Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça. (Quanto mais desejo tem, mais o fascismo ameaça). Por Carol Almeida
Por CombateRacismoAmbiental — Combate Racismo Ambiental
Suponhamos um Pedro. Suponhamos que ele tem 18 anos e que, assim como a maior parte da população brasileira, nasceu em um contexto de classe trabalhadora precarizada. Um Pedro qualquer que acabou de completar maioridade em alguma cidade desse vasto território conhecido como Nordeste.
Pedro veio ao mundo num Brasil que passava por um processo de transição, mas as memórias de sua infância e adolescência nada vão lhe dizer, ainda bem, sobre o que sua vida poderia ter sido se Lula nunca tivesse sido eleito. Em outras palavras, Pedro nunca precisou se preocupar se, no acaso de sua chegada ao planeta, o Brasil nunca tivesse apostado num projeto de governo com políticas públicas cuja prioridade consistia na erradicação da fome em territórios que, por séculos, foram marcados por ela. Territórios como o Nordeste de Pedro.
Perdido nas encruzilhadas do tempo que organizam a História como um fenômeno em constante movimento, Pedro se distraiu, foi dar um rolê com os amigos, riu junto de algumas piadas, umas bestas, outras grosseiras, muitas machistas e, antes de dormir, rolou o dedo por uma tela iluminada que lhe dizia: Pedro, você é como nós. Nós, os caras de um aqui e agora que a gente promete que vai durar para sempre. Esquece o que aconteceu ontem Pedro, e, mais importante, esquece o amanhã, porque seus dedos controlam o tempo na atualização de um feed. O tempo é um bem de consumo descartável, porém distintivo: saiba aqui como adquirir o seu.
O ano em que está nascendo Pedro, nosso personagem hipotético, é o mesmo em que eu estou entrevistando um homem condenado por ter roubado um pedaço de queijo para alimentar sua família. Ficou conhecido como “homem-rato”. O ano era 2008, e o Nordeste de Pedro e do homem-rato começavam a criar bifurcações no rolê da História.
Minha conversa com o pai de família desesperado por um pedaço de comida fazia parte de uma reportagem especial em tributo ao centenário de Josué de Castro, ele mesmo, o autor de Geografia da Fome. Na ocasião, a jornalista Ciara Carvalho viajou por cidades e zonas rurais do interior do Nordeste ao lado do fotógrafo Arnaldo Carvalho, enquanto eu fiquei na Região Metropolitana do Recife, com o fotógrafo Rodrigo Lobo, entre os mangues e aterros sanitários da cidade. Ciara fazia um percurso pelo mapa de um Nordeste que ainda sangrava imagens de crianças desnutridas, bebês que ficavam cegos por falta de alimentos, mães que não conseguiam produzir leite para amamentar. Do outro lado, eu conversava com pessoas que o próprio Josué identificava como arquétipos da fome no Brasil, o “homem-rato”, o “homem-caranguejo”, o homem metamorfoseado em bicho.
Em 2009, esse caderno do Jornal do Commercio chamado “Feridas Abertas da Fome”, levava o prêmio Vladimir Herzog de melhor reportagem impressa. E olhando em retrospecto o impacto que a reportagem teve na época – não foi pouca coisa – tem algo específico que me incomoda (muito) até hoje. Aliás, sobretudo hoje.
Os relatos e imagens da fome, particularmente marcadas nos corpos miúdos de crianças, mobilizou muita gente e lembro que houve até quem organizasse caminhões de alimentos para cidades por onde a reportagem passou. Mas pouco se repercutiu sobre algo que estava dado também nesses textos – e numa entrevista exclusiva com o próprio presidente Lula – que era o começo de uma alteração nessa paisagem de absoluta miséria.
A máquina do tempo está agora nos anos embrionários de políticas públicas que, em 2014, tirariam pela primeira vez o Brasil do mapa da fome. Pausa para “desenhar” caso você tenha se perdido nas datas: foram necessários 11 anos desde a criação do programa Fome Zero em 2003, para que uma série de ações do governo, sendo o Bolsa Família uma das mais fundamentais, conseguisse frear a locomotiva da fome no país. Foi preciso mais de uma década para, no país continental que é o Brasil, fazer chegar em todas as regiões os auxílios básicos que dariam condições mínimas de dignidade e segurança alimentar à população.
E aqui onde nasce meu incômodo: ainda que a reportagem sinalizasse que essas políticas públicas tinham, àquele momento, enorme potencial de transformação desse cenário, sinto que pouco se prestou atenção a isso. Pois havia simultaneamente uma legítima reação de horror diante daquelas imagens, mas também de um fascínio quase mórbido por esses relatos da fome.
Como se, predestinado a repetir um imaginário de vida severina, o Nordeste ficasse “mais Nordeste” na cristalização dessa miserabilidade. Como se esse território precisasse estar congelado no tempo dessa tragédia humana. Como se tudo isso fosse a verdadeira experiência “sublime” – sublime como categoria estética – do que se convencionou chamar de Nordeste. E nessa lógica, organizar caminhões de alimentos para as pessoas se tornava, então, mais importante que refletir e debater sobre políticas públicas de intervenção real e perene no cenário.
Digo isso porque, mesmo diante da realidade objetiva daquela reportagem, havia dentro do próprio jornal quem minimizasse – e em alguns casos mesmo desdenhasse – do Bolsa Família, o chamando de programa “assistencialista” (se minha intuição não me trai, suspeito que em muitas redações do jornalismo empresarial esse termo ainda persiste entre alguns profissionais). Digo isso porque, em São Paulo, onde recebemos o prêmio Vladimir Herzog pela reportagem, não foram poucos os comentários que guardavam, no fundo nem tão profundo do elogio, uma certa expectativa, senão gratificante, certamente apaziguadora por aquele Nordeste.
Naquela mesma noite de premiação uma outra memória me chega com força. Na categoria fotografia, a Menção Honrosa do ano estava sendo dada a um colega nosso do mesmo jornal, Alexandre Severo, por uma série de fotografias chamada À flor da pele, com crianças albinas em seus cotidianos nas periferias de Olinda. Lembro muito do discurso de Severo quando subiu ao palco. Era algo mais ou menos assim: “No jornalismo, aprendemos cedo que precisamos perguntar ‘o que?’, ‘onde?’, ‘quando?’, ‘quem?’, mas acredito que jornalismo mesmo só acontece quando a gente pergunta ‘por quê?’” Severo, que terminou sendo uma das vítimas daquele trágico voo que matou Eduardo Campos e sua equipe em 2014, fazia ali a provocação mais fundamental de todas, uma que se endereçava ao próprio maquinário da imprensa como agente de interrupção ou perpetuação do status quo.
Se uso esse ‘por quê?’ para lidar com a própria imprensa empresarial hoje, em 2026, preciso perguntar: por que ela decidiu apagar o genocídio promovido por Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19? Por que ela blinda Flávio Bolsonaro de todas as ligações que este tem com agentes de crimes de infanticídio, feminicídio e homicídio e de inúmeros e escandalosos crimes financeiros? Por que ela esquece da fila de ossos no governo Bolsonaro? E talvez a mais importante de todas: por que essa imprensa tem tanto ódio de Luiz Inácio Lula da Silva, ele mesmo um personagem desse Nordeste de fome? Eu não preciso responder. Quem me lê já gabaritou essa prova.
Mas quero usar esse “por quê?” para voltar a falar de Pedro, nosso jovem fabulado. Por que Pedro se identifica tanto com a narrativa exógena de um Nordeste atrasado, sendo ele mesmo nordestino? Por que Pedro tem tanta raiva de meninas? E a mais difícil de todas as perguntas: Por que a noção de “tempo” para Pedro está sendo confinada, cada vez mais, num excesso de presentificação de um aqui e agora que, ao eliminar seu passado e seu futuro, é também capaz de eliminar sua empatia e capacidade crítica?
Porque, no final das contas, esse texto inteiro quer falar disso, do tempo, de como se consegue apagar futuros apagando o passado. De como esquecer Palmares e Canudos faz apagar o Brasil inteiro. De como minimizar as políticas públicas contra a fome ajuda a perpetuar um imaginário de país que serve, sim, aos interesses de quem controla os caminhos da narrativa.
Resumindo: por que a Fome precisa se manter como uma categoria do tempo-Nordeste? É uma pergunta que nos custa muito, muito caro. Sua resposta pode doer em lugares emocionais nunca dantes navegados.
A questão é que, hoje, não nos foi dado mais tempo para pensar sobre isso. Vivemos dias de uma suspensão temporal e espacial que, à revelia de resultados eleitorais, precisa sim requalificar nossa relação com essa abstração tão concreta dos desdobramentos históricos. E só existe um lugar, nesse aqui e agora das urgências, onde o tempo corre simultaneamente na mesma velocidade para todas as pessoas: a rua. É nela e por ela que devemos, de fato, nutrir outro tipo de fome.
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Fonte: Combate Racismo Ambiental