O 2º turno não decidirá só um governo, mas o País em que acordaremos em 26 de outubro
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Doutora em Direitos Humanos na Faculdade
de Direito USP, mestra em Ciências Humanas, diretora executiva da
Rede Liberdade
As urnas fecharam no 1º turno e o ar ficou mais rarefeito
Desde domingo, tenho a sensação física de que o ar mudou. Há resultados eleitorais que se leem, outros entram no corpo. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com 45,16%, e os dois disputarão a Presidência em 25 de outubro. São números oficiais, mas não são apenas números. Olho para as crianças e me pergunto que País elas encontrarão daqui a poucas semanas, quais liberdades continuarão parecendo naturais, quais direitos voltarão a ser tratados como excessos, quais corpos voltarão a precisar explicar por que merecem simplesmente viver em paz.
Essa angústia não nasce do medo da alternância de poder. Alternância é democracia. O que me inquieta é a possibilidade de que a urna legitime um projeto de restauração das hierarquias que a Constituição de 1988 prometeu enfrentar e que as lutas populares tentaram, com enorme custo, deslocar. Há diferenças políticas que pertencem ao jogo democrático e há projetos que transformam a desigualdade em ordem, a violência em método e a exclusão em identidade. Confundir essas coisas em nome de uma neutralidade elegante é uma maneira de empobrecer a própria ideia de democracia.
Sueli Carneiro nos oferece uma chave decisiva para compreender esse momento. Ao formular o dispositivo de racialidade, ela mostra que o racismo não é apenas um conjunto de preconceitos individuais. É uma tecnologia de poder que organiza quem pode ocupar o lugar do sujeito pleno e quem é empurrado para a condição de outro, de não ser, de vida disponível à suspeição, à precariedade e à violência. O epistemicídio, nessa mesma arquitetura, não elimina apenas conhecimentos; ele retira de determinados sujeitos a autoridade para nomear o mundo. Quando penso a democracia brasileira a partir dessa tradição intelectual, uma conclusão se impõe: um Estado antinegro é substancialmente antidemocrático, porque não há democracia possível quando a própria humanidade é distribuída em graus.
Foi contra essa distribuição desigual da humanidade que gerações de pessoas negras lutaram neste país. A luta nunca foi apenas para entrar em prédios públicos ou ocupar cadeiras institucionais. Foi para ser reconhecido como gente inteira. É por isso que o pobre no aeroporto, a trabalhadora doméstica com direitos, a filha do pedreiro na universidade e o preto doutor causaram tamanho incômodo. Não era o avião, o diploma ou o consumo em si. Era a quebra de uma cartografia social antiga, aquela que ensinava silenciosamente quem deveria servir, quem poderia mandar, quem produziria conhecimento e quem deveria agradecer por ter sido admitido na sala.
Os avanços sociais das últimas décadas não aboliram o racismo, o patriarcado ou a desigualdade de classe. Mas alteraram a percepção do possível. E é justamente essa alteração que produz reação. Quando pessoas historicamente subalternizadas deixam de pedir licença e passam a reivindicar presença, autoridade, afeto, patrimônio, descanso e futuro, a ordem que parecia natural revela sua violência. A reação conservadora não se alimenta apenas de divergências sobre orçamento ou administração. Ela também mobiliza ressentimento diante da perda de privilégios simbólicos e materiais.
É por isso que as chamadas pautas de costumes jamais foram apenas costumes. O casamento entre pessoas do mesmo sexo, a proteção de crianças e adolescentes trans, as políticas de enfrentamento à violência doméstica, a educação para a igualdade racial e de gênero, as ações afirmativas e os direitos reprodutivos dizem respeito ao núcleo da cidadania. Quando esses temas são reduzidos a guerra cultural, vidas concretas se tornam matéria de negociação eleitoral. A pergunta por trás de cada uma dessas disputas é profundamente política: quem tem o direito de definir a própria existência sem pedir autorização à maioria?
Também por isso a esquerda precisa olhar com mais seriedade para as igrejas. Em muitos territórios populares, elas oferecem aquilo que o Estado frequentemente oferece de modo insuficiente: escuta, alimento, cuidado, rede, sentido e pertencimento. A direita percebeu que política não é feita apenas de programas de governo, mas de vínculos. Parte da esquerda, por vezes, respondeu à religiosidade popular com distância, ironia ou uma linguagem incapaz de reconhecer o que existe ali de comunidade e necessidade humana. Isso foi um erro. A fé não pertence ao conservadorismo, assim como a defesa da família não pode ser monopólio de quem só reconhece algumas famílias. A história das lutas populares brasileiras também passa por pastorais, comunidades eclesiais de base, igrejas negras, terreiros e lideranças religiosas comprometidas com justiça social.
