Pedro Serrano: “Só vamos ganhar o 2º turno na luta”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições de 2026 dependerá da capacidade de mobilização da esquerda, da retomada do diálogo com setores populares e de uma atuação política que ultrapasse os limites das instituições. A avaliação é do jurista e professor de Direito Constitucional Pedro Serrano, que defendeu uma reorganização das forças progressistas para enfrentar a extrema direita nas urnas e na sociedade.

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, Serrano afirmou que a eleição de Lula é fundamental, mas advertiu que o resultado eleitoral, por si só, não será suficiente para superar as dificuldades políticas enfrentadas pelo campo progressista. Para ele, a disputa exige uma participação direta da militância, tanto nas ruas quanto nas plataformas digitais, além de uma revisão das estratégias de organização da esquerda.

“É essencial a gente eleger o Lula no segundo turno. Mas não tem que achar que daí ganhou. Ganhou nada. Nós estamos com um problemão na frente, que é um Parlamento absolutamente dominado pela extrema direita”, afirmou.

Segundo o jurista, o resultado das eleições legislativas demonstra uma mudança na correlação de forças políticas. Em sua avaliação, a esquerda manteve uma representação relativamente estável, enquanto a extrema direita ampliou sua presença ocupando espaços anteriormente controlados pelo centrão e pela direita tradicional.

Serrano considera que essa transformação exige uma resposta política que não pode se limitar às negociações parlamentares ou à atuação do governo. A esquerda, argumenta, precisa recuperar sua capacidade de organização social para enfrentar um movimento que dispõe de estruturas de mobilização e influência sobre diferentes segmentos da população.

“Para enfrentar o fascismo é no pau, é na rua, é na sociedade. O Supremo fez o possível. Ele segurou o máximo possível no seu limite, na defesa da Constituição e da democracia”, declarou.

A perda de conexão do PT com as bases populares

Uma das principais críticas apresentadas por Serrano diz respeito ao processo de transformação da estrutura organizativa do Partido dos Trabalhadores. O jurista identifica o enfraquecimento dos núcleos partidários, a partir do final da década de 1990, um dos fatores que contribuíram para o distanciamento entre a esquerda e a população.

Segundo ele, os núcleos do PT não funcionavam apenas como espaços de discussão política. Eram também ambientes de convivência, organização comunitária e formação de vínculos sociais. Em muitos municípios, essas estruturas atuavam em conjunto com as comunidades eclesiais de base, permitindo que a militância mantivesse contato permanente com os moradores.

“Eu tenho a impressão que nós erramos brutalmente no fim da década de 90. Ali está a origem, quando a gente acabou com os núcleos do PT”, afirmou.

Serrano argumenta que o desaparecimento desses espaços abriu caminho para outras organizações ocuparem funções de acolhimento, convivência e articulação comunitária. Entre elas, destacou as igrejas evangélicas, cuja presença territorial passou a alcançar segmentos com os quais a esquerda perdeu contato.

Para o jurista, o problema não se resume à comunicação eleitoral. Ele envolve a ausência de estruturas capazes de estabelecer relações permanentes com a população, compreender suas demandas