Celso Amorim alerta para interferência dos Estados Unidos nas eleições e defende soberania do Brasil
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, alertou para o risco de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro e afirmou que a disputa presidencial de 25 de outubro tem consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais. Em entrevista concedida ao Tutaméia na sexta-feira (9), o ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa analisou as pressões do governo de Donald Trump sobre a América Latina, os desafios da soberania brasileira e a importância da autonomia tecnológica e militar do país.
Amorim afirmou que o Brasil ocupa uma posição estratégica no equilíbrio internacional e que as decisões políticas tomadas pelo país repercutem sobre o Sul Global e as relações entre as grandes potências.
“O que acontecer no Brasil terá uma influência, digamos, no próprio equilíbrio mundial”, declarou.
O diplomata destacou que a soberania brasileira depende da capacidade de manter relações diversificadas e de evitar a dependência de uma única potência.
“Hoje, no mundo complexo que nós vivemos, soberania não é sinônimo de isolamento, mas é uma capacidade de ter relações com mais de um país, de diversificar suas relações, de não depender de uma única potência em nenhum sentido, nem no sentido econômico, nem no sentido sociocultural, diria, nem sequer também no sentido militar de defesa.”
Amorim denuncia pressões de Washington sobre o Brasil
Questionado sobre possíveis tentativas de interferência do governo Trump nas eleições brasileiras, Amorim afirmou considerar real a influência de setores políticos norte-americanos sobre o cenário nacional.
Segundo ele, essa interferência não precisa ocorrer diretamente sobre os mecanismos de votação. Pode se manifestar por meio de pressões diplomáticas, econômicas e políticas, além do apoio a movimentos ideológicos brasileiros.
O assessor presidencial citou o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, as restrições diplomáticas e as iniciativas de setores da extrema direita norte-americana como exemplos de ações que, em sua avaliação, ultrapassam os limites de uma relação bilateral equilibrada.
Amorim também mencionou informações sobre tentativas de enviar representantes norte-americanos ao Brasil para inspecionar o sistema eleitoral, iniciativa que classificou como absurda.
Na avaliação do diplomata, documentos estratégicos de Washington revelam uma intenção de reafirmar a predominância dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental.
Ele considera que essas iniciativas precisam ser analisadas em conjunto, e não como episódios isolados.
Diplomata vê risco de submissão inédita aos Estados Unidos
Ao comentar as posições internacionais da família Bolsonaro, Amorim afirmou que uma eventual abertura irrestrita de informações estratégicas brasileiras aos Estados Unidos representaria uma mudança profunda na tradição diplomática nacional.
O ex-chanceler comparou o cenário atual com a interferência norte-americana no golpe militar de 1964, lembrando a atuação do então embaixador Lincoln Gordon e os planos de apoio militar dos Estados Unidos aos golpistas.
Amorim ressaltou que, mesmo durante a ditadura militar, houve momentos em que o Brasil adotou posições independentes de Washington, como na política nuclear, nas questões marítimas e no reconhecimento da independência de Angola.
Para o diplomata, o controle sobre recursos naturais e tecnologias estratégicas está no centro das atuais disputas internacionais.
Ele citou os minerais críticos e a inteligência artificial como exemplos de áreas em que o Brasil precisa preservar sua capacidade de decisão.
O assessor presidencial argumentou que a soberania não constitui uma questão abstrata, mas um elemento diretamente relacionado ao desenvolvimento econômico e à qualidade de vida da população.
Como exemplo, mencionou a criação da Petrobras e a importância de o Brasil possuir capacidade própria de produção de petróleo, especialmente em períodos de instabilidade internacional.
China e autonomia estratégica entram no centro da disputa
Amorim também analisou a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China e suas consequências para o Brasil.
Segundo ele, a competição entre grandes potências pode oferecer oportunidades para países que preservem autonomia na escolha de parceiros comerciais e tecnológicos.
O diplomata ressaltou que a expansão das relações econômicas entre Brasil e China decorre, em parte, da capacidade chinesa de oferecer condições competitivas de comércio e investimento.
Ele defendeu que o Brasil mantenha relações com diferentes parceiros, sem subordinar suas decisões aos interesses de Washington ou Pequim.
Na área tecnológica, Amorim destacou a importância de soluções que permitam ao país controlar os sistemas adquiridos e realizar adaptações independentes.
Como exemplo, mencionou a escolha dos caças Gripen durante sua gestão no Ministério da Defesa, destacando a possibilidade de acesso a tecnologias e de integração de armamentos brasileiros.
O ex-ministro também defendeu sistemas de inteligência artificial baseados em padrões abertos e submetidos a regras de governança.
Minerais críticos são comparados à importância histórica do petróleo
Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de o Brasil estabelecer uma estratégia nacional para seus minerais críticos.
Amorim destacou a criação do Conselho Nacional de Minerais Críticos pelo governo Lula e comparou sua relevância histórica à criação do Conselho Nacional do Petróleo.
Na avaliação do diplomata, a capacidade de controlar a exploração e a utilização desses recursos será decisiva para o desenvolvimento industrial e tecnológico do país.
Ele ressaltou que a defesa da soberania mineral não significa interromper exportações ou rejeitar investimentos estrangeiros, mas assegurar que as necessidades nacionais sejam consideradas prioritárias.
O assessor presidencial relacionou essa estratégia à crescente importância dos minerais na produção de equipamentos eletrônicos, sistemas de inteligência artificial e tecnologias de defesa.
Amorim defende investimentos nas Forças Armadas e na indústria nacional
Ao abordar a situação das Forças Armadas, Amorim afirmou perceber uma preocupação crescente com a defesa do território brasileiro e com o desenvolvimento de capacidades militares próprias.
Ele citou o programa do submarino de propulsão nuclear, o desenvolvimento dos caças Gripen e a necessidade de ampliar o uso de drones e outros equipamentos modernos.
O ex-ministro reconheceu que esses projetos exigem investimentos expressivos, mas ressaltou seus efeitos sobre a geração de empregos qualificados e o desenvolvimento tecnológico.
Segundo Amorim, muitas tecnologias utilizadas atualmente pela sociedade tiveram origem em pesquisas e projetos militares.
Ele defendeu que os investimentos em defesa sejam compreendidos como parte de uma estratégia de desenvolvimento nacional, e não apenas como despesas militares.
O objetivo, afirmou, deve ser assegurar que o Brasil tenha condições de proteger sua autonomia e evitar qualquer forma de intervenção estrangeira.
Escalada militar internacional preocupa ex-chanceler
Amorim também manifestou preocupação com o aumento dos conflitos internacionais e com a possibilidade de ampliação de confrontos entre grandes potências.
O diplomata analisou a guerra na Ucrânia como um conflito de alcance mais amplo, envolvendo a Rússia e países europeus integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Ele ressaltou sua oposição ao uso da força, inclusive à invasão russa, mas defendeu que os conflitos sejam compreendidos em seu contexto geopolítico.
O ex-chanceler também recordou a atuação brasileira nas negociações sobre o programa nuclear iraniano, durante o governo de Barack Obama, como exemplo da importância da diplomacia e do diálogo.
Amorim demonstrou preocupação com a substituição da linguagem diplomática por ameaças de destruição e ações militares.
Na América Latina, criticou iniciativas norte-americanas que, segundo sua avaliação, podem transformar o combate ao crime organizado em justificativa para intervenções militares.
O diplomata defendeu a cooperação internacional contra o narcotráfico, inclusive com troca de informações e apoio financeiro, desde que seja respeitada a soberania dos países envolvidos.
Ao tratar da relação entre soberania e condições materiais de vida, Amorim resumiu sua posição:
“Não come soberania, mas se ele não tiver soberania, ele vai ter que comer coisas muito piores.”
Juventude, universidades e humanismo
Durante a entrevista, Amorim também destacou a importância da participação dos estudantes no debate político e na construção do futuro do Brasil.
O assessor presidencial afirmou que as novas gerações precisam ter condições de viver em uma sociedade que assegure liberdade cultural, acesso ao conhecimento e oportunidades de desenvolvimento.
Ele defendeu que as universidades brasileiras sejam centros de excelência científica e tecnológica, mas também espaços de formação humanista.
Para o diplomata, o desenvolvimento econômico e tecnológico não pode ser dissociado da solidariedade e do respeito à diversidade.
Amorim também ressaltou que o fortalecimento da democracia depende da participação dos cidadãos e da capacidade de preservar a convivência entre diferentes grupos sociais.
Brasil deve manter relações internacionais independentes
Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos não reconhecerem o resultado da eleição brasileira, Amorim afirmou que essa não é sua principal preocupação.
Segundo ele, a dimensão econômica, territorial, demográfica e ambiental do Brasil torna difícil para qualquer governo norte-americano desconsiderar a importância das relações bilaterais.
O diplomata avaliou que Donald Trump possui uma dimensão pragmática em sua atuação política, embora existam setores de seu governo mais comprometidos com uma visão ideológica de domínio sobre a América Latina.
Amorim afirmou que sua maior preocupação está relacionada às possíveis formas de interferência indireta no debate público brasileiro, inclusive por meio da disseminação de informações falsas.
Ao longo da entrevista, reiterou que a autonomia brasileira exige relações internacionais diversificadas, desenvolvimento tecnológico próprio e capacidade de defesa.
Para o ex-chanceler, o Brasil deve buscar cooperação com diferentes países, mas preservar sua liberdade de decisão sobre os próprios recursos, suas instituições e seu futuro.
Fonte: Brasil 247