Da Terra do Meio a Manaus, fogo e fumaça se alastram na Amazônia
Por Viviane Zandonadi — SUMAÚMA
Levantamento de SUMAÚMA encontrou 75 nomes que disputam uma vaga nas eleições de 2026 com infrações na Amazônia; entre eles estão aliados de Flávio Bolsonaro, que fizeram do ataque à fiscalização ambiental bandeira eleitoral
Nesta terceira reportagem da série, SUMAÚMA mostra a guerra entre sindicato e governo nos tribunais. Apesar de não faltar nem agentes nem investimento, muitas aldeias ficam sem assistência e crianças sem vacinas por alegação de suposta insegurança
Nos próximos meses, o risco de incêndios e secas vai aumentar a passos largos, agravado pela crise climática e pelo desmatamento. Estão sob ameaça comunidades tradicionais e produtores rurais, mas o governo também precisa levar em conta pequenos povoados remotos
Focos de incêndio fazem arder escola, casas, roças e a Floresta na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, no Pará. Foto: Antonio Matos
Pelo menos três comunidades da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, já foram atingidas pelos incêndios. Em Manaus, onde a qualidade do ar é a pior do Brasil, aulas foram canceladas
Franciely e Herculano viram sua escola de ensino médio virar cinzas na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, no Pará. Há três dias o fogo se alastra sem controle por casas, roças e pela Floresta. E continua a queimar.
Enquanto o Estado brasileiro não chega, quem tenta conter as labaredas e a fumaça para salvar sua terra são as próprias famílias da unidade de conservação. Um financiamento coletivo arrecada fundos para a reconstrução das casas incendiadas e apoio emergencial às famílias.
Dos seis focos de incêndio que sufocam o Riozinho do Anfrísio, os principais atingem as comunidades Morro Verde, Novo Paraíso e Boa Saúde II. Na comunidade Boa Saúde II, cinco casas foram destruídas, entre elas a escola. Duas casas queimaram na Morro Verde e uma na comunidade Novo Paraíso. Ao longo do beiradão, há muitos mais focos com fogo.
Antonio Matos mora na Boa Saúde II. Ele é tio de Franciely e Herculano, os estudantes que não têm mais onde estudar, e preside a Associação de Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Em nome das tantas vidas humanas e mais-que-humanas que representa, Antonio pede socorro.
“Aqui na comunidade Boa Saúde queimou 4 mil pés de cacau, roça de mandioca, está queimando tudo por onde o fogo passa. A Floresta está toda invadida de fogo, por todo canto. Ninguém está aguentando mais com tanta fumaça. Estamos com três dias pedindo socorro, e ninguém chega pra nos socorrer”, clama Antonio.
O colapso climático fez o Riozinho do Anfrísio baixar muito. Tem lugar onde antes havia água que agora dá para atravessar a pé. Chuva não se vê há mais de três meses. Com a Floresta seca, o fogo avança. Desde jovem Edileno Camilo testemunha as tantas batalhas travadas na reserva extrativista, da criação em 2004 até a luta por políticas públicas. Mas uma tragédia como a de agora ele nunca tinha sentido.
“Isso é a vida do morador. A casa que ele passa anos pra construir, com tudo o que tem dentro, mais a sua área de trabalho, de extrativismo. Castanhais, áreas de caça, de coleta de sementes. Nunca tinha visto uma tragédia desse tamanho. É uma tristeza muito grande”, conta Edileno.
A Terra do Meio guarda uma antiga memória ancestral que vive em cacos de cerâmica e sítios arqueológicos. Nas lembranças das famílias e na Floresta, ainda restam marcas de um tempo mais recente, o tempo da borracha. A história que agora vem sendo escrita é a de um mosaico de áreas protegidas que tentam manter quem vive do que a Natureza dá e impedir a degradação – a Resex Riozinho do Anfrísio teve um pico de desmatamento entre 2019 e 2022, durante o governo do extremista de direita Jair Bolsonaro, e o cerco de pressão no entorno faz da Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu a mais desmatada da Amazônia. O fogo faz arder esse longo caminho.
Segundo a assessoria técnica das associações das Resex da Terra do Meio, o Corpo de Bombeiros de Altamira não tem aeronave disponível para chegar ao Riozinho do Anfrísio nem o Instituto Chico Mendes de Conservação de Biodiversidade, o ICMBio local, tem brigadistas suficientes para dar conta de tantos focos de incêndio na região.
O ICMBio informou a SUMAÚMA que identificou as famílias afetadas e que, nesta sexta-feira, 9, fez reconhecimento aéreo para avaliar “quais as estratégias de combate serão empregadas”. Segundo o órgão, kits de ajuda humanitária repassados pela Defesa Civil de Altamira serão enviados às comunidades. SUMAÚMA entrou em contato com o Corpo de Bombeiros, mas não houve resposta.
Enquanto queima, a Amazônia ainda enfrenta o risco da candidatura do extremista de direita Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Ele ameaça enfraquecer órgãos ambientais, repetindo o que fez seu pai, Jair, hoje condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.
O Riozinho do Anfrísio secou, a chuva não veio, a Floresta está seca. Extremo climático ameaça a Terra do Meio. Fotos: Pedro Pereira
Manaus, a pior qualidade do ar
Na manhã desta sexta-feira, 9, Manaus apareceu na primeira posição do ranking brasileiro de cidades com pior qualidade do ar da plataforma internacional IQAir. Às 8 horas, o índice de qualidade do ar da capital estava em 193, considerado insalubre, com uma concentração de 115 microgramas de material particulado fino (PM2,5) por metro cúbico de ar, valor equivalente a 7,7 vezes a referência diária estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Prefeitura de Manaus suspendeu as aulas da rede municipal e atividades presenciais em órgãos administrativos devido à deterioração da qualidade do ar. A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) também interromperam atividades presenciais diante da fumaça que encobre a capital.
O episódio traz de volta a memória de outubro de 2023, quando Manaus enfrentou uma das crises mais graves de poluição atmosférica de sua história. Naquele período, a capital também figurou entre as cidades com pior qualidade do ar do mundo, enquanto os incêndios florestais se espalhavam pelo Amazonas.
Nos arredores de Manaus, dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, o Selva, registraram, no município de Careiro, uma concentração de 175,8 microgramas de PM2,5 por metro cúbico de ar, equivalente a 11,7 vezes a referência diária da OMS. Em Careiro da Várzea, também no Amazonas, a concentração chegou a 138,3 microgramas, 9,2 vezes o valor recomendado.
Essas partículas microscópicas, com diâmetro inferior ou igual a 2,5 micrômetros, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, aumentando os riscos de doenças respiratórias e cardiovasculares.
Os dados da poluição do ar no Amazonas convergem com os registros de queimadas no estado.
Nos primeiros nove dias de outubro, os satélites do Inpe identificaram 782 focos de calor no Amazonas. O número já representa 89,5% das 874 ocorrências registradas durante todo o mês de outubro de 2025. Se o ritmo observado até agora continuar, o estado poderá encerrar o mês com um dos maiores registros de queimadas dos últimos anos.
A escalada do fogo no Amazonas se intensificou em setembro, quando o estado registrou 3.726 focos de calor, segundo dados do Inpe, um crescimento de 296% em relação aos 942 focos contabilizados em setembro de 2025. O aumento foi o maior, em termos percentuais, entre os estados da Amazônia Legal.
Os níveis de queimadas em setembro praticamente se igualam ao que o estado registrou em outubro de 2023, quando a Amazônia enfrentou uma forte temporada de seca e incêndios impulsionados pelo El Niño naquele ano.
Fumaça das queimadas encobre a cidade de Manaus, onde a qualidade do ar se tornou a pior do país nesta sexta-feira. Foto: Edmar Barros/Folhapress
Amazônia entre as maiores emissões de carbono
Dados do Serviço de Monitorização da Atmosfera Copernicus (Cams), da União Europeia, estimam que a Amazônia brasileira apresenta uma das maiores concentrações de monóxido de carbono (CO) na atmosfera do planeta, comparáveis aos níveis observados na Indonésia, no Sudeste Asiático, que é uma das regiões mais castigadas neste momento pelo El Niño.
Em Santarém, no oeste do Pará, a concentração de monóxido de carbono aparece entre as mais elevadas do mundo nos mapas do Copernicus, superando os níveis observados para as Américas, Europa, África e Oceania. Um dos principais pontos de concentração do poluente coincide com a região onde ocorre um incêndio florestal de grandes proporções no município de Uruará, nas proximidades da Rodovia Transuruará (PA-370), onde o desmatamento tem avançado nos últimos anos.
Em setembro, o bioma Amazônia registrou 12.562 focos de calor, crescimento de 74% em relação ao mesmo mês de 2025. Foi o único bioma brasileiro a apresentar aumento das ocorrências na comparação anual.
Segundo dados do Sistema de Informações sobre Incêndios para Gestão de Recursos (tradução livre para Firms), da agência espacial norte-americana (Nasa), o avanço do fogo está concentrado em regiões específicas da Floresta.
Registros das últimas 24 horas analisados por SUMAÚMA mostram que os focos de calor se concentram ao longo da calha do Rio Amazonas, incluindo locais da Área de Proteção Ambiental da Margem Direita do Rio Negro. Também há concentrações em Apuí, no sul do Amazonas, às margens da BR-230, a Transamazônica; no eixo da BR-163, no Pará, onde o fogo atinge áreas da Floresta Nacional do Jamanxim; e na Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu. O sistema ainda registra concentrações de focos de calor no oeste de Rondônia e no Acre.
O Pará liderou o número de focos de calor, com 5.224 registros em setembro, crescimento de 76% em relação aos 2.967 contabilizados no mesmo período do ano passado. Somados, Pará e Amazonas concentraram 8.950 ocorrências, o equivalente a 71% de todos os focos de calor registrados no bioma Amazônia em setembro.
Nos últimos dias, incêndios de grandes proporções atingiram também a Terra Indígena Apyterewa, no sudeste do estado, área da qual os órgãos ambientais retiraram invasores em 2025. Neste ano, muitos criadores de gado já tentaram voltar para o local.
Em Rondônia, o Firms também registra uma grande concentração de focos de calor na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, onde existe uma disputa em torno da manutenção dos limites da unidade de conservação.
Já no Acre, o principal ponto de atenção é a Reserva Extrativista Chico Mendes, onde os satélites identificaram focos de calor distribuídos por diferentes áreas da unidade de conservação nas últimas 24 horas.
Focos de calor na APA Triunfo do Xingu, no Pará, no mosaico da Terra do Meio, mostram áreas de fogo entre 8 e 9 de outubro. Fontes: Firms, MMA e Planet Inc.
Focos na região de Manaus, próximos a Terras Indígenas (roxo) e unidades de conservação (verde), pioram a qualidade do ar. Fontes: Firms, MMA, Funai e Planet Inc.
Imagem da Nasa registra pluma de fumaça em Uruará, na região de Santarém, onde há registro de incêndio florestal de grandes proporções. Fonte: Firms
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Fonte: SUMAÚMA
