Quem tem medo de mulheres com direitos? Por Jessica Santos

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Por CombateRacismoAmbiental — Combate Racismo Ambiental

Newsletter da Ponte

“Era boa oradora, sabia fazê-los. Seus discursos eram sobre a santidade do lar, sobre como as mulheres deveriam ficar em casa. Ela mesmo não ficava, em vez disso, Serena Joy fazia discursos, mas apresentava essa fala como um sacrifício que estava fazendo pelo bem de todos.”
[…]
“Como deve estar furiosa, agora que suas palavras foram levadas a sério”
(O conto da aia, Margaret Atwood, 1985, Ed. Rocco, edição de 2017, p. 58)

Para o antifeminismo, assim como para a odiosa tia Lydia de “O conto da aia”, o excesso de escolhas que nós, mulheres, temos é o que tem “matado nossa sociedade”. É com esse discurso que mulheres que acusam o feminismo de causar os males da humanidade foram eleitas com mais de 6,5 milhões de votos para as casas legislativas no Brasil no último domingo. 

São mulheres que foram escolhidas para espaços, que segundo elas,  não deveriam existir para nós. Assim como Serena Joy, estão ao lado da machosfera — e não se importam de ser alvo de misoginia — no afã de que direitos sejam retirados. Essa retirada pode começar pelo fim do voto feminino, conquista de 1932, como algumas delas sugerem. Aos poucos, direitos como o divórcio e a autonomia financeira e social passam a fazer parte do pacote. Atwood desenhou em sua distopia um país onde as mulheres não eram cidadãs autônomas. A elas estava proibida a leitura — seu testemunho sem juízo  só valia junto a outra mulher. Contas e propriedades não ficavam em seus nomes. 

Neste futuro, as antifeministas que hoje se utilizam de sua imagem e espaço social seriam afastadas de sua autoridade e liderança política por seus próprios aliados. Assim como acontece com Serena Joy, sobretudo na série que adaptou o livro. Ela achou que faria parte das decisões da nova ordem, mas as portas se fecharam.

Ao culpar o feminismo por violências que atingem mulheres há séculos, aponta-se para um passado imaginário de paz e harmonia, em que não havia redes sociais para denunciar as injustiças contra seus corpos. Um passado em que mulheres não podiam ter conta bancária ou viajar sem autorização do cônjuge. Será que imaginam precisar da autorização de um homem para fazer um Pix? Um passado no qual mulheres divorciadas e mães solteiras eram tratadas como párias. Como ficariam as 11 milhões de mulheres que foram abandonadas junto com seus filhos por homens? Um passado em que a mulher era tratada como propriedade, passando da tutela do pai à do marido e, na ausência deste, à de outro homem da família.

Mas há outra pergunta que essa nostalgia exige: de que mulheres e de que passado estamos falando? Porque a posição destinada às mulheres nunca foi igual para todas. Enquanto algumas estavam confinadas ao espaço doméstico, outras eram aquelas que trabalhavam dentro dele. Enquanto algumas reivindicavam o direito de sair de casa, mulheres negras sustentavam casas que não eram as suas, cuidavam dos filhos de outras famílias e permaneciam submetidas também às estruturas do racismo. O passado romantizado pelo antifeminismo tem cor, classe e uma divisão muito específica de quem deveria mandar e quem deveria servir.

Talvez por isso incomode tanto encontrar na oposição justamente os corpos que, nesse imaginário de sinhá, deveriam permanecer submissos. As mulheres negras hoje representam mais de um quarto do eleitorado brasileiro e têm sido, há séculos, parte fundamental da defesa e da ampliação de direitos. O projeto de retorno ao passado não reserva a elas apenas menos autonomia: reserva subalternidade. Quer mulheres negras servindo, com menos acesso à educação, menos poder político, menos possibilidade de escolha e, se possível, novamente reduzidas ao prato de restos e ao quartinho de despejo.

Mas não voltaremos para as cozinhas, nem para as senzalas. 

A reeleição ou eleição de candidatas comprometidas com o avanço da luta por direitos para todas demonstra que a trincheira da resistência política levantada por nomes como o de dona Benedita da Silva não foi desmobilizada. Nomes como Ana Elisa (PT/MG), Keit Lima (PSOL), Érika Hilton (PSOL/SP), Talíria Perone (PSOL/RJ) e a Bancada Feminista composta pelas codeputadas Paula Nunes, Simone Nascimento, Sirlene Maciel, Camila Lisboa e Raquel Gualberto do PSOL já demonstraram de forma clara e inequívoca que não haverá retorno para um mundo sem direitos e muito menos sem nós, mulheres negras, nos espaços de poder.

O avanço da extrema-direita e do antifeminismo não significa, porém, que o terreno esteja livre para a retirada de direitos. A resistência já está organizada, ocupa as ruas, os movimentos sociais, os parlamentos, as universidades, os terreiros, as periferias e todos os lugares onde mulheres negras aprenderam, há séculos, que sobreviver também pode ser um ato político. 

Como disse Angela Davis em sua passagem pelo Brasil: “Quando as mulheres negras se movimentam, toda a estrutura da sociedade se movimenta com elas”. E é justamente por isso que essa resistência não diz respeito apenas às mulheres negras. Quando avançam direitos para quem historicamente esteve na base das desigualdades, toda a sociedade se torna mais livre.

Os próximos anos exigirão atenção, organização e disposição para defender conquistas que um dia também pareceram impossíveis. Não será a primeira vez que mulheres precisarão enfrentar quem sonha com um passado em que tinham menos direitos — e certamente não será a primeira vez que mulheres negras estarão na linha de frente dessa resistência. 

O futuro não pode pertencer a quem oferece medo, submissão e perda de direitos como projeto de país. Há milhões de pessoas dispostas a disputar outro caminho. E, nos dias em que essa disputa parecer grande demais, talvez valha recuperar a pequena insubordinação escondida nas páginas de O conto da aia: nolite te bastardes carborundorum, ou, não deixem os bastardos esmagarem vocês. Que eles também não ditem o futuro do país.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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