Trump chama Nobel da Paz de ‘corrupto’ após prêmio a Navi Pillay e sanciona o Tribunal Penal Internacional
Por Redação — Brasil de Fato
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou publicamente o Comitê Norueguês do Nobel após o anúncio da concessão do Prêmio Nobel da Paz de 2026 à jurista sul-africana Navi Pillay, realizado nesta sexta-feira (9).
Durante comício realizado na cidade de Syracuse, no estado de Nova York, o líder republicano chamou a premiação de “corrupta”, afirmou que o comitê é composto por “ideólogos radicais” e acusou a Noruega de prejudicar os interesses do governo estadunidense.
Poucas horas após o anúncio da premiação em Oslo, a Casa Branca determinou a imposição de um novo pacote de sanções econômicas contra o Tribunal Penal Internacional (TPI), corte sediada em Haia, nos Países Baixos, da qual Pillay atuou como juíza entre 2003 e 2008.
As medidas punitivas anunciadas pelo Departamento do Tesouro proíbem transações financeiras e a prestação de serviços de empresas dos Estados Unidos ao tribunal, atingindo bancos, seguradoras e empresas de tecnologia.
Durante o pronunciamento para apoiadores, Trump alegou que não conhecia a jurista premiada antes da cerimônia, descrevendo-a em seguida como uma “pessoa liberal que trabalha nas Nações Unidas”, embora tenha feito um cumprimento protocolar. Em seguida, voltou a defender sua própria candidatura ao prêmio, sustentando que deveria ter sido laureado por sua atuação internacional.
“Os Estados Unidos da América, representados por mim como seu presidente, deveriam ter recebido o prêmio Nobel da Paz, mas não o receberam”, disse Trump. O líder estadunidense ainda acusou o país europeu responsável pela escolha dos laureados de ignorar suas ações diplomáticas.
“Não vamos esquecer, Noruega, que vocês não deram esse prêmio a quem tem o maior histórico da história, com oito guerras. O fato de vocês não terem dado o Prêmio Nobel da Paz aos Estados Unidos é apenas mais um sinal de como a Noruega e todos esses outros estão passando a perna no nosso país”, disse Trump.
O comitê responsável pela escolha do Nobel da Paz é composto por cinco integrantes designados pelo Parlamento da Noruega, mas possui caráter independente e atua sem vínculo com as diretrizes do governo norueguês.
Retaliação por investigações em Gaza
A retaliação diplomática contra o TPI foi oficializada por meio de declaração assinada pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. O chefe da diplomacia de Washington classificou a instituição judicial como um “tribunal desonesto” e afirmou que a medida visa impedir qualquer procedimento que atinja autoridades ou cidadãos estadunidenses e de nações parceiras.
“O presidente Trump jamais permitirá que o Tribunal Penal Internacional processe cidadãos estadunidenses. É por isso que, hoje, os Estados Unidos estão sancionando o Tribunal Penal Internacional. Proibiremos transações com esse tribunal desonesto, cortando seus recursos e prejudicando sua capacidade de operar”, declarou Rubio em comunicado.
Em pronunciamento em vídeo, o secretário subiu o tom contra o órgão multilateral: “Ou o TPI acabará com suas ameaças, ou nós acabaremos com o TPI”.
A ofensiva ocorre no contexto da reação do governo Trump às medidas cautelares adotadas pelo tribunal contra o governo de Israel, principal aliado militar dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Em novembro de 2024, o TPI expediu mandados de prisão internacional contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos na Faixa de Gaza.
A vencedora do Nobel, Navi Pillay, possui histórico direto de investigações sobre os ataques militares no enclave palestino. A sul-africana presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre os Territórios Palestinos Ocupados, que concluiu formalmente em 2025 que o Estado de Israel perpetrou genocídio contra a população palestina em Gaza e que integrantes da cúpula governamental incitaram as ações.
Reação internacional
A administração do TPI condenou a imposição de bloqueios por Washington. Em manifestação pública, a vice-procuradora da corte, Nazhat Shameem Khan, afirmou que as sanções unilaterais buscam intimidar a jurisdição multilateral, mas não interromperão os processos e inquéritos em curso.
“Trata-se de uma tentativa de obstruir o curso da justiça e impedir que o Tribunal faça aquilo para o qual foi criado. É um ataque ao Estado de Direito e aos próprios fundamentos da ordem jurídica internacional”, informou a instituição em nota oficial.
Representantes diplomáticos de nações aliadas aos Estados Unidos repudiaram a decisão da Casa Branca. Ministros das Relações Exteriores de Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão, Dinamarca e Países Baixos divulgaram declaração conjunta reafirmando compromisso integral com o funcionamento independente do tribunal.
A Comissão Europeia também lamentou as sanções e pontuou que buscará alternativas para garantir a continuidade das atividades do órgão.
Ao discursar no Palácio de Justiça de Nuremberg, na Alemanha, onde participava de um congresso jurídico no momento do anúncio, Navi Pillay ironizou as declarações do líder estadunidense. “Se vocês aplaudirem mais um pouco, talvez eu divida esse prêmio com Donald Trump”, disse a jurista sul-africana, em alusão à líder opositora venezuelana María Corina Machado, que entregou sua medalha do Nobel de 2025 a Trump na Casa Branca.
Em tom enfático, Pillay concluiu pontuando que líderes mundiais possuem a obrigação legal de submeter-se ao direito internacional e condenou ataques desferidos contra as cortes por governos que agem como “Estados párias”.
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Fonte: Brasil de Fato