Empreendedora de Maceió transforma resíduos têxteis em renda e projetos sociais

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Por Aquiles Lins — Brasil 247

247 – Uma mochila confeccionada com calças jeans usadas marcou o início de uma mudança na trajetória profissional de Rose Ramos, ex-professora universitária que encontrou no reaproveitamento de resíduos têxteis uma oportunidade de empreender em Maceió, Alagoas. À frente da Ressigna, ela produz bolsas e acessórios artesanais, gera renda e desenvolve iniciativas sociais voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade.

Segundo reportagem da Agência Sebrae de Notícias, a empreendedora estima ter recolhido entre 470 e 480 quilos de jeans e outros resíduos têxteis em aproximadamente três anos de atividade. Além disso, passou a reutilizar lonas e banners, incluindo cerca de 376 quilos de materiais recebidos após um evento do Sebrae. Os produtos são confeccionados a partir de tecidos que, de outra forma, poderiam acabar descartados.

A iniciativa começou no fim de 2022, quando Rose decidiu aproveitar algumas calças jeans sem condições de doação para substituir a mochila rasgada de um dos quatro filhos. Ainda aprendendo a utilizar uma máquina de costura doméstica usada, ela produziu uma peça que chamou a atenção do filho e de seus colegas. A experiência revelou uma possibilidade comercial que não fazia parte de seus planos.

Formada em Biologia, Rose trabalhou por mais de duas décadas como professora universitária e pesquisadora científica. Ela deixou a carreira acadêmica para dedicar mais tempo aos cuidados de um dos filhos, atualmente com 22 anos, que tem autismo com nível 3 de suporte e deficiência intelectual severa. O artesanato, atividade presente em sua vida desde a infância, tornou-se uma alternativa profissional.

Capacitação ajudou a transformar ideia em negócio

A estruturação da Ressigna ganhou força quando Rose passou a participar de um grupo de mães empreendedoras e conheceu uma representante do Sebrae. Antes de participar de sua primeira feira, realizou uma capacitação em atendimento e vendas. Posteriormente, frequentou cursos, oficinas e consultorias voltados ao desenvolvimento de pequenos negócios.

No início de 2023, ingressou no programa de aceleração Efeito Furacão, no qual identificou que sua proposta poderia ser classificada como um negócio de impacto, por combinar atividade econômica com benefícios ambientais e sociais.

“Eu cheguei ao Sebrae só com uma ideia. Foi lá que descobri que aquilo era um negócio. Fiz capacitações, consultorias, oficinas e as pessoas foram me indicando caminhos e abrindo portas. Se não fosse o Sebrae, com certeza eu não estaria empreendendo”, afirma.

A produção envolve a coleta, a higienização e a transformação dos materiais. Depois de preparados, os tecidos recebem novos cortes, pinturas, bordados e aplicações, dando origem a bolsas e acessórios exclusivos. O trabalho também passou a incorporar lonas e banners, ampliando as possibilidades de reaproveitamento.

Parte dos lucros financia ações com famílias vulneráveis

O compromisso social da Ressigna está ligado à própria história de Rose. Criada na periferia do Rio de Janeiro e estudante de escola pública, ela considera a educação um fator decisivo para sua trajetória pessoal e profissional. Por isso, decidiu destinar parte dos resultados financeiros do empreendimento a iniciativas que ofereçam oportunidades a outras pessoas.

Entre as famílias acompanhadas está a de uma avó responsável pelos cuidados de três netos com deficiência intelectual. A mulher produzia peças de bordado filé, mas recebia valores reduzidos pelo trabalho. Depois de participar de uma oficina de pintura em tecido, começou a confeccionar panos de prato decorados como alternativa para complementar a renda.

Outra iniciativa envolve atividades de incentivo à leitura destinadas a crianças e adolescentes. Uma das jovens participantes conseguiu ingressar no ensino superior e está concluindo a graduação em Pedagogia.

“É um trabalho de formiguinha, uma gotinha que vai regando uma sementinha. Se uma pessoa consegue ter uma história diferente, já vale muito”, diz Rose.

Consumidores passaram a valorizar peças feitas com materiais usados

A aceitação dos produtos também exigiu uma mudança na forma de apresentar o negócio ao público. Em uma das primeiras feiras de que participou, Rose enfrentou resistência de uma consumidora ao explicar que determinada bolsa havia sido produzida com jeans reaproveitado.

“Ela falou: ‘Ah, então é coisa velha’, largou a bolsa e foi embora. Eu fiquei arrasada.”

A percepção mudou no dia seguinte, quando um casal demonstrou interesse pelas peças justamente por sua origem sustentável. A experiência ajudou a empreendedora a identificar o perfil dos consumidores interessados em produtos confeccionados com materiais reutilizados.

“Ali eu pensei: pronto, achei meu público.”

Atualmente, a Ressigna participa de circuitos de feiras em Maceió, possui clientes recorrentes e recebe encomendas personalizadas. Parte dos pedidos envolve a transformação de roupas com valor afetivo em novos objetos, preservando lembranças familiares e dando outra utilidade aos tecidos.

Para Rose, o propósito do empreendimento ultrapassa a redução do descarte de materiais. Cada venda também contribui para manter as ações sociais desenvolvidas com parte dos lucros.

“Não é só o produto que está sendo reaproveitado e ressignificado. A gente está conseguindo ressignificar também vidas de outras pessoas. E esse é o principal propósito.”

Pequenos negócios têm peso na economia brasileira

A trajetória de Rose integra o universo dos pequenos empreendimentos brasileiros, segmento que reúne mais de 24,19 milhões de CNPJs e representa mais de 96% das empresas ativas no país, conforme os dados divulgados pelo Sebrae.

Desse total, mais de 13,5 milhões são microempreendedores individuais (MEIs), 8,8 milhões são microempresas e aproximadamente 1,8 milhão são empresas de pequeno porte. Juntos, esses negócios respondem por 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo a instituição.

Somente em 2026, o país já registrou a abertura de mais de 4 milhões de pequenos negócios. O segmento também tem participação expressiva na geração de empregos, respondendo, em média, por 80% dos novos postos de trabalho, de acordo com os números apresentados pelo Sebrae.

Para valorizar a atividade desses empreendedores, a instituição promove a campanha Compre do Pequeno, associada ao Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa, celebrado em 5 de outubro. A iniciativa busca estimular o consumo em estabelecimentos de menor porte e fortalecer a circulação de recursos nas comunidades.

No caso da Ressigna, esse movimento reúne três resultados: geração de renda por meio do artesanato, redução do desperdício de materiais têxteis e financiamento de atividades sociais. A experiência mostra como um pequeno empreendimento pode combinar sustentabilidade ambiental com oportunidades econômicas e educacionais.

Fonte: Brasil 247

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