Vítima de casamento infantil aos 15 anos, mulher se torna advogada e conquista 2 milhões de seguidores
Por João Paulo Alexandre — Jornal Opção

A advogada Miriane Ferreira, que acumula mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais, revelou que foi vítima de casamento infantil aos 15 anos. Natural de Arapongas, no Paraná, ela se casou com um homem quase duas vezes mais velho na tentativa de escapar dos abusos cometidos pelo padrasto. A história foi revelada em reportagem do g1.
Miriane cresceu sem a presença do pai e foi criada pela mãe, ao lado de três irmãos. A situação familiar se agravou quando a mãe sofreu um aneurisma e o padrasto passou a abusar da adolescente. Aos 13 anos, ela conheceu um homem adulto e enxergou no relacionamento uma oportunidade de deixar a casa onde vivia.
“Sei também que aquilo não era uma história de amor entre iguais. Era um homem adulto e uma menina de 13 anos procurando proteção”, contou ao g1.
O casamento terminou pouco tempo depois. Miriane enfrentou outros relacionamentos abusivos, incluindo um em que foi impedida de estudar. Apesar das dificuldades, conseguiu concluir a formação escolar e ingressar na faculdade de Direito, com apoio financeiro e emocional da irmã.
Inicialmente, pretendia seguir a carreira de juíza, mas mudou de planos após atender, durante os estágios, mulheres que enfrentavam violência doméstica, dependência financeira e desconhecimento sobre seus direitos.
Atualmente, utiliza o Instagram e o TikTok para responder, muitas vezes de maneira bem-humorada, a dúvidas sobre divórcio, união estável, divisão de bens e relacionamentos. Os conteúdos alcançam milhões de pessoas.
Brasil tem mais de 32 mil crianças de até 14 anos vivendo em uniões conjugais
A história de Miriane reflete um problema que ainda atinge milhares de meninas brasileiras. Segundo o Censo de 2022, aproximadamente 32,4 mil crianças entre 10 e 14 anos viviam em uniões conjugais no país.
Dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), apresentados pelo g1, apontam que o Brasil possui o maior número absoluto de casamentos infantis da América Latina e ocupa a sexta posição mundial.
Embora a legislação brasileira proíba, desde 2019, o casamento civil de menores de 16 anos, adolescentes de 16 e 17 anos ainda podem se casar mediante autorização dos responsáveis.
Em 2024, os cartórios registraram 193 casamentos civis envolvendo menores de 16 anos, segundo informações encaminhadas ao IBGE. O número representa um aumento de 91 registros em comparação com o ano anterior.
A representante do UNFPA no Brasil, Florbela Fernandes, alerta que essas uniões estão frequentemente relacionadas à pobreza, à desigualdade de gênero, ao abandono escolar e à violência.
Para Miriane, a experiência vivida na adolescência contribuiu para sua decisão de orientar outras mulheres. Ao recordar o passado, a advogada destacou que precisava de proteção, e não de um casamento.
“Hoje compreendo que o que faltou àquela menina não foram conselhos, mas proteção. E, se eu realmente pudesse fazer alguma coisa, simplesmente a levaria para casa e cuidaria dela com muito amor.”
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Fonte: Jornal Opção