Balzac foi pioneiro na arte de tratar a alma feminina de modo realista

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Por Redação — Jornal Opção

Balzac foi pioneiro na arte de tratar a alma feminina de modo realista

Marina Teixeira da Silva Canedo         

Especial para o Jornal Opção

Apesar de Honoré de Balzac (1799-1850) ser considerado um dos grandes escritores franceses e um dos fundadores e representantes do Realismo literário, há quem não o considere bom escritor.         

Sua principal obra é “A Comédia Humana”, composta de dezenas de romances e novelas (em torno de noventa), cujas histórias se entrelaçam, tendo inúmeros personagens em comum, que aparecem em vários dos romances e novelas, o que dá à obra uma certa unidade, fazendo com que a sociedade parisiense seja ali representada de forma mais realista.          

Balzac foi um historiador de costumes, tendo se dedicado a   retratar a vida da elite francesa, dando destaque à superficialidade e futilidade que predominavam nas relações sociais na primeira metade do século XIX.         

O autor notabilizou-se por sua grande produção literária, composta não apenas por romances, mas também por livros de contos e peças de teatro.

Balzac 500 capa de A Mulher de 30 anos
“A Mulher de Trinta Anos”: 1º relato literário importante sobre a mulher malcasada e seu sofrimento e frustrações

Mas, dentre tudo o que escreveu, “A Mulher de Trinta Anos” (“A Comédia Humana”, Biblioteca Azul, 907 páginas) é sua obra mais conhecida. Mesmo quem nunca leu um livro seu conhece o termo “mulher balzaquiana”.

A Mulher de Trinta Anos notabilizou-se como uma das obras mais conhecidas e admiradas do século 19. Balzac mostrou-se grande conhecedor da alma feminina e foi um dos primeiros a retratá-la de maneira realística

Os detratores de Balzac se apegam aos erros cometidos nesse livro (e em outros) para desmerecer sua obra. Nesse romance há alguns erros em sua composição formal, como inexatidão de algumas datas, e do próprio enredo. A história é narrada na terceira pessoa, mas, em dado capítulo, o narrador toma parte no contexto e torna-se participante da cena.

Balzac 500 capa de comédia humana ilusões perdidas

Há, também, o caso de um dos filhos, que morre em um acidente, tudo indicando que ele seria filho de Júlia, a protagonista, com seu amado, e não com seu marido; a dúvida não é solucionada.

A fuga de Helena, a filha mais velha de Júlia D’Aiglemont, com um desconhecido, é também um capítulo mal elaborado, cuja inverossimilhança fica bem evidente. Uma explicação para esses erros parece estar no fato de que o romance foi, inicialmente, publicado por partes em periódicos, com algum espaço de tempo entre os episódios, o que gerou em Balzac algumas falhas de memória, a par da profusão de ideias provocadas por sua copiosa produção literária.           

Porém, com todas essas falhas, “A Mulher de Trinta Anos” notabilizou-se como uma das obras mais conhecidas e admiradas do século XIX. Balzac mostrou-se grande conhecedor da alma feminina e foi um dos primeiros a retratá-la de maneira realística e profunda.

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A personagem principal é Júlia D’Aiglemont, a infeliz protagonista, vítima de um casamento sem amor, o qual teve que manter pelo resto da vida. “A Mulher de Trinta Anos” é o primeiro relato literário importante sobre a mulher malcasada e seu sofrimento e frustrações. Balzac reconheceu que o desejo, o amor e demais manifestações da alma feminina não terminam aos trinta anos, como se acreditava; trinta anos não é o “fim da linha” para as mulheres, que, naquela época, acreditava-se que tinham seu apogeu dos quinze aos vinte anos. Depois dessa idade, as mulheres não deveriam almejar mais nada, a não ser a manutenção do casamento e da família.

Os amores extraconjugais de Júlia D’Aiglemont são apresentados como relacionamentos platônicos, com alta carga de sentimentos, porém não é dado a saber ao leitor se se tornaram em amantes, de fato. Esta questão não é mencionada pelo autor.          

Os Contos Picarescos são a melhor versão da vida real, vista pelas lentes de aumento de um escritor sagaz. Ali estão expostas as mazelas de uma sociedade frívola e assentada sobre as bases de falsas moralidade e religiosidade

Muitos romances foram escritos na sua esteira, incluindo “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert (1821-1880), fortemente influenciado por Honoré de Balzac, a quem Flaubert devotava grande admiração, mas executado com muito mais apuro normativo e argumentativo. “A Mulher de Trinta Anos” pode ser considerado, com muita justiça, o início do conhecimento, na literatura, da alma feminina e “uma etapa da história da emancipação feminina”, conforme palavras de Paulo Rónai (1907-1992). Rónai, grande intelectual húngaro, naturalizado brasileiro, foi o organizador da primeira edição de “A Comédia Humana”, à qual dedicou muitos anos de sua vida, reproduzida pelas demais edições.

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Balzac viveu em um período de transição do Romantismo para o Realismo, e isto ficou evidente em sua obra. Apesar das marcantes características do Realismo em seus escritos, como a intensa crítica social, ele não se furtou em descrever amores à moda romântica, como em “A Mulher Abandonada”, de 1835 (Balzac, A Comédia Humana, 3, ibid.) e “Honorina” (ibid.). A paixão arrebatadora à primeira vista, a visão idealizada dos protagonistas femininos e masculinos e a morte por amor, são as linhas mestras dessas novelas; nelas, a preocupação com a condição feminina e seus aspectos psicológicos é muito marcante e reflete, em muito, “A Mulher de Trinta Anos”.

Balzac utilizou-se   não apenas dos conceitos e atributos próprios do Realismo, que se iniciava; sua obra é heterogênea quanto a escolas literárias, pois ele não rejeitou as idealizações das suas personagens, características tão próprias do movimento romântico.         

O interessante em Balzac é sua efervescência intelectual e seu olhar crítico para o mundo em que vivia. Para satirizar a sociedade francesa e as instituições, ele escreveu seus famosos “Contes Drolatiques”, traduzidos para o português como “Contos Picarescos”. Foram três volumes de dez contos em cada, que, na edição brasileira atual, estão contidos em um único volume (Contos Picarescos, ed. Itatiaia, 2008, 524 págs.)  Nada melhor do que os ler para dar boas risadas e enxergar a correlação com a atualidade.           

Os “Contos Picarescos” são, talvez, a melhor versão da vida real, vista pelas lentes de aumento de um escritor sagaz. Ali estão expostas as mazelas de uma sociedade frívola e assentada sobre as bases de falsas moralidade e religiosidade. O regime totalitário monárquico, a nobreza, o clero e a Igreja Católica, são os principais alvos do escritor, vistos pelo prisma da picardia, do humor e da ácida crítica social; são os padres e bispos que se deixam seduzir pela bebida e boa mesa e pelos prazeres do sexo; são as mais belas prostitutas, disputadas pelos nobres e pelos “probos e santos sacerdotes”, os quais não hesitavam em conceder ou retirar as indulgências canônicas, de acordo com a satisfação ou não de suas vontades; e a nobreza e realeza, que a seu bel prazer condenavam à forca ou à espada aqueles que ousavam discordar de seu gosto pessoal, e cujas execuções eram espetáculos à parte, que atraíam toda a patuleia.         

Balzac, quando escreveu os “Contos Picarescos”, quis inovar. Inspirou-se na obra de Rabelais (1483/4-1553) e de Boccaccio (1313-1375) e compôs os contos, ditos “medievais”, cujo conteúdo reportava aos séculos da Idade Média. O sucesso entre seus leitores foi estrondoso e imediato.         

A comédia humana, que se revela tanto na obra homônima como nos “Contos Picarescos” de Honoré de Balzac, não permaneceu apenas como registro de uma época. Um olhar arguto sobre a sociedade ocidental contemporânea, deixará transparecer, mesmo que com vieses menos marcados e densos, uma permanência residual, e por vezes do essencial, daqueles valores e costumes, que se preservaram de forma dissimulada e controlada pelos novos estatutos da sociedade; mas estes não controlam a imaginação e o desejo.    A comédia da vida real continua a ser encenada e provocada em seus princípios básicos. Ler os clássicos, como a obra de Balzac, nos mostra a sua atualidade.   

Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora da Jornal Opção.

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Fonte: Jornal Opção

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