Carta aberta de Leonel Brizola a Lula, psicografada pelo jornalista Joaquim de Carvalho
Por Joaquim de Carvalho — Brasil 247
Meu caro amigo Lula,
Tivemos alguns embates no Brasil, mas também construímos alianças importantes. Lembro que chamei o partido que você criou, numa ideia genial, de UDN de tamanco e macacão.
Era uma época em que eu queria você e seus amigos no PDT, partido que fundei para dar continuidade ao antigo PTB, cuja sigla me foi tomada por uma manobra política que favoreceu uma representante da direita, Ivete Vargas, que usava o sobrenome do tio, Getúlio.
Mas vocês seguiram outro caminho. E hoje, depois de conversar com meu padrinho Getúlio Vargas, aqui num cantinho do Céu, fui convencido de que você estava certo.
Getúlio sempre foi um homem generoso, que deu a vida para enfrentar as aves de rapina do nosso país.
Aliás, Getúlio deu uma boa risada quando se lembrou daquela cena em que você não conseguiu disfarçar a estranheza, quando o levei para conversar com ele diante de seu túmulo, em São Borja.
Só nós estávamos presentes. Aliás, nós três: eu, você e Getúlio.
Eu o apresentei ao grande caudilho como um líder operário em condições de continuar sua obra em defesa dos trabalhadores. Lembra?
Mas você estava tão sem jeito que mal conseguiu dizer algumas palavras.
Eu sei, você é católico e não tem muita intimidade com Allan Kardec. Mas eu também não. Sou — ou era, porque aqui isso não importa — metodista, protestante, portanto.
Getúlio, porém, sempre foi uma inspiração para mim. Sempre esteve presente.
Deixo agora as reminiscências de lado para falar de algo mais sério: o momento que o nosso país vive e os riscos que ameaçam as conquistas pelas quais você e eu sempre lutamos, especialmente os direitos dos trabalhadores.
Para enfrentar esse desafio, você terá que construir alianças amplas.
Coração quente, cabeça fria, como diz aquele piá que é técnico do Palmeiras.
Você sabe que sou Bangu no Rio e São José no Sul. Mas isso não importa. O rapaz palestrino disse uma coisa certa, que se encaixa perfeitamente no momento em que estamos vivendo.
Sendo direto: estabeleça pontes com aquele outro piá que disputou a eleição, o Renan Santos.
Sei que seus amigos e apoiadores de origem não gostam dele. E têm motivos para isso. O rapaz encheu muito o saco com o tal MBL. Mas, neste momento, tem sinalizado que quer apoiá-lo.
E você não deve deixá-lo falando sozinho.
Ele pode trazer eleitores jovens e ajudar a derrubar preconceitos que não favorecem você.
Dou esse conselho por experiência própria.
Em 1958, quando me candidatei ao governo do Rio Grande do Sul, eu havia feito, modéstia à parte, uma excelente administração em Porto Alegre. Mas sabia que teria dificuldades para vencer a eleição, dada a resistência de muitos padres, que me viam como agitador e subversivo.
Sabe o que fiz?
Procurei Plínio Salgado. Ele mesmo, o líder dos integralistas, os galinhas-verdes, que gritavam o lema “Deus, Pátria e Família”, que esse Bolsonaro copiou.
O partido dele, o PRP, me apoiou, e fizemos uma aliança formal.
Resultado: tive cerca de 55% dos votos.
Não conto essa história para todo mundo, embora ela esteja registrada na minha biografia, El Caudillo, escrita por Leite Filho.
Uma vez, falei sobre isso a Jackson Lago, quando ele era governador do Maranhão e eu lhe dava alguns conselhos, como já dei a você.
Disse a ele que fiz acordo até com Plínio Salgado e nunca sujei minhas mãos.
E a turma de Plínio governou comigo durante quatro anos.
Aliança, companheiro Lula, não é só para ganhar eleições. É também para governar.
E Plínio foi leal a mim. Tanto que, na Campanha da Legalidade, quando fiz questão de divulgar uma fotografia com uma metralhadora na mão, ele foi firme na defesa da posse do meu cunhado João Goulart.
Você sabe que, muitas vezes, aqueles que estão ao nosso lado o tempo inteiro, distribuindo elogios e bajulações, são os primeiros a fugir da raia. Quando não traem.
Em política, a gente aprende que o apoio pode vir de quem não tem tanta intimidade conosco.
