O silêncio nos quartéis não significa indiferença! Coordenadas para a luta contra a nova anistia aos golpistas
Por Thiago Flamé — Esquerda Diário

Depois do fracasso da aventura golpista de 8 de janeiro de 2022, o escândalo do envolvimento do oficialato militar com a ação golpista fez os milicos retrocederem. Com a ajuda da Frente Ampla, as forças armadas puderam se recompor, apesar do preço elevado em ter que rifar os oficiais de 4 estrelas mais comprometidos com a aventura bolsonarista. Mais silencioso do que antes, porém, o partido militar segue sendo um dos pilares de sustentação do bolsonarismo.
O número de candidatos militares caiu, como caiu também o número daqueles identificados pela patente nas urnas. Generais, coronéis e outros oficiais, seguindo orientação do próprio Alto Comando, evitaram descumprir o regulamento militar, que é explícito em proibir o uso da patente em atividade fora de serviço. Isso não significa que eles não estão aí, ao contrário, a bancada militar e policial cresceu.
Generais sinistros como o ex-ministro da Saúde Pazuello se elegeram, mas o avanço numérico do número de eleitos não revela o salto de qualidade na posição política dos militares. A concentração dos eleitos pela legenda do PL, o que dá um poder razoável da bancada militar no maior partido do Congresso e a eleição do Coronel Zucco no Rio Grande do Sul. Isso não é qualquer coisa. Ao contrário de Tarcísio, que antes de subir ao governo estadual teve uma carreira política fora dos quartéis, Zucco se lançou na política como militar, vocalizando os interesses do latifúndio gaúcho e uma política de mão dura contra o MST. Assim, um coronel reformado, representante político da “família militar” gaúcha, assumirá o comando da Brigada Militar, a PM gaúcha.
O crescimento do PL fagocitando setores do restante do centrão é também expressão do avanço de um projeto político antigo da “linha dura” militar. Na convenção que formalizou a candidatura de Bolsonaro em 2018 pelo PSL, o general Heleno havia lançado a palavra de ordem com que queria arregimentar o esgoto dos porões da ditadura: “se gritar pega centrão, não sobra um meu irmão”. Os rumos do governo Bolsonaro colocaram esse embate com o centrão em segundo plano, e a aliança com o centrão se tornou fundamental para o governo de Jair Bolsonaro no Congresso, sob comando do general Braga Neto na Casa Civil.
É preciso também não confundir as palavras do general Heleno com qualquer falta de pragmatismo político. Ele mesmo circulou muito bem nos ambientes de Brasília e da política, desde que era ajudante de ordens de general Frota em 1977, na tentativa de golpe palaciano contra o governo Geisel, ou quando, ainda coronel, foi revelado com um dos que mais falava com o juiz Lalau, um dos corruptos símbolos da corrupção na era tucana. O projeto de um partido de extrema-direita que suplante o centrão não se daria em choque ao fisiologismo e à corrupção, apenas quer colocar ordem na casa, disciplina!
Vale voltar aos tempos do governo militar do general Médici, expressão histórica dessa “linha-dura” que retornou ao palco da política com o bolsonarismo, que proclama como herói um chorume dos porões como o mal afamado coronel Brilhante Ustra. Jair Bolsonaro – e por sua via seu clã familiar – é um subproduto, uma excrescência dessa ala mais podre do “partido militar”, que busca uma desforra histórica.
Nos idos do início dos anos setenta, uma ala dos militares apoiadores mais próximos de Medici tentavam influenciar o presidente militar no sentido de alguma forma de validação plebiscitária do seu governo, que no auge do “milagre” e na sequência do tricampeonato mundial, terminava de derrotar os focos guerrilheiros e estava do auge a popularidade do regime militar. Seria uma forma de fortalecer a linha dura, deslocar o setor que terminou prevalecendo de uma “transição lenta, gradual e segura” e criar as condições de um partido capaz de formar maiorias eleitorais controlado pelos generais.
O projeto deu errado, mas essa fração conservou sua força nos serviços de inteligência e nos aparatos de repressão e tentou retomar a direção do processo uma e outra vez. Tentaram emplacar a candidatura militar do general Sylvio Frota, que, anos depois, tentou o golpe palaciano, uma aventura fracassada. Depois, tentaram se agrupar em torno da candidatura civil de Paulo Maluf no colégio eleitoral em que foram derrotados por Tancredo Neves.
Se esse projeto foi enterrado pela história, se deve apenas à luta e a resistência contra a ditadura, que começou a se erguer a partir de 1974 e em 1978 explodiu com o início das grandes greves do ABC, que mudaram o rumo da história e tiraram das mãos dos militares o controle completo da transição. Nesse processo, a chamada “transição transada”, para usar as palavras de Florestan Fernandes, conservou com a anistia a impunidade dos militares e torturadores e a preservação das engrenagens de inteligência e repressão das forças armadas.
A política brasileira desde 2018, mais precisamente desde o golpe institucional de 2016, mostra as piores consequências do pacto de impunidade dos anos oitenta. Virar a pagina sem mágoas e ressentimentos para incorporar as forças armadas à construção democrática da Nova República se mostrou um programa político ilusório e perigoso. Depois da tentativa aloprada do 8 de janeiro, mais uma vez a luta contra a anistia aos militares esteve na ordem do dia.
Mais uma vez ela ficou no meio do caminho. O PT e as lideranças do progressismo transformaram Alexandre de Morais no paladino defensor da democracia. Jair Bolsonaro e alguns generais foram punidos, mas suas redes de apoio e poder permaneceram intactas e, atuando como vítimas do STF, de maneira mais discreta, se reorganizaram e se fortaleceram nesses 4 anos. A luta por memória, por justiça e contra a impunidade segue viva. Vive na luta das mães contra a repressão policial que leva a vida dos nossos jovens, vive na luta dos povos indígenas, quilombolas e dos trabalhadores rurais que se enfrentam a ditadura dos latifundiários todos os dias nos rincões do país, na memória de todos os que morreram pela Covid-19.
A vitória de Flávio Bolsonaro ameaça até mesmo a punição dos bolsonaristas mais implicados com o 8 de janeiro, quando todos os responsáveis pelo 700 mil mortos da pandemia, como o ex -ministro da Saúde general Pazuello é que deveriam estar também presos. Não é sentando à mesa com os inimigos que vamos garantir que a impunidade aos militares prevaleça, é só com luta e com mobilização que serpente do golpismo nas forças armadas pode ser derrotada. Cabe às novas gerações levar até o fim a luta que os trabalhadores e jovens que derrotaram a ditadura e construíram o PT nos anos setenta e oitenta iniciaram.
Fonte: Esquerda Diário