Mudar a Constituição para “redemocratizar” o país — e a distopia bolsonarista
Por Halley Margon — Jornal Opção

Na novilíngua os termos se invertem: cheio significa vazio, certo significa errado, branco significa preto, tudo significa nada, mentira significa verdade, pobre significa rico. E por aí vai. Novilíngua, como você sabe, é a língua criada pelo Grande Irmão para controlar o mundo distópico de “1984”, o romance de George Orwell que descreve uma sociedade hipotética, opressora, totalitária e brutal.
A ideia foi recentemente incorporada pelos ideólogos da extrema-direita com um descaramento que ultrapassa os limites do próprio Grande Irmão. Na verdade, esse tipo de manipulação do real pelo uso da linguagem antecede o romance de Orwell.
Num livro chamado “L.T.I. — A Linguagem do Terceiro Reich”, o filólogo Victor Klemperer descreve a maneira como o regime nazista-hitlerista se utilizou da linguagem como instrumento de controle da população. O ensaio de Klemperer foi publicado em 1947, dois anos antes de “1984”. (Vale o registro de que o romance distópico “Nós”, do russo Ievguêni Zamiátin, de 1924, influenciou o livro do escritor britânico.)

O parentesco entre a L.T.I., a novilíngua e o que anda praticando Donald Trump nos Estados Unidos (e no mundo) e os bolsonaristas no Brasil não é casual. Com uma frequência que deveria nos deixar com o cabelo em pé, insistem em afirmar que aqui não existe democracia, que as instituições do Estado democrático de direito não são legítimas, que as urnas (sempre que não os favorecem) são fraudulentas — e por aí vai.
Respeitar a Constituição é, para os Bolsonaros, anular a condenação do patriarca à prisão por tentativa de golpe de Estado pelo pleno do STF. O golpismo era para inverter o resultado das urnas, nas quais foram derrotados
Num discurso em Goiânia, no início da semana, ao lado do ex-candidato a presidente Ronaldo Caiado, o agora maioral da extrema direita tupiniquim começou pela celebração de uma lamentável realidade: “O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que ele já é hoje. Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara”.
Na sequência, o ensaio novilinguístico: “Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”.
Respeitar a Constituição é, para os Bolsonaros, antes de mais nada, anular a condenação do patriarca a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado pelo pleno do Supremo Tribunal Federal — a tentativa de golpe de Estado era, naturalmente, para inverter o resultado das urnas, nas quais foram derrotados.

Mas esse seria somente o primeiro item da pretendida reforma, caso vençam o segundo turno: o objetivo número um do assim chamado programa de governo (sic). Aproveitando os recentes deslizes de membros do STF no escândalo Daniel Vorcaro e na sombra deixada pelo ato libertador virão as ferozes investidas contra os direitos dos menos favorecidos.
Será o fim do reajuste do salário-mínimo considerando o INPC + ganho real pelo crescimento do PIB, com consequências automáticas sobre os benefícios vinculados ao mínimo — aposentadorias do INSS de até um salário, pensões por morte, auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença), seguro-desemprego, abono salarial PIS/Pasep, salário família — e, simultaneamente, o fim do reajuste para os inativos.
Antes mesmo do segundo turno o candidato do bolsonarismo já lidera uma apressada cruzada para impedir a votação no Senado da escala 6 x 1 — e se aprovada, como se espera na sessão prevista para a semana que se inicia amanhã, farão dos gatos sapatos para revertê-la.
No lugar dessa redução da jornada de trabalho sem redução do salário, o que propõe Flávio Bolsonaro e os economistas ultraliberais que o assessoram?
Ora, liberdade para os trabalhadores negociarem diretamente com os patrões, caso a caso, a quantidade de horas trabalhadas e a respectiva remuneração. Aos dois dias de descanso por semana propostos pelo fim da 6 x 1, uma jornada negociada individualmente. No lugar da proibição da redução salarial proposta pelo governo, uma remuneração proporcional às horas negociadas pelos trabalhadores com o patrão, cara a cara.
Onde está, então, o pulo do gato para, mesmo com essa maliciosa sugestão, não perderem milhões de votos?
Mais uma vez, no uso dessa nova tecnologia aperfeiçoada pela ultradireita dos Estados Unidos e imediatamente adotada pela filial brasileira: a novilíngua dos mundos distópicos — e do nazismo-hitlerismo na Alemanha dos anos 1930.
Aquilo que seria um importante retrocesso para a vida da imensa maioria dos brasileiros é louvado e vendido pelo candidato a presidente como uma encantadora conquista do mundo do trabalho.

Flávio, Pix e prestação de contas aos EUA
No começo de julho, Flávio Bolsonaro encaminhou ao United States Trade Representative (USTR) uma manifestação de 86 páginas sobre as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, incluindo propostas relacionadas ao Pix. Embora garanta que o Pix continuará sem taxa, alguns analistas afirmam que “isso não significa que o Pix continuará funcionando como hoje”, já que seu plano de governo “prevê uma ampla revisão das normas regulatórias”.
No documento enviado ao governo dos Estados Unidos “ele propôs mudanças na arquitetura internacional do Pix e defendeu aliviar a carga regulatória tributária sobre os meios privados de pagamento”.
O governo Trump (e o sistema de cartões de crédito estadunidense) vira e mexe protesta contra a competição desleal do nosso humilde Pix contra os outros meios de pagamento privados.
Dadas as relações de intimidade entre os membros da família Bolsonaro com o governo Trump, em particular com o secretário de Estado, Marco Rubio, é bem possível que quem faça de gato sapato ao eventual governo Flávio Bolsonaro serão os senhores do Império.
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Fonte: Jornal Opção