O algoritmo encontra o eleitor, mas a história precisa convencê-lo
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Eleições 2026
Eduardo Gurian
9/10/2026 11:05
Até que ponto o dinheiro investido nas redes sociais é capaz de determinar o resultado de uma eleição? Essa é uma das perguntas que ficaram depois do primeiro turno das Eleições 2026, em uma campanha marcada pela força das plataformas digitais, pela segmentação de públicos e pela possibilidade de colocar uma mensagem diante de milhares de eleitores em poucos minutos.
Foi justamente para tentar compreender melhor essa relação que realizei um levantamento próprio a partir dos dados oficiais disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Analisei informações de candidatos, situação eleitoral e despesas classificadas como “Despesa com Impulsionamento de Conteúdos”, buscando identificar o comportamento dos candidatos eleitos e não eleitos.
Os números mostram que o impulsionamento ganhou espaço importante nas campanhas, mas também revelam que dinheiro e alcance não podem ser confundidos automaticamente com voto.
Entre os 1.664 candidatos eleitos analisados, 1.014, ou 60,9%, apresentaram registro de Despesa com Impulsionamento de Conteúdos, enquanto 650, ou 39,1%, não apresentaram.
Entre os 18.449 candidatos não eleitos, 4.874, ou 26,4%, apresentaram esse tipo de despesa, enquanto 13.575, ou 73,6%, não apresentaram.
A diferença é significativa e mostra uma associação importante entre a presença desse investimento e o grupo dos candidatos eleitos. Mas seria precipitado afirmar que o impulsionamento, sozinho, determina uma vitória. Eleição envolve estrutura partidária, recursos, alianças, presença territorial, conhecimento do nome, atuação política, lideranças e, principalmente, a relação construída com o eleitor.
É justamente aí que entra uma variável que não pode ser subestimada: a memória do eleitor.
Uma campanha não começa quando o candidato abre seu perfil nas redes sociais. Para muita gente, ela começa muito antes, na lembrança de uma atuação, de uma promessa, de uma posição política, de um trabalho realizado ou simplesmente daquilo que já ouviu sobre determinado nome.
A rede social pode apresentar o candidato, ampliar uma mensagem e levar um conteúdo a milhares de pessoas. Mas, quando o eleitor recebe aquela mensagem, outras perguntas aparecem: quem é esse candidato? O que ele já fez? O que defendia antes? Onde estava? Por que agora está dizendo algo diferente?
Uma postagem pode desaparecer da timeline em algumas horas. Uma promessa, uma declaração ou uma posição política podem permanecer na memória por muito mais tempo.
Por isso, mudanças de estratégia são naturais, mas mudanças bruscas de identidade, discurso ou posicionamento podem ter um custo político quando o eleitor percebe que aquilo apresentado agora não combina com a trajetória que conheceu anteriormente. O eleitor pode compreender uma mudança quando percebe suas razões. O que nem sempre perdoa é a sensação de que a mudança aconteceu apenas porque o cenário eleitoral mudou.
Essa dinâmica também ajuda a explicar por que o território continua importante. Na base analisada, alguns Estados apresentam percentuais elevados de eleitos sem registro de impulsionamento: Acre (83,3%), Roraima (77,1%), Alagoas (69,2%), Amapá (65,7%), Sergipe (62,8%) e Paraíba (58,8%).
Isso não significa que o digital seja pouco importante nessas regiões. Significa que existem diferentes formas de construir uma candidatura competitiva. Em muitos lugares, a relação pessoal, as lideranças, a atuação comunitária, o conhecimento do candidato e as redes locais continuam tendo grande peso.
O eleitor não recebe informação apenas pelo celular. Recebe também do vizinho, do comerciante, da família, do colega de trabalho, dos grupos de mensagens e, principalmente, da própria experiência.
Moisés Naím escreveu em O Fim do Poder: “No século XXI, o poder é mais fácil de obter, mais difícil de utilizar e mais fácil de perder.” A frase ajuda a compreender o momento atual. As redes sociais reduziram barreiras de entrada e permitiram que candidatos alcançassem públicos que antes dependeriam de estruturas muito maiores. Mas também tornaram o poder mais exposto. Uma declaração antiga pode ser recuperada, uma promessa pode ser confrontada e uma mudança de posição pode voltar ao debate em poucas horas.
Por isso, o digital não substituiu a política. O impulsionamento oferece alcance; a história oferece contexto; a presença territorial cria vínculo; e a confiança ajuda a transformar atenção em voto.
Depois de analisar os dados do primeiro turno, minha conclusão não é que o digital perdeu importância. É justamente o contrário. Ele veio para ficar e terá peso cada vez maior nas disputas eleitorais. O que os números questionam é a ideia de que colocar dinheiro suficiente para fazer uma mensagem chegar ao eleitor seja suficiente para determinar sua escolha.
O algoritmo encontra o eleitor. A história precisa convencê-lo. E, em uma eleição cada vez mais digital, talvez um dos maiores erros seja acreditar que o eleitor não está olhando para trás. Ele lembra. Ele compara. Ele observa. E, muitas vezes, é justamente nessa memória que começa a decisão sobre o futuro.
Nota: Levantamento de Eduardo Gurian, a partir de dados oficiais do TSE, analisa a relação entre Despesa com Impulsionamento de Conteúdos, resultado eleitoral, território e memória do eleitor no primeiro turno das Eleições 2026. Os dados foram extraídos das bases públicas do TSE referentes às Eleições Gerais de 2026 e representam a fotografia disponível no momento da análise. A ausência de registro de “Despesa com Impulsionamento de Conteúdos” não significa ausência de atividade nas redes sociais, mas apenas que não foi identificado registro nessa categoria. Os dados podem sofrer alterações durante a análise e julgamento das prestações de contas.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco