Os ventos da transição energética e as vozes da Caatinga

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umsoplaneta

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Como saber se uma transição energética é, de fato, justa? A resposta obviamente não está apenas na quantidade de carbono evitada, nem no número de turbinas instaladas ou de megawatts produzidos. Ela também mora na frequência e na forma como o território é consultado, em como a comunidade participa do processo com centralidade. Também se relaciona com a qualidade do sono de uma criança e na possibilidade de brincar ao ar livre.
Na ida pra escola e, principalmente, na aprendizagem. Revela-se também quando comunidades que historicamente utilizam dos saberes tradicionais e das plantas medicinais para o cuidado da sua saúde passam a necessitar de “medicamentos da cidade” para lidar com os efeitos cotidianos do ambiente em que vivem. Nos animais que ali vivem e nos serviços ecossistêmicos que uma natureza sadia oferece. No vínculo com a terra onde nasceu, na memória dessa vivência. No direito de crescer e permanecer em um território que continua sendo reconhecido como lar.
Em Caetés, visitei comunidades cercadas por parques eólicos e ouvi agricultores que contam o tempo pela chegada das turbinas. Pais que passaram a precisar de medicação para que os filhos conseguissem dormir. Um deles resumiu uma realidade difícil de esquecer: “meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, como bem trouxe a entrevista do Marco Zero Conteúdo, ao relatar o que o ruído dos aerogeradores tem causado na saúde das crianças. Outro morador me disse que precisou abandonar a casa onde construiu uma vida inteira, trocar o canto dos pássaros, que acabaram por sumir da região, pelo barulho da cidade e recomeçar sua vida aos quase sessenta anos.
E esses relatos não são exatamente argumentos contra a energia eólica. Seu Simão, agricultor, pesquisador e uma das fortes vozes locais, acredita que a transição justa pode sim ser uma realidade para o futuro [para longe dos combustíveis fósseis], se feita com as pessoas e seus territórios no centro dessa discussão, e não como detalhes alegóricos no mapa do caminho. Se o desenho dessa transição justa estiver baseado em instrumentos como a Resolução CONAMA 511/2025 sobre Racismo Ambiental e Justiça Climática, além de contar com um fluxo acessível para compartilhamento de informação, diálogos, planejamento, distâncias seguras entre as torres e as casas, participação comunitária e respeito aos modos de vida locais, a história pode ser bem diferente. O problema é que, em muitos casos, continuamos reproduzindo uma lógica colonial antiga: decisões tomadas longe das comunidades, benefícios concentrados e impactos distribuídos justamente entre quem menos participa das escolhas, fazendo a roda do racismo ambiental girar. E a gente se questiona, energia limpa para quem?
A enfermeira e doutoranda da Fiocruz, Nadine Pontes, detalha que: “no campo da Determinação Social da Saúde, derivada da Saúde Coletiva latino-americana, autores consideram que a saúde está relacionada aos padrões de trabalho e consumo, às percepções culturais, aos contextos de classe social, gênero e etnia, e que a exposição aos riscos, como aqueles vivenciados por essas comunidades, não ocorre ao acaso, mas é imposta por uma ordem social excludente. Os malefícios são destinados, quase com nome e CEP, a locais e populações específicas.”
Em uma das andanças pelo território, entre torres que não estavam nem a 80 metros da estrada por onde nosso ônibus passou, chegamos a um parquinho infantil que mais parecia cenário de filmes de terror: brinquedos enferrujados, grama alta, resto de lataria e de lixo jogados pelo caminho. E o ruído das torres como trilha sonora apavorante. O espaço fora idealizado como ‘medida compensatória’ da empresa construtora do parque eólico. Não houve consulta prévia às crianças e famílias para sua construção, tampouco uso pela comunidade local, que tem medo de levar as crianças. Logo elas, que são nossa melhor bússola para medir desigualdades e apoiar soluções justas, reparadoras e acessíveis.
E é justamente aqui que a discussão sobre transição energética encontra uma agenda ainda mais ampla: a do direito das crianças à natureza. O ECA Ambiental parte de uma ideia simples, mas politicamente profunda: crianças e adolescentes têm direito à natureza e esse direito deve ser efetivado com absoluta prioridade. A lei 15.512, sancionada em 22 de setembro de 2026 prevê mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente e em legislações ambientais, urbanas e climáticas para incorporar essa perspectiva às políticas públicas, como nas cenas – fictícias ou não – onde a frase “crianças primeiro” já virou praxe.
Crianças, por serem as mais vulneráveis e vulnerabilizadas diante dos impactos da crise climática, precisam compor a mesa de discussões acerca das soluções sobre seus próprios territórios, principalmente quando elas possuem uma perspectiva intergeracional, como é o caso da demanda pela transição energética.
Transicionar economias de forma justa passa pela capacidade de reduzir desigualdades, fortalecer comunidades e não reproduzir adoecimentos, expulsões ou novas formas de invisibilidade. Não basta só saber se a tecnologia a ser implantada é “limpa e barata” – como muitos dos moradores de Caetés foram informados no início do processo de construção do parque eólico. Precisamos saber quem essa solução limpa e barata atende, se ela protege os direitos humanos ou os invisibiliza. Se ela amplia possibilidades de futuro ou as restringe transformando territórios em zonas de sacrifício.
Saí de Caetés com muitos aprendizados que a sabedoria local ensinou, orgulhosa da mobilização social em torno da pauta, da defesa do território, sua biodiversidade, pessoas e culturas. Certa de que, do local ao global, não há energia verdadeiramente limpa quando a conta da transição é paga com o sono, a saúde, a memória e o pertencimento de um território inteiro. Se o futuro que estamos construindo exige zonas de sacrifício, estamos diante de mais uma forma de reproduzir o passado, seguindo a velha lógica colonial, agora soprando com novos ventos.
Carolina Maciel, analista de Natureza no Alana .
Nadine Pontes é enfermeira e doutoranda da Fiocruz.
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Fonte: umsoplaneta

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