Por Andreza Aruska de Souza Santos — JOTA

O ano era 2002. Eu era uma jovem adulta, universitária, estudante de Ciência Política e membro de uma igreja evangélica que tinha um candidato a deputado distrital.

Eu tinha uma compreensão muito diferente sobre o voto e discordava da igreja. O voto era secreto, individual, e me incomodava profundamente que a minha comunidade tivesse um candidato. Havia reuniões de estratégia que, para mim, se pareciam com cultos. Não eram discussões políticas sobre projetos ou ideias. Eram sermões em que só um falava sobre o candidato.

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Como jovem estudante de Ciência Política, protestei. Reclamei. Me opus.

E sofri por isso.

“Só a Andreza entende de política.” “Sabe melhor do que todo mundo.” “Rebelde.” E, no repertório religioso, vinha uma frase ainda mais pesada: “rebeldia é como pecado de feitiçaria”.

A pressão não ficava apenas nas palavras. Em determinado momento, eu já não podia falar nas reuniões de discipulado. Precisava “aprender a ouvir”. Alguns amigos se afastaram naturalmente. Eu havia me tornado “um perigo”.

Não aguentei muito tempo.

Não me lembro exatamente de como aconteceu a transição, mas comecei a participar da campanha. Levei o candidato até a minha universidade, um reduto de oposição. Fui aos comitês, participei de reuniões de estratégia, fiz amigos. Preparamos lanches durante encontros intermináveis. Comíamos juntos, viajávamos juntos, dirigíamos longas distâncias juntos.

E foi muito legal.

Essa talvez seja a parte mais desconfortável da história: eu votei nele. E votei de coração.

Não porque tivesse sido finalmente convencida por um programa político. Nem porque alguém tivesse vencido um debate comigo. Votei porque, naquele processo, fiquei amiga do candidato, de seus filhos e das pessoas da campanha. Aquilo deixou de ser apenas uma candidatura e se tornou uma comunidade da qual eu fazia parte. Era um voto diferente do meu alinhamento ideológico, mas fazia sentido como qualquer outro: eu acreditava naquele voto e naquele candidato.

Anos depois, diante de eleições em que se fala obsessivamente em “ganhar votos” num país polarizado, voltei a pensar em como o meu próprio voto foi ganho.

Ele foi ganho pela convivência.

O voto é secreto, mas ele é um ato social. Entramos sozinhos na cabine eleitoral carregando conosco família, amigos, igrejas, universidades, colegas de trabalho, vizinhos, grupos de WhatsApp, influenciadores e todas as comunidades às quais pertencemos ou às quais gostaríamos de pertencer.

Muito do nosso comportamento político nasce das relações sociais por meio das quais aprendemos valores, estabelecemos confiança e definimos quem são “os nossos”.

É justamente aí que a polarização cria um problema. Quanto mais homogêneos se tornam nossos espaços de convivência, menos convivemos com quem pensa diferente. Na melhor das hipóteses, conhecemos alguém que está na borda da nossa bolha. E, às vezes, nós mesmos expulsamos pessoas para a bolha alheia porque concluímos que elas já não são suficientemente “dos nossos”.

Nesse ambiente, o que significa “ganhar votos”?

Há quem pergunte como conversar com “o outro lado”. Há quem já tenha desistido disso e prefira perguntar como convencer quem pensa parecido, mas não votou, a comparecer às urnas. E existe ainda uma terceira questão, talvez mais difícil: como alguém pode pertencer socialmente a um grupo e, ainda assim, preservar a autonomia para votar individualmente no “outro”?

Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida olhando apenas para campanhas, propaganda eleitoral, (des)informação ou debates.

Precisamos olhar para os espaços de convivência.

E isso também exige pensar nos legados da pandemia. Quando escolas e universidades ficaram fechadas e encontros e atividades coletivas desapareceram, uma parte importante da sociabilidade migrou para as redes, que reorganizaram de forma definitiva de quem ouvimos falar e com quem falamos.

No pós-pandemia, precisamos pensar, sobretudo, em quem encontramos. Alguns espaços presenciais são locais poderosos na formação de vínculos, e são mais associados àquilo que entendemos como vida privada: a família, a igreja, o esporte, a escola dos filhos, o grupo de pais, em geral: os lugares do cuidado, da fé ou do lazer. Enquanto universidade e trabalho tornaram-se mais híbridos e menos cotidianos.

Isso importa politicamente. Não porque uma conversa em família, uma igreja ou um grupo de corrida seja necessariamente uma discussão sobre política. Justamente o contrário. São espaços nos quais opiniões políticas podem ser formadas sem que estejamos conscientemente “fazendo política”. Neles construímos confiança, pertencimento, referências morais e interpretações sobre o mundo. E é a partir dessas relações aparentemente privadas que muitas vezes encontramos o Estado e formamos nossa ideia sobre a coisa pública.

Talvez, então, uma das perguntas políticas mais importantes não seja apenas em quem as pessoas votam, mas onde elas convivem. Quem encontramos repetidamente? Com quem construímos confiança? E o que acontece com a política quando a nossa convivência se desloca dos espaços coletivos para redes digitais e círculos cada vez mais privados?

Essa mudança pode não afetar igualmente diferentes campos políticos. Parte importante do vocabulário histórico da esquerda passa pelo coletivo e pelo público: Estado, políticas públicas, direitos, serviços, sindicatos, universidades, movimentos sociais. A direita, sobretudo em suas expressões contemporâneas, encontra com mais facilidade uma linguagem política que entra diretamente em espaços percebidos como privados: família, religião, segurança, renda, propriedade, autonomia individual.

Não significa que a esquerda não fale de família, renda ou segurança, nem que a direita prescinda do Estado. A diferença está também na escala em que essas questões são narradas. É possível falar da renda a partir da política econômica ou a partir do dinheiro que sobra no fim do mês; da segurança a partir das instituições ou do medo de voltar para casa à noite; da educação como política pública ou como preocupação com o que acontece com o próprio filho na escola.

Se a política está sendo vivida cada vez mais nesses espaços de proximidade, talvez exista aí um desafio particularmente importante para quem fala predominantemente a linguagem da coisa pública: não basta defender o Estado. É preciso mostrar como o público entra na casa, na renda, na segurança, na criação dos filhos e nas relações que organizam a vida cotidiana.

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Partidos e campanhas aparecem intensamente durante as eleições. A vida social, não. Ela acontece todos os dias. E talvez seja justamente por isso que uma eleição não se ganhe apenas quando alguém muda de opinião sobre uma política pública, mas quando muda aquilo que sente ser próximo, confiável e seu.

Em 2002, ninguém ganhou meu voto numa discussão sobre política. Primeiro, ganharam a minha convivência. Depois, a minha amizade. Quando chegou o dia da eleição, o voto veio quase como consequência.

A cabine era secreta. O caminho até ela nunca foi.

Fonte: JOTA

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