“Eu poderia dizer as coisas mais estúpidas e vocês aplaudiriam”, disse Trump, sob aplausos. Como a humanidade chegou a esse ponto?
Por Tiago Vechi — Jornal Opção

A história da humanidade é também a história da brutalidade. Guerras, genocídios, escravidão e perseguições mostram que nossa capacidade de produzir sofrimento acompanha a construção das civilizações. Aprendemos a explorar o espaço, decifrar o código genético e desenvolver tecnologias extraordinárias, mas continuamos capazes de nos reunir em multidões para celebrar a estupidez.
Quando Donald Trump disse que poderia falar as coisas mais estúpidas do mundo e ainda assim receber aplausos, durante discurso em Clarcksville, Tennessee, no sábado, a plateia aplaudiu. Ele ainda tenta “disfarçar” ao continuar, afirmando que não fala coisas estúpidas, e sim “sérias”. Mas a cena seria cômica se o protagonista não ocupasse a Presidência da maior potência militar do planeta. Mas como pessoas capazes de raciocinar podem suspender o próprio julgamento diante de um líder?
Parte da resposta está na maneira como pensamos. Gostamos de acreditar que somos criaturas racionais, guiadas por fatos e evidências. Na prática, emoções, crenças e vínculos sociais influenciam profundamente nossas decisões. Muitas vezes, escolhemos aquilo em que queremos acreditar antes de procurar justificativas.
Nosso pensamento é também simbólico. Não reagimos apenas aos fatos, mas ao significado que atribuímos a eles. Uma bandeira representa a pátria para uns e a opressão para outros. Um político pode ser visto como salvador por seus apoiadores, mesmo quando suas atitudes contradizem os valores que eles próprios defendem. Quando os símbolos se encaixam na estrutura de crenças que construímos, tendemos a aceitá-los sem o devido questionamento.
A propaganda explora essa vulnerabilidade. Associa líderes a símbolos de força e identidade, transforma adversários em ameaças e repete mensagens até que pareçam verdades evidentes. As redes sociais potencializam o processo: a indignação circula mais rápido que a reflexão, e a mentira pode alcançar milhares de pessoas antes de ser desmentida. Nesse ambiente, reconhecer um erro pode parecer uma traição ao próprio grupo.
O progresso científico não nos imuniza contra a estupidez. Conhecimento técnico não equivale à sabedoria, assim como inteligência não garante lucidez moral. Uma sociedade pode desenvolver tecnologias extraordinárias e continuar presa a preconceitos elementares.
É desesperador perceber que ainda precisamos aprender lições tão básicas. Mas há um consolo: sempre foi assim. A propaganda não nasceu nas redes sociais, a irracionalidade não surgiu com Trump e a brutalidade não é uma invenção contemporânea. A história também foi construída por quem desafiou consensos perversos e se recusou a acompanhar a maioria.
Talvez a humanidade nunca tenha sido tão racional quanto gosta de imaginar. O desafio continua sendo impedir que as ferramentas de uma civilização sofisticada sirvam aos seus instintos mais primitivos. É preocupante constatar que ainda não superamos nossas contradições, mas não estamos diante de uma decadência inédita. Estamos diante de uma velha condição humana, agora amplificada por tecnologias mais poderosas.
A história nunca nos prometeu que ficaríamos mais sábios. Apenas nos deu a oportunidade de tentar.
Leia mais: Ser pai, a sensação eterna de insuficência
O post “Eu poderia dizer as coisas mais estúpidas e vocês aplaudiriam”, disse Trump, sob aplausos. Como a humanidade chegou a esse ponto? apareceu primeiro em Jornal Opção.
Fonte: Jornal Opção