Segundo turno: O ovo precisa quebrar por dentro
Por Iara Vidal — Brasil 247
Por Iara Vidal, de Pequim – No calor dessas eleições brasileiras — perigosas, decisivas e capazes de deixar qualquer democrata com o coração na boca — aconteceu uma coisa curiosa. Uma enxurrada de brasileiros foi às redes sociais pedir que a China fizesse alguma coisa. Que Xi Jinping interviesse, ajudasse Lula, desse algum sinal mais contundente. Em resumo: que alguém lá fora ajudasse a impedir que o Brasil caísse novamente nas mãos do bolsonarismo.
Foi então que um internauta chinês respondeu aos brasileiros com uma frase muito conhecida por aqui:
鸡蛋从外打破是食物,从内打破是生命。
Jīdàn cóng wài dǎpò shì shíwù, cóng nèi dǎpò shì shēngmìng.
“Um ovo, quando quebrado de fora, vira alimento; quando quebrado de dentro, vira vida.”
O que aquele chinês estava dizendo era muito mais profundo do que simplesmente “Xi não vai ajudar vocês”. A imagem do ovo fala de uma ideia bastante presente por aqui: a força que nasce de dentro, a capacidade interna de produzir transformação. A ajuda externa pode até servir de impulso, pode criar condições, pode oferecer apoio. Mas ninguém consegue produzir, de fora para dentro, a transformação que uma sociedade não é capaz de construir por si mesma.
E, cá entre nós, existe metáfora melhor para este nosso segundo turno? Quando alguém quebra um ovo por fora, o que estava lá dentro vira alimento. Quando a casca se rompe de dentro para fora, nasce vida. Traduzindo isso para a política brasileira: se precisarmos de uma potência estrangeira para “salvar” a nossa democracia, teremos perdido justamente uma das coisas que estamos tentando defender — a nossa soberania e a capacidade do povo brasileiro de decidir o próprio destino.
Há também algo profundamente chinês nessa resposta. A não interferência nos assuntos internos de outros países é um princípio declarado e reiterado da política externa da China. Não se trata de Xi Jinping gostar ou não de Lula, nem de afinidade ideológica. Xi e Lula mantêm uma relação política próxima, e os dois governos construíram nos últimos anos uma parceria cada vez mais intensa. Mas uma coisa não anula a outra.
Em setembro, quando o Ministério das Relações Exteriores da China foi questionado diretamente sobre as eleições brasileiras, o porta-voz Guo Jiakun foi bastante claro: “A China adere à não interferência nos assuntos internos de outros países. Desejamos ao Brasil uma eleição estável e tranquila.”
Ou seja, Xi Jinping não é nosso cabo eleitoral. E ainda bem.
Se estamos justamente combatendo tentativas de transformar o Brasil em quintal de potência estrangeira, seria uma contradição danada pedir que outra potência viesse decidir o nosso futuro por nós apenas porque, desta vez, gostamos mais dela. Solidariedade internacional importa, relações entre governos importam, cooperação importa e apoio à soberania brasileira importa muito. Mas nada disso substitui aquilo que precisa acontecer aí dentro.
E foi aí que a frase do ovo me pegou de verdade, porque ela conversa diretamente com uma coisa que venho pensando desde o primeiro turno: nós nos acomodamos.
Durante muito tempo, parte de nós parece ter esperado que Lula, o governo, alguma instituição, alguma liderança, uma pesquisa eleitoral ou algum acontecimento extraordinário resolvesse o problema. Como se a democracia pudesse funcionar no piloto automático. Como se bastasse ter razão. Como se a memória dos quatro anos de Bolsonaro fosse, sozinha, suficiente para impedir que tudo aquilo voltasse.
Não é.
Agora não dá mais para terceirizar essa responsabilidade. O Brasil não precisa que Xi Jinping vá salvar Lula. Precisa que os brasileiros que não querem entregar o país novamente ao bolsonarismo se organizem, saiam de casa, conversem, façam campanha, procurem quem não votou, chamem quem está desanimado e disputem cada voto possível. Precisamos transformar uma maioria social dispersa em uma força política organizada.
O ovo precisa quebrar por dentro. E a boa notícia é que ele já começou a rachar.
Depois do primeiro turno, a força que parecia adormecida começou a aparecer justamente onde precisava: nas ruas. Estudantes passaram a puxar mobilizações em diferentes regiões do país. No Rio de Janeiro, milhares de secundaristas e universitários caminharam da Candelária até a Cinelândia em defesa da democracia, da educação pública e da reeleição de Lula. Houve manifestações em outras cidades, e a UNE lançou uma campanha nacional com mobilização permanente até o segundo turno.
E isso, para mim, é muito mais importante do que esperar pelo aparecimento de algum grande salvador. Porque o que começa a surgir não é apenas a expectativa de um ato gigantesco num domingo, uma fotografia bonita para entrar para a história e pronto. O que começa a aparecer é algo muito mais poderoso: capilaridade.
É universidade, praça, caminhada, plenária, bairro, periferia e centro acadêmico. É gente procurando gente, conversando com gente, convencendo gente. É alguém que tomou um susto no domingo, dia 4 de outubro, e decidiu que não vai assistir ao resto da história sentado no sofá. É o movimento estudantil saindo do campus para disputar voto também nas ruas, nos bairros, nas estações, onde quer que haja alguém disposto a conversar.
É disso que eu estou falando quando digo que a força precisa vir de dentro. Isso não significa ignorar o tamanho do adversário, fingir que está tudo ganho ou embarcar em pensamento positivo eleitoral — até porque eleição se ganha com voto, não com vibração quântica. Significa apenas entender que o jogo ainda está sendo jogado e, principalmente, que nós somos parte dele.
Talvez seja exatamente essa a lição que aquele internauta chinês, sem saber, mandou para o Brasil. O ovo é nosso. Xi Jinping não vai quebrá-lo por nós — e não deveria. Se quisermos que alguma coisa nova nasça, a força terá de vir de dentro: da organização, da militância, da conversa, da coragem, do voto e do povo brasileiro.
E, olhando para o que começou a acontecer nas ruas depois do primeiro turno, eu confesso que fiquei mais animada. Não porque o perigo tenha diminuído nem porque a eleição esteja resolvida. Fiquei animada porque, finalmente, começamos a lembrar que democracia também exige movimento, presença e participação.
O Brasil está se mexendo, e a casca já começou a rachar. E quando o povo brasileiro resolve se mexer de verdade, meu amor, aí o jogo muda.
Fonte: Brasil 247