Enfim, meu caro amigo, não quero que você repita o nosso erro de 1998, quando fizemos uma aliança para disputar a eleição contra Fernando Henrique Cardoso.
Aquela aliança não acrescentou um único voto, já que éramos — e continuamos sendo — do mesmo campo político.
Achávamos que a impopularidade de Fernando Henrique faria daquela eleição um passeio para nós.
Mas menosprezamos o principal cabo eleitoral dele, o Plano Real, e também outro cabo eleitoral poderoso: a imprensa alinhada ao sistema financeiro, capitaneada pela Globo.
Aliás, dessa Globo você, caro amigo, não consegue se libertar.
Dá uns beliscões de vez em quando, mas, mal aconselhado, não dá o devido valor aos jornalistas independentes.
Getúlio também me falou sobre isso. Disse que errou ao confiar em Assis Chateaubriand e que, se pudesse voltar no tempo, teria ajudado muito mais Samuel Wainer, que não tinha televisão, apenas a Última Hora como trincheira de resistência às aves de rapina.
Permita-me uma última reflexão sobre 1998.
Errei ao estimular aquela aliança, mas devo lhe dizer que fomos iludidos pelo voluntarismo de quem não tinha a experiência que nós já havíamos acumulado.
Refiro-me a um político íntegro e leal, mas sem experiência nas grandes disputas eleitorais: Milton Temer.
Era um homem valoroso, como poucos que encontrei na vida pública.
Mas deixou-se levar pela emoção e, naquele encontro no Rio de Janeiro, puxou o coro:
“Ola, ola, ola! É Lula e Brizola!”
Aquilo gerou uma onda que nos impediu de dizer não.
Precisávamos buscar alguém do centro ou talvez até da direita.
Em política, é preciso saber dizer não. E honrar o sim.
Enfim, água que já passou pelo moinho.
Você se elegeu em 2002, já com força para dizer não, e se tornou um dos maiores líderes mundiais, o que muito nos orgulha.
Getúlio gosta muito de você e nem liga mais para as bobagens que disse no passado, quando considerou a CLT uma lei de inspiração fascista.
Havia alguns fundamentos históricos naquela afirmação, mas você era jovem demais para compreender que é preciso saber aproveitar experiências bem-sucedidas, mesmo em governos com os quais não concordamos integralmente.
Olha o Plínio Salgado voltando à minha cabeça!
Companheiro, sua iniciativa de garantir mais um dia de descanso ao trabalhador merece todos os aplausos. Meus e do doutor Getúlio.
Não desista.
Aquele rapaz mentiroso que disputa com você a Presidência quer acabar com direitos. Você quer ampliá-los.
E vai conseguir.
Mas, para isso, procure Renan Santos, como eu procurei Plínio Salgado.
Conversem. Procurem pontos de entendimento. Uma aliança não exige que se concorde com tudo, mas que se reconheça aquilo que é essencial para o país.
Sua principal causa, a da inclusão social, não precisa correr riscos.
Você não vai sujar suas mãos.
Com um abraço fraterno,
Leonel Brizola
Nota do autor:
A carta é uma criação literária, evidentemente fictícia, que toma emprestado um recurso narrativo popularizado no jornalismo brasileiro por Elio Gaspari: dar voz a personagens históricos para comentar os acontecimentos do presente.
Não se trata de atribuir a Leonel Brizola palavras que ele efetivamente tenha pronunciado, mas de imaginar, a partir de sua trajetória política, o conselho que poderia oferecer a Lula neste momento.
Acredito que essa seja uma forma de tentar convencer Lula e Geraldo Alckmin da importância de uma decisão política: abrir uma conversa com Renan Santos, líder do partido Missão, com vistas à construção de uma possível aliança eleitoral.
Não se trata de ignorar divergências ou apagar a história. Trata-se de reconhecer que, em determinados momentos, a política exige pontes inesperadas.
Brizola compreendeu isso ao se aliar a Plínio Salgado. Lula demonstrou compreensão semelhante quando construiu a aliança com José Alencar, em 2002, e, mais recentemente, com Geraldo Alckmin.
A história não se repete, mas pode ensinar.
E talvez o velho caudilho, se estivesse entre nós, dissesse mais uma vez: aliança não é rendição. É preciso saber com quem, por que e para que se caminha junto.
Fonte: Brasil 247