incentivo poderoso para acusações recíprocas e a tecnologia fornece o material e os meios de divulgação exponencial. Não é coincidência, portanto, que essas acusações atinjam seu pico às vésperas de uma eleição importante, nem que sejam instrumentalizadas seletivamente pelos partidos, que denunciam com estridência os desvios dos adversários e silenciam sobre os próprios. E no meio desse turbilhão fica uma classe política analógica, de uma geração sem habilidade para lidar com tecnologia e de baixo nível moral.
Nosso sistema político é uma carroça desenhada no fim do século 18, quando a informação era escassa, a comunicação era informal e não documentada. A democracia representativa desse período é esse sistema profundamente corrupto, moroso, distante da população e opaco. Um sistema que sobreviveu em um ambiente de baixa polarização, sem tecnologia de documentação, sem canais rápidos e baratos de divulgação e que sempre ostentou elevadas cifras ocultas, no qual os pactos fisiológicos entre os agentes públicos eram fáceis de ser celebrados e mantidos.
O advento das redes sociais, interação por celular, sistemas eletrônicos de pagamento e de controle é uma espécie de turbina digital, com enorme poder de detectar, documentar e divulgar malfeitos. O que estamos observando na política mundial hoje é uma tentativa de instalar uma turbina nessa carroça setecentista. Obviamente isso não vai funcionar e a consequência prática é que essas crises não serão episódicas. Elas serão sucessivas e cada vez mais violentas.
Cada novo incumbente já assume desmoralizado e o sistema provavelmente irá convulsionar até ruir e ser substituído por outro novo, mais próximo das pessoas, mais dinâmico e transparente. Até lá assistiremos a esse espetáculo, deplorável porém necessário, de canibalização política entre candidatos e incumbentes, exibindo reciprocamente fotos, áudios, registros e provas de seus desvios de conduta.
Concluindo, não dá para saber se a corrupção em si aumentou, mas me parece bastante evidente que a probabilidade de exposição dos atos de corrupção aumentou muito graças à tecnologia. Para os políticos, o pior ainda está por vir. A inteligência artificial começa a cruzar registros e a buscar dados, ampliando a capacidade de informação e fiscalização da sociedade civil.
Como revelou a história do lançamento restrito do Claude Mythos, a tecnologia de IA poderá operar varreduras e invadir sistemas operacionais complexos, descobrindo milhares de falhas críticas e buscando informações ocultas. Imaginem o que pode acontecer caso uma IA hackeie e revele registros de empresas, fundos e trusts em paraísos fiscais ligados a políticos? Qual seria o impacto nos regimes de dezenas e dezenas de países?
A tecnologia foi criada e, como se diz, não dá para colocar o gênio de volta na garrafa. Se quisermos passar por essas transformações sem rupturas, os políticos precisam entender que não adianta reclamar da turbina. Redes sociais, celulares com câmaras, texting, georreferenciamento, sistemas digitais de pagamento, blockchains e IA serão cada vez mais utilizados.
As casas políticas, parlamentos e partidos dirigem suas reformas apenas para a criação de regulações que tentam controlar e conter essas novas soluções, sem qualquer capacidade de autocrítica. Nada se discute a respeito da reforma das instituições partidárias e eleitorais para adaptá-las sinergicamente às novas tecnologias, aumentando a sua interatividade e transparência.
A despeito de toda a sagacidade da classe política, ela não percebe que, independentemente da sua posição no espectro ideológico, se à direita ou à esquerda, sua sobrevivência está ameaçada. O mais urgente é reformar a carroça, antes que ela seja esmigalhada pela aceleração das novas eras.
No passado, políticos de situação tinham uma posição mais confortável para concorrer à reeleição, em comparação com a oposição. Os incumbentes tinham mais exposição na mídia, controle da máquina e um orçamento nas mãos se lhes dava enorme vantagem na corrida eleitoral, exigindo limitação constitucional para impedir sucessivas reeleições.
Na atualidade, essa exposição das entranhas do poder e da corrupção sistemática os colocou em uma situação mais complexa. Os políticos em exercício de cargo viraram para-raios da insatisfação da população, tornando os processos de reeleição mais difíceis e mais raras, apesar das vantagens ligadas ao controle da máquina pública.
A atual dinâmica facilitou angariar votos para candidatos que se apresentam como neófitos, sem experiência, fora do poder e sem ligações com o sistema. Até mesmo a prisão do candidato tem um lado positivo, quando associada a uma perseguição ou reação do status quo a um desafiante do sistema.
Submetidos a essa nova dinâmica, os sistemas democráticos tendem a convulsionar a cada novo ciclo eleitoral, com a progressiva rejeição dos políticos profissionais a partir do momento em que são eleitos. A superação desse círculo vicioso demandará um redesenho do sistema com o objetivo de incorporar essas novas tecnologias em seu favor.
Fonte: JOTA