Javier Milei, inspiração de Flávio: lições da esquerda argentina no combate à extrema direita
Por André Barbieri — Esquerda Diário
Reflexões sobre o que nos ensina a esquerda argentina: enfrentar a extrema direita, é com “Frente Ampla”, ou com a luta de classes independente?
Flávio Bolsonaro enxerga em Milei uma espécie de ídolo econômico. Sua equipe econômica, liderada por Daniella Marques e Adolfo Sachsida, tem defendido o uso de ideias inspiradas nas reformas liberais do presidente argentino: propõe revogar mais de mil normas infralegais, um “tesouraço” no gasto público, um enxugamento do funcionalismo estatal, e a possibilidade de privatizar cerca de 20 estatais (incluindo menções a Correios e Banco do Brasil). Milei, um lambe-botas de Donald Trump, reconhece em Flávio seu igual: fez campanha presencial para o bolsonarista, e clamou para si o triunfo da extrema direita no primeiro turno das presidenciais brasileiras.
Desde que assumiu a presidência em dezembro de 2023, Javier Milei aplicou um ajuste ultraliberal que faria inveja a Milton Friedman e aos pobres mestres da Escolas de Chicago: desvalorizou a moeda, aumentou tarifas, demitiu servidores públicos, congelou programas sociais, paralisou obras públicas e desfinanciou a saúde e a educação, provocando um salto inflacionário. Salários e aposentadorias tiveram queda drástica: os salários formais acumularam uma queda real de 8,2% até junho de 2026, e o salário do funcionalismo público perdeu 16,5% — o salário mínimo caiu 40% em termos reais. As aposentadorias mínimas perderam 28,9% do poder de compra entre dezembro de 2023 e agosto de 2026. O resultado: a Argentina atingiu uma taxa de pobreza de 32%, e a taxa de indigência em Buenos Aires atingiu 9%.
A pobreza e a miséria são produtos automáticos do neoliberalismo. Lula acusa Flávio de querer levar adiante no Brasil um programa de cortes econômicos semelhante a este que Milei adiantou na Argentina. Não há dúvida que assim ele o quer, e por isso a grande imprensa já começa a pressioná-lo a cumprir o “choque econômico” prometido caso seja eleito. Deve ser combatido duramente.
Mas o governo Lula-Alckmin, e sua composição política da Frente Ampla, se notabilizou por deixar de pé os principais ataques econômicos herdados desde o golpe institucional de 2016.
Se chegar a vencer as eleições, Flávio Bolsonaro receberá, pronta e vigente, a reforma trabalhista aprovada em 2017 no governo golpista de Michel Temer. Receberá também, já institucionalizada e em pleno funcionamento, a reforma da previdência, aprovada em 2019 durante a presidência de seu pai. Em 2018, a Suprema Corte, envolvida no escândalo do Banco Master, julgou lícita a chamada “terceirização irrestrita”, ou seja, o direito dos empresários de terceirizar qualquer atividade (meio ou fim). A medida foi apoiada por figuras como Alexandre de Moraes, através da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 324. A terceirização irrestrita segue de pé e passou imune pelos quatro anos de governo Lula-Alckmin. O Arcabouço Fiscal lulista, atualização do Teto de Gastos de Temer, cortou verbas da saúde e da educação: em junho, o governo bloqueou 23,6 bilhões de gastos orçamentários; destes, foram cortados R$1,6 bilhão do orçamento da Educação e R$1 bilhão do orçamento da Saúde (R$490 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, R$225 milhões do Ministério da Cultura e R$74,7 milhões do Ministério dos Povos Indígenas). O endividamento e os baixos salários são endêmicos: 82% dos consumidores disseram ter algum tipo de dívida a vencer, o maior nível desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.
As alianças com a direita impuseram que todo esse legado ficasse intacto. Digamos às claras: não é dessa forma que se pode frear o ajuste proposto pelo bolsonarismo. Pelo contrário, foi assim que o governo Lula-Alckmin preservou as forças da extrema direita, que ora se exibem no panorama eleitoral.
