O Brasil diante do abismo: o que o primeiro turno revelou sobre nós

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Por Luis Pellegrini — Brasil 247

O primeiro turno terminou, mas sua verdadeira mensagem apenas começa a ser compreendida. As urnas não escolheram somente dois candidatos: expuseram um país dividido, desconfiado e emocionalmente exausto, diante de uma escolha que ultrapassa os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro.

Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma eleição. As urnas transformam-se em espelho e obrigam uma sociedade a olhar para si mesma. Foi o que aconteceu no primeiro turno de 2026.

O Brasil saiu das urnas mais uma vez partido ao meio. De um lado, Lula e o campo democrático-progressista. De outro, Flávio Bolsonaro, herdeiro político de Jair Bolsonaro e representante de um tipo de direita que muitos acreditavam estar em declínio.

A primeira constatação é incontornável: o bolsonarismo não morreu com Bolsonaro encarcerado. Ele criou raízes. Tornou-se identidade política, comunidade de valores, repertório de ressentimentos e, sobretudo, uma poderosa máquina eleitoral. Transferir votos para um herdeiro é uma coisa. Transferir uma visão de mundo é outra – e foi isso que aconteceu.

Ignorar esse fenômeno, tratando seus eleitores como massa manipulada ou politicamente ignorante, seria um erro. Milhões de brasileiros acreditam ter razões econômicas, culturais, religiosas e sociais para rejeitar a esquerda. Não compreendê-las é a maneira mais rápida de perder novamente.

Mas o outro lado também precisa olhar para o espelho. Lula continua extraordinariamente forte, mas já não basta a si mesmo. Sua trajetória, suas políticas sociais e sua defesa da democracia garantem uma enorme base eleitoral. Porém, o primeiro turno mostrou que essa base não é suficiente para encerrar a disputa.

O segundo turno começa justamente onde terminam as certezas dos dois lados, e surge um personagem que não pode ser ignorado: o eleitor cansado, exausto de política – aquele eleitor que simplesmente desistiu. Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno. Segundo pesquisas, só 22% deles consideram voltar agora.

A abstenção possui múltiplas causas, e seria irresponsável reduzi-la a uma única explicação. Mas seu tamanho revela algo que deveria preocupar profundamente a democracia: uma parcela gigantesca da população está se afastando do ritual político.

Depois de anos de polarização, escândalos, guerras culturais, agressões virtuais e crises sucessivas – sem falar na reiterada carência, por parte de praticamente todos os candidatos, de projetos de governo inteligentes e factíveis -, cresce a sensação de que a política deixou de ser instrumento de transformação e virou apenas uma guerra permanente entre torcidas.

Esse talvez seja o fenômeno mais perigoso de todos. Uma democracia não começa a morrer apenas quando os cidadãos votam errado. Ela começa a morrer quando eles deixam de acreditar que votar faz diferença.

O primeiro turno também produziu outra vítima: o centro. Ele praticamente desapareceu. A política brasileira parece ter sido comprimida entre dois polos igualmente autofágicos. Quanto mais um lado demoniza o outro, mais cada campo se fecha sobre si mesmo.

O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente. Passa a ser uma ameaça, um inimigo que precisa ser destruído. E quando isso acontece, o voto deixa de expressar esperança e passa a expressar medo. Vota-se menos pelo que se deseja construir e mais pelo que se pretende impedir. É uma democracia empobrecida pela lógica do inimigo.

Por isso, a pergunta decisiva não é apenas quem vencerá no dia 25 de outubro. É outra: que país sairá das urnas no dia 26?

Porque nenhuma vitória apagará a metade derrotada. Nenhum presidente governará apenas para seus eleitores. E nenhum resultado resolverá automaticamente as fraturas que atravessam o país.

Se Lula vencer, o bolsonarismo continuará existindo. Se Flávio Bolsonaro vencer, o campo progressista continuará existindo. A eleição não eliminará o conflito. Apenas determinará quem terá a responsabilidade de administrá-lo. E aqui está o verdadeiro teste democrático: será possível vencer sem transformar o adversário em inimigo?

O maior perigo talvez não esteja na vitória de um lado ou de outro. Está na incapacidade de reconhecer que o outro existe. Ela representa o maior risco de que a democracia resvale para o abismo.

Quando cada grupo passa a considerar-se o único representante legítimo da nação, a democracia começa a apodrecer por dentro. Quando metade do país passa a enxergar a outra metade como uma ameaça existencial, a política deixa de ser disputa e começa a adquirir a lógica da guerra.

O Brasil está diante desse abismo.

Mas há algo mais profundo no espelho das urnas.

Ali aparecem não apenas Lula e Flávio Bolsonaro. Aparecem nossos medos, ressentimentos, esperanças, desigualdades, preconceitos, desejos de mudança e também uma enorme fadiga diante de uma política que parece incapaz de produzir reconciliação.

Esse é o Brasil que chega ao segundo turno. Um país que ainda não decidiu apenas quem quer como presidente. Ainda não decidiu que país quer ser.

No dia 25, escolheremos um candidato. Mas, por trás dessa escolha, estaremos decidindo algo muito maior: se continuaremos transformando nossas diferenças em trincheiras – ou se finalmente seremos capazes de transformá-las em democracia.

Porque o verdadeiro vencedor não será aquele que derrotar o outro. Será aquele que conseguir impedir que o Brasil continue derrotando a si mesmo.

Fonte: Brasil 247

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