O mesmo vale para a luta sindical. Houve um tempo em que democracia também era assembleia, chão de fábrica, greve, negociação coletiva, disputa pela jornada e pelo salário. O sindicato não organizava apenas reivindicações; organizava pertencimento de classe. A fragmentação do trabalho, a informalidade, a terceirização e as plataformas digitais enfraqueceram parte dessa experiência coletiva. O trabalhador isolado continua explorado, mas muitas vezes já não encontra um espaço cotidiano onde sua exploração se transforme em linguagem política. Reconstruir a esquerda passa por reconstruir esses vínculos, porque democracia exige tempo, descanso, salário e capacidade material de participar da vida pública.
É nesse ponto que a eleição de 2026 se torna uma escolha sobre projetos de Brasil. Não considero intelectualmente honesto tratar Lula e Flávio Bolsonaro como alternativas simétricas apenas porque ambos chegaram legitimamente ao segundo turno. A legitimidade do procedimento eleitoral não apaga a trajetória, o campo político, os compromissos e a concepção de sociedade que cada candidatura carrega. A extrema-direita brasileira não é somente uma opção econômica mais conservadora. Ela se consolidou mobilizando uma gramática de inimigos internos, suspeição contra direitos, hostilidade à diferença e desconfiança em relação às mediações coletivas da democracia.
Isso tampouco autoriza a esquerda a abandonar a crítica às próprias instituições quando elas concentram poder. O Supremo Tribunal Federal precisa ser protegido de tentativas de captura ou intimidação, mas não deve ser convertido em poder sem contrapesos. Defender a democracia não é escolher quem terá autorização para exceder limites; é fazer com que os limites valham para todos. A mesma exigência de colegialidade, transparência e devido processo que mobilizamos diante de um ex-presidente deve alcançar também o jovem negro na audiência de custódia, a mulher que pede proteção contra seu agressor, a mãe que depende do Estado para assegurar o direito do filho, o trabalhador que enfrenta uma empresa muito mais poderosa do que ele.
É aqui que minha angústia deixa de ser apenas eleitoral. O que me assusta não é perder uma disputa partidária. A esquerda já perdeu eleições e perderá outras. O que assusta é ver direitos que custaram gerações de luta voltarem a ser apresentados como concessões revogáveis. É imaginar que essa geração possa crescer em um Brasil em que alguns amores valem menos, que algumas famílias precisam se justificar, que determinados corpos devem ser vigiados, que um diploma ainda causa espanto quando está nas mãos de uma pessoa negra, que mulheres devem negociar sua segurança com homens violentos, que trabalhadores devem agradecer pela exaustão e que pessoas pobres devem permanecer agradecidas por entrar, desde que não se acostumem a pertencer.
Nós, pessoas negras, conhecemos essa linguagem. Nossos antepassados não lutaram apenas pela liberdade formal. Lutaram pelo direito de serem reconhecidos como humanos em uma ordem construída para negar essa humanidade. Mulheres negras lutaram para existir para além do trabalho compulsório, do cuidado obrigatório e da violência sexual. Trabalhadores lutaram para que o tempo de vida não pertencesse integralmente ao patrão. Pessoas LGBT lutaram para que amor, família e corpo não fossem matéria de polícia, vergonha ou clandestinidade. Cada direito que hoje parece ordinário carrega uma história de gente que precisou enfrentar o Estado, a igreja, a família, o mercado e, muitas vezes, a própria morte para que outra geração pudesse respirar melhor.
Talvez seja por isso que o resultado do primeiro turno produza essa sensação de sufocamento. Não porque a democracia tenha terminado, mas porque ela voltou a nos perguntar coisas que imaginávamos estar lentamente aprendendo a responder. Quem é plenamente humano? Quem pode amar sem pedir licença? Quem merece proteção quando apanha dentro de casa? Quem tem direito ao descanso, ao futuro, à memória, à voz?
No dia 25 de outubro escolheremos um presidente. Mas o voto tocará algo muito mais antigo do que esta campanha. Tocará a longa disputa entre um Brasil que amplia o campo da humanidade e outro que só consegue se reconhecer quando alguém permanece do lado de fora.
É isso que torna o ar rarefeito. Perceber que aquilo que chamávamos de conquista voltou à condição de pergunta. Olhar para os nossos filhos e não saber se eles encontrarão a mesma rua, a mesma liberdade, a mesma possibilidade de existir sem pedir desculpas. Saber, pela história, que o retrocesso nunca começa anunciando que retirará de todos o direito de respirar. Ele começa escolhendo quem pode ficar sem ar.
E nós sabemos quem este País escolhe aniquilar.
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Fonte: Carta Capital