E esse foi o resultado político inevitável da Frente Ampla, conclusão que discuti à luz da tese do professor de Ciências Políticas da USP, André Singer. Anotei ali a incongruência existente na ideia de que “frentes democráticas” (blocos de unificação com toda a direita não-bolsonarista) são o caminho inevitável para barrar a extrema direita. O equívoco categórico desta noção está às vistas de todos: quatro anos de Frente Ampla deixaram Flávio Bolsonaro com um caudal político ainda maior que o de Jair. Mais que isso: partidos que possuem postos no gabinete ministerial do governo Lula, como o PP, o Republicanos e o União Brasil, já dedicaram seu apoio a Flávio Bolsonaro. O PSD de Kassab apenas “torce para que não haja caos institucional com Flávio”. Não parece lá sequer uma frente democrática.
A Breno Altman, Singer confessa que existe um espaço cada vez mais estreito para o reformismo fraco lulista. Mas a avaliação é, ela mesma, demasiado gradualista. Com mais razão dizemos que o reformismo mais-que-fraco de Lula significou a manutenção da agenda econômica do golpe institucional entre 2023 e 2027. Por qualquer ângulo que se observe, este é um dos principais fatores que nos trouxeram até aqui. A disputa programática vive tempos ingratos. É incrível, para não usar outra expressão, que a única proposta que Lula tenha feito nestes últimos dias, a fim de melhorar nas pesquisas, seja a de promover Alckmin a provável Ministro da Fazenda em um novo governo. Não entusiasmou nem a Faria Lima.
Por isso, não há “dois programas incompatíveis” na Frente Ampla, do do investimento social e o do ajuste econômico. Há um só programa: o da preservação de ajustes neoliberais, sazonado com medidas de contenção limitadas. Não importa a versificação do soneto ou o número de suas estrofes: quando há colaboração de classes, o programa da classe economicamente dominante prevalece em todos os âmbitos.
Com o que ficamos? Com a velha moderação lulista, que tem valores concretos: estancamento salarial, endividamento das famílias, aumento da desigualdade social, precarização da vida.
Esta conciliação bebe dos primórdios da Velha República, e do papel de Lula nela. Às vésperas de sua prisão arbitrária em 2018 pela Lava Jato, Lula relembrou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo alguns lances do ascenso operário de 1978-1980. Disse que era considerado “pelego” pelos trabalhadores em greve contra a ditadura. Como se quisesse refrescar a memória da burguesia que o encarcerava, relatou com detalhes como queria quebrar a vontade de combate dos trabalhadores na Vila Euclides, que chegaram a fazer um ato com 50 mil em 1980, chamando “assembleias pela manhã porque à tarde havia perigo de que se radicalizassem”. Em meio ao ascenso que colocava os trabalhadores como protagonistas da luta por derrubar a ditadura militar, Lula e os “autênticos” bloquearam a dinâmica de um processo revolucionário no Brasil (na autobiografia de FHC, nunca desmentida por Lula, o tucano relata como o petista disse que “era necessário colocar fim a estas greves”, uma variação do dito por Maurice Thorez, burocrata do Partido Comunista Francês em 1936: “é necessário saber como acabar uma greve”).
O caso argentino, entretanto, mostra uma outra forma de combater o ultraliberalismo de Milei. Não vem através de frentes democráticas com o peronismo ou com qualquer variante da burguesia argentina. Vem através dos métodos históricos da luta de classes, do enfrentamento nas ruas contra Milei.
A 20 de dezembro de 2023, apenas dez dias depois de eleito Milei, a esquerda argentina esteve nas ruas, junto a setores sociais e organizações de direitos humanos, para garantir o direito de manifestação e protestar contra o megadecreto neoliberal (DNU 70/2023) do governo. Durante as sessões parlamentares de janeiro-fevereiro de 2024, que discutiam a versão original da Lei Bases (Lei Ómnibus), a esquerda organizou protestos diários em frente ao Congresso Nacional. Protestos que passaram a acontecer todas as quartas-feiras em Buenos Aires, protagonizados pelos aposentados, com a presença das principais referências da esquerda argentina, além de Myriam, Nicolás del Caño, Alejandro Vilca e Christian Castillo, também do PTS. Foram inúmeros enfrentamentos contra o “protocolo antipiquetes” de Patricia Bullrich, ministra do Interior, que buscou sistematicamente cercear o direito à manifestação. Sempre evidenciando a paralisia das grandes centrais sindicais ligadas ao peronismo, e denunciando a colaboração de setores do próprio peronismo na aprovação dos ajustes de Milei, a esquerda esteve nas ruas enfrentando a política repressiva do governo, nas grandes marchas estudantis de 2024, na votação da Lei de Bases em junho de 2024, semanalmente em defesa dos aposentados, em defesa do Hospital Garrahan, em favor das greves dos trabalhadores de Lustramax, e agora mesmo da greve dos trabalhadores da maior fábrica de pneus da Argentina, Fate, contra o fechamento e as demissões. A Marcha da Indignação, no último mês de setembro, foi convocada pela esquerda junto a mais de 350 organizações sociais, e levou dezenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país, contra Milei e em defesa de uma greve geral para derrotar seu programa econômico.
O método da luta de classes fez com que, em uma situação difícil, todas as forças sociais que desejam derrotar Milei pudessem reconhecer sua potência nas ruas. Politicamente, Myriam Bregman converteu-se na figura política com maior avaliação positiva na Argentina – acima do próprio Milei, e de Cristina Kirchner, nestes últimos cinco meses. Esta estima política da esquerda (neste caso, do trotskismo) em setores ampliados de massas na Argentina é um fenômeno totalmente novo. É um índice de que, mesmo em um governo de extrema direita, um programa anticapitalista e revolucionário, ancorado na luta de classes e baseado no impulso da autoorganização de trabalhadores e jovens, pode alcançar peso de massas. A aparição desta força política sem qualquer moderação ajudou a aprofundar a crise histórica do peronismo.
Agora, a esquerda deu-se o desafio de transformar esta simpatia política em organização: foram criados quase 200 comitês nacionalmente, em 21 províncias, que impulsionados pelo fenômeno de Myriam Bregman batalham pela construção de um partido da nova classe trabalhadora argentina, socialista e revolucionário, que possa concentrar todas as forças dos trabalhadores, das mulheres, da juventude, em que os participantes debatem os grandes temas nacionais e internacionais, definem sua agenda de ação e organizam a mobilização (como a Marcha da Indignação). Uma grande tarefa dos comitês é batalhar contra a fragmentação, por frentes únicas de combate e pelo impulso de coordenadoras autoorganizadas em todo o país que articulem permanentemente os setores em luta, por cima da burocracia peronista.
Myriam Bregman veio ao Brasil lançar seu livro, justamente intitulado “Moderada Nunca”, com mais de 1000 pessoas no Sindicato dos Metroviários de São Paulo, e dentre as várias entrevistas à grande imprensa, deixou uma mensagem importante n’O Globo: “Como fenômeno latinoamericano, o que observamos é que os governos que se apresentam como reformistas, de centro-esquerda ou progressistas administram o capitalismo tal como ele existe. Eles não alteram as bases estruturais que permitiram o avanço da direita. Acabam gerando frustração, desencanto e um nível de insatisfação que a direita aproveita para retornar de maneira mais agressiva e radical. […] Quando decidi escrever este livro, o contexto era o de um sistema político muito mutável, no qual as direitas se radicalizaram. Surge, então, uma nova distinção política, e isso também abre um debate dentro da esquerda: que tipo de militância é necessária ou precisa ser atualizada para enfrentar esses fenômenos? Daí surgiu essa frase presente em um discurso na Patagônia argentina: ‘Moderada nunca’, porque o que vemos é que a moderação não serviu para enfrentar a extrema direita”.
É uma grande lição para pensarmos o futuro. Na Argentina, é onde a esquerda mais cresce em toda a América Latina. E cresce com o método da autoorganização e da luta de classes, para preparar uma organização independente que tenha como objetivo estratégico a revolução socialista. Trata-se da inversão pelo vértice daquilo que mais uma vez fazem Lula e o PT. Na comparação, é na Argentina que a extrema direita se debilita, e isso é de responsabilidade direta da contundência com que a esquerda propõe a luta como saída real.
Fonte: Esquerda Diário