Papo de balcão: você é dono de bar e vai votar no Flávio Bolsonaro?

0

Por Bares pela Democracia — Brasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

O bar como ponto de vista da rua e o debate sobre a cidade: quem ocupa, quem governa e quem é ouvido.

No audio source provided.

Quem tem um bar pequeno conhece uma rotina que quase ninguém de fora entende. É o peso de girar a chave do cadeado na madrugada fria, o estresse com o preço da mercadoria que sobe no fornecedor, o malabarismo para cumprir a folha de pagamento e o cansaço físico de passar horas de pé. Para o pequeno comerciante, o bar não é um investimento abstrato na Bolsa de Valores: é o sustento da família, garantido com o suor do próprio rosto.

No entanto, no meio da correria do dia a dia, rola uma conversa fiada na política que tenta vender uma ilusão perigosa: a de que, só porque você abriu um CNPJ, agora você faz parte de um seleto grupo de empresários e, por isso, deveria votar em candidatos que defendem a pauta da extrema-direita, como o Flávio Bolsonaro.

Não é porque você tem obrigações diferentes das de um trabalhador que você deixa de ter uma rotina exaustiva e de ser vulnerável economicamente. Vamos colocar a realidade no papel e fazer as contas que importam? Se você precisa carregar engradado, limpar o balcão, brigar pelo preço do gelo e, principalmente, se você não puder tirar um mês de férias sem que o seu negócio corra o risco de quebrar, você não é o “grande empresário” que essa ala da política protege. Você é um trabalhador por conta própria. E votar achando que tem os mesmos interesses econômicos de um bilionário ou de um grande herdeiro político é o primeiro passo para errar o diagnóstico do seu próprio caixa.

Vamos começar pelo primeiro mito sedutor: menos burocracia. Para o microempresário que sofre com ela, isso soa como música. Mas conta aqui, você abriu um bar ou restaurante em São Paulo, cidade governada há décadas pela direita; foi tranquilo ou é burocracia intensa por todos os lados? Alvará, CNAE, contrato social, PSIU, vigilância sanitária, alvará dos bombeiros e mais um tanto de coisas. Isso tudo é a prefeitura que determina.

Agora, o “estado menor”, que significa menos presença, privatização e maior autonomia às prestadoras de serviço, como Enel e Sabesp. O que te atrapalha mais na operação, a falta de luz, de água ou de transporte público para os funcionários irem embora? Essa é a promessa de diminuir o Estado em pleno funcionamento, um agradecimento ao Tarcísio e sua turma.

Chegamos ao rei dos argumentos: o livre mercado. Querem te convencer de que, se tivermos menos regulação às empresas, o dinheiro vai fluir melhor. Só esquecem de dizer que não é para qualquer empresa, é só para as grandes.

São as gigantes da indústria de bebidas, como Ambev e Heineken, que controlam as tabelas de preços, impõem contratos de exclusividade abusivos e tiram toda a margem de lucro do pequeno comerciante, enquanto recebem isenções fiscais bilionárias que você, no Simples Nacional, nunca vai ver. Quem defende o pequeno contra a concorrência desleal das grandes corporações são políticas que entendem o papel do Estado como protetor do microempresário. Que o diga o mercadinho da sua esquina, que virou OXXO.

Entendemos que, para o dono de bar, no geral, a política não é uma discussão teórica ou ideológica de Brasília. Mas ela te afeta, pois ela acontece na mesa, no poder de compra de quem entra pela porta e no direito de usar a calçada. Quando a gente analisa a economia real, as pautas que a esquerda defende ajudam muito mais a fechar as contas do mês do que o discurso do “livre mercado”.

Porque, afinal, quem é que consome no seu bar? O investidor multimilionário ou o trabalhador comum que para depois do expediente para tomar uma gelada e comer um espetinho? O faturamento do pequeno bar depende estritamente do dinheiro que circula na base da sociedade, no bairro e na comunidade.

A cartilha econômica tradicional da direita foca sempre no congelamento do salário mínimo, no corte de investimentos públicos e na retirada de direitos trabalhistas sob o pretexto de “atrair investimentos” (o que está no plano de governo de Flávio Bolsonaro).

Na prática, o resultado é o povo com menos dinheiro no bolso. E, quando a grana aperta para as famílias comuns, a primeira coisa que se corta do orçamento é o lazer. O happy hour desaparece, o cliente passa a comprar o latão no mercado para beber em casa e o seu salão esvazia.

Por outro lado, quando o foco político é a valorização real do salário mínimo e a proteção de quem trabalha, esse dinheiro não vai para uma conta em paraíso fiscal, ele cai direto na economia local. O trabalhador que recebe um salário decente consome, comemora o fim de semana, comemora o aniversário e gasta no comércio do bairro. Para quem tem bar, o povo com dinheiro no bolso é o melhor plano de negócios que existe.

Bar é sinônimo de rua, de encontro e de vida comunitária. O botequim é o espaço da cultura popular, da música independente, do afeto e da boemia. Ideologias que apostam no esvaziamento das ruas, na privatização dos espaços públicos e em fiscalizações puramente punitivas e higienistas matam a alma do comércio de rua.

São Paulo é um ótimo exemplo disso. Como dito, é governada há décadas pela direita, sempre eleita com essas promessas que explicamos aqui, e tudo só piora, seja o trânsito, ônibus, saúde, educação e, inclusive, o seu lazer. Já viu quanto está a água de coco em um parque privatizado?

Votar pensando na realidade do seu caixa é entender que o seu bar só vai para a frente se a sociedade em volta também for. O micro e pequeno empresário está muito mais próximo do garçom que ele contrata do que do banqueiro que lhe nega o empréstimo. Defender a democracia, a valorização do trabalho e o direito à rua viva não é uma escolha ideológica, é uma escolha pela sobrevivência e pela prosperidade do seu próprio balcão.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *