Bolsonarismo reduz bancada evangélica e avança sobre sua representação no Congresso

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Por Dayane Santos — Brasil 247

247 – A representação política evangélica no Congresso Nacional perdeu força após atingir seu ponto mais alto em 2018, enquanto o bolsonarismo ampliou sua influência sobre partidos e parlamentares que tradicionalmente abrigavam lideranças religiosas. A avaliação é do historiador Guilherme Galvão Lopes, pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), em entrevista ao Metrópoles.

Segundo o pesquisador, a quantidade de parlamentares evangélicos eleitos chegou a aproximadamente 120 deputados e senadores em 2018. Em 2022, o número caiu, e os resultados eleitorais mais recentes reforçam a tendência de retração. Na análise preliminar apresentada por Galvão Lopes, o total de parlamentares evangélicos que conseguiram se reeleger passou de 96, em 2022, para 51 no pleito deste ano.

O historiador ressalva que os números ainda não representam o conjunto definitivo da nova composição parlamentar, pois é necessário contabilizar os novos eleitos e aqueles que retornaram ao Congresso após períodos fora dos mandatos. Mesmo assim, ele identifica uma redução expressiva da representação evangélica, sobretudo entre os grupos que não estavam integralmente vinculados ao bolsonarismo.

A principal hipótese levantada pelo pesquisador é que a extrema direita se apropriou de bandeiras que, durante décadas, deram identidade à atuação política de parlamentares evangélicos. Com maior projeção eleitoral e capacidade de mobilização, o bolsonarismo passou a disputar o mesmo eleitorado e a ocupar o espaço das lideranças religiosas tradicionais.

“Acabou que o bolsonarismo engole essas pautas”, afirmou Galvão Lopes ao explicar como a incorporação das agendas conservadoras pelo movimento liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro alterou a posição política da bancada evangélica.

Bolsonarismo ocupa espaço de lideranças religiosas

A expansão da influência bolsonarista não se limita ao número de parlamentares eleitos pelo PL. Segundo o historiador, o movimento também avançou sobre partidos de centro e de direita que historicamente concentravam representantes ligados às pautas evangélicas, como PP, PSD e MDB.

Esse deslocamento reduz a capacidade de articulação autônoma das lideranças religiosas, que passam a disputar espaço com políticos de maior projeção nacional e eleitoral. Nesse cenário, parlamentares identificados com o conservadorismo religioso podem depender da votação de candidatos mais populares para manter seus mandatos.

Galvão Lopes cita o caso de Minas Gerais. De acordo com os dados apresentados na entrevista, a representação evangélica no estado caiu de nove para sete deputados. Quatro dos sete eleitos são do PL, entre eles Nikolas Ferreira, que obteve votação expressiva.

O historiador também menciona Lincoln Portela, liderança evangélica com vários mandatos, cuja reeleição, segundo sua avaliação, foi favorecida pelo desempenho eleitoral de Nikolas Ferreira. O exemplo ilustra como a força eleitoral de uma figura associada ao bolsonarismo pode beneficiar outros candidatos, mas também evidencia a dependência dessas lideranças em relação a políticos com maior capacidade de mobilização.

Na avaliação do pesquisador, a mudança representa mais do que uma simples transferência de votos entre partidos. O fenômeno indica uma transformação na estrutura de representação política dos evangélicos, com o enfraquecimento de grupos que antes tinham protagonismo próprio no Congresso.

Universal e Igreja da Graça perdem espaço

A redução da representação também atingiu denominações religiosas que tiveram papel importante na consolidação da bancada evangélica desde a década de 1980.

Galvão Lopes destaca a Igreja Universal do Reino de Deus, que, apesar de ter mantido alinhamentos com o bolsonarismo, sofreu uma perda relevante de representação parlamentar. Ele também aponta o enfraquecimento da Igreja Internacional da Graça de Deus, liderada pelo missionário R. R. Soares.

Segundo o pesquisador, nenhum dos filhos do religioso que disputaram as eleições conseguiu renovar o mandato. As duas denominações, que por décadas exerceram influência sobre a presença evangélica no Legislativo, enfrentam agora um cenário de menor protagonismo.

O quadro demonstra que a aproximação com o campo conservador não assegura, por si só, a manutenção do poder político das organizações religiosas. Ao incorporar suas principais bandeiras e apresentá-las em uma estrutura eleitoral mais ampla, o bolsonarismo passou a concorrer diretamente com essas instituições pela influência sobre o eleitorado.

O historiador observa ainda que houve maior abertura de setores religiosos a políticos sem vínculos históricos com suas estruturas. Como exemplo, menciona o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, cuja trajetória política não se confunde com a das lideranças tradicionais da bancada evangélica.

Eleitores deixam de seguir automaticamente a orientação dos pastores

Outro fator apontado por Galvão Lopes é a perda de influência das lideranças religiosas sobre a decisão eleitoral de parte dos fiéis. Pesquisas recentes, segundo ele, indicam que cresce o número de evangélicos que não seguem necessariamente as recomendações políticas de seus pastores.

Esse comportamento favorece candidatos com maior visibilidade e capacidade de apresentar propostas alinhadas às convicções dos eleitores, mesmo quando não pertencem às igrejas que tradicionalmente organizavam a representação parlamentar.

O pesquisador descreve uma situação em que um fiel pode receber de seu pastor a indicação de um candidato com pouca competitividade eleitoral, mas optar por outro nome que considere mais capaz de defender suas posições e influenciar as decisões nacionais.

“Possivelmente ele vai escolher justamente essa candidatura com a qual ele se identifica e que vai poder, de certa forma, pautar o conjunto da sociedade”, explicou.

A mudança enfraquece o modelo em que as orientações das lideranças religiosas funcionavam como um dos principais instrumentos de organização do voto. Ao mesmo tempo, amplia a importância da exposição pública dos candidatos, das redes sociais e da capacidade de mobilização de campanhas nacionais.

Galvão Lopes relaciona essa transformação à crise de confiança nas instituições, que, segundo ele, também alcança as lideranças evangélicas. O fenômeno não se restringe ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Congresso Nacional, à Presidência da República ou aos governos estaduais: envolve também organizações religiosas e seus representantes políticos.

O historiador inclui nesse processo o crescimento dos chamados desigrejados — pessoas que se afastam das instituições religiosas — e o aumento do número de brasileiros que declaram não ter religião, tendência registrada pelos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para ele, a combinação desses fatores ajuda a explicar por que a representação evangélica perde força mesmo quando pautas conservadoras continuam presentes no debate político.

Falta de diálogo da esquerda favoreceu a extrema direita

A análise do pesquisador também atribui parte do avanço bolsonarista à dificuldade de interlocução da esquerda com os setores evangélicos. Na avaliação dele, a extrema direita conseguiu se apresentar como defensora da família e de valores conservadores, enquanto associou seus adversários a posições que provocam resistência entre parcelas desse eleitorado.

Galvão Lopes afirma que a direita radical difundiu a imagem da esquerda como inimiga da família e defensora da chamada “ideologia de gênero”, do aborto, da descriminalização das drogas e de posições que seus adversários classificam como favoráveis à criminalidade. Essa construção discursiva, segundo ele, ajudou a tornar as candidaturas conservadoras mais palatáveis para segmentos religiosos.

O historiador avalia que a extrema direita conseguiu identificar demandas e preocupações desse público e adaptar sua comunicação com maior rapidez, enquanto a esquerda perdeu interlocução com parcelas dos evangélicos.

“Essa adesão não vai ser à toa porque eu também identifico que houve um vácuo nessa comunicação”, afirmou.

Na avaliação do pesquisador, o problema não se resume às propostas defendidas pelos partidos, mas envolve também a capacidade de dialogar com a realidade cotidiana dos fiéis, disputar interpretações sobre temas sociais e apresentar candidaturas consideradas eleitoralmente viáveis.

Esse vazio permitiu que o bolsonarismo reunisse diferentes setores conservadores em torno de um projeto político mais amplo, reduzindo a necessidade de que o eleitorado evangélico se organizasse exclusivamente por meio de representantes vinculados às igrejas.

Fonte: Brasil 247

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