As chances de a jogatina ser liberada após o 2º turno

0

Por Diego Amorim — Reportagem – PlatôBR

1-5-1200x630.jpg

O projeto que libera cassinos, bingos e jogos de azar em geral no Brasil está pronto para ser levado ao plenário do Senado, para votação definitiva.

Em julho do ano passado, a proposta chegou a entrar na pauta do dia, mas acabou não sendo apreciada.

Agora, parlamentares favoráveis e contrários à legalização da jogatina acreditam que, com a nova configuração de forças em Brasília após o primeiro turno das eleições de 2026, a fatura desse tema possa ser liquidada já depois do segundo turno, no apagar das luzes do ano legislativo.

A avaliação predominante no Congresso é a de que Flávio Bolsonaro, uma vez eleito, daria o aval para avançar com a legalização dos jogos.

Para entender a relação da família Bolsonaro com os jogos de azar, é preciso voltar um pouco no tempo.

Em 2018, oito anos atrás, a então senadora Simone Tebet capitaneou a derrubada de um projeto liderado por Ciro Nogueira, presidente do PP, para liberar a jogatina no Brasil.

Ciro, que viria a ser ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, e outras lideranças do Centrão, porém, não desistiram.

Durante a campanha presidencial daquele ano, o então candidato Jair Bolsonaro dizia, em lives e entrevistas, que o Brasil não poderia virar “uma grande lavanderia” e que os cassinos serviam para “lavar dinheiro” e “destruir as famílias”. Aconselhado pela bancada evangélica, da qual estava se aproximando para construir base de apoio, Jair se colocava terminantemente contrário ao tema.

A preocupação de Jair coincidia com manifestações públicas de setores da Polícia Federal e do Ministério Público.

Quando chegou ao Palácio do Planalto, no entanto, Jair começou a ser convencido do contrário. A pressão era grande por parte de lideranças políticas que trabalhavam pela legalização dos jogos, estimuladas por investidores de Singapura e de outros países. O argumento sempre foi o de que “é preciso quebrar esse tabu” e atrair investimentos para o país. 

Em março de 2019, primeiro ano de mandato de Jair, a legalização dos cassinos no Brasil foi tema de conversa entre ele e Donald Trump, em Washington. No fim daquele mesmo ano, Jair recebeu para um almoço, no Palácio do Planalto, um grupo de parlamentares favoráveis à liberação dos jogos.

Menos de um mês depois, Flávio Bolsonaro, filho 01 de Jair, senador e hoje candidato à Presidência da República, viajou a Las Vegas bancado pelo Senado.

Na ocasião, Flávio passou oito dias em Miami e em Las Vegas em “missão oficial”. Estavam com ele o senador Irajá, o então deputado Hélio Lopes e Gilson Machado, presidente da Embratur na época. A comitiva tinha como objetivo “capitanear grandes corporações de cruzeiros dos Estados Unidos para operar no Brasil”.

A agenda da viagem incluiu uma reunião com o presidente da Las Vegas Sands Corporation, o bilionário Sheldon Adelson, magnata dos cassinos e um dos maiores doadores de campanha de Trump. Flávio também se encontrou com o empresário salvadorenho Mario Guardado, diretor de cassinos, para “tratar de assuntos de turismo e cassinos”.

O filho 01 de Jair voltou dos Estados Unidos e, quatro meses depois, em maio de 2020, o então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, admitiu pela primeira vez o plano do governo Bolsonaro de instalar cassinos no Brasil.

Relatos ouvidos por este colunista naquele ano eram de que “os olhos de Jair brilhavam” quando pediam para ele imaginar a Costa Verde — no litoral sul do Rio de Janeiro, onde a família Bolsonaro tem investimentos — repleta de cassinos à beira-mar.

O caminho não seria simples. No governo de Jair, havia uma resistência grande da bancada evangélica. O então líder, deputado Sóstenes Cavalcante, ligado a Silas Malafaia, dizia que um Congresso conservador jamais deixaria esse tema avançar. E que os apoiadores da liberação queriam era “lavar dinheiro”.

Marcelo Crivella, da Igreja Universal, por sua vez, era uma voz dissonante entre os evangélicos: argumentava que só os jogos tirariam o Rio de Janeiro da bancarrota.

No início de 2022, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), apoiado por Ciro Nogueira, presidente de seu partido, e pelo próprio Jair Bolsonaro, deu uma cartada na bancada evangélica, convencida, em sua maioria, a aprovar a legalização dos jogos em troca de um projeto que garantiria a isenção de IPTU para as igrejas.

O projeto passou na Câmara e seguiu para o Senado.

No Senado, em junho de 2024, já com o presidente Lula de volta ao poder, os senadores aprovaram a matéria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O relator, que deu parecer favorável, foi o senador Irajá (PSD-TO), aquele que cinco anos antes havia viajado com Flávio Bolsonaro para Miami e Las Vegas para abrir o caminho para a legalização dos jogos.

Há no Congresso vários parlamentares, de diferentes espectros políticos, que já possuem estruturas prontas para receber esses investimentos estrangeiros bilionários, em cidades como Foz do Iguaçu (PR) e Caldas Novas (GO). Os lobistas dos jogos são encarados nos bastidores de Brasília como potenciais financiadores de campanhas.

São diversos interesses envolvidos na jogatina liberada no Brasil, algo que parece cada vez mais perto de se concretizar.

Fonte: Reportagem – PlatôBR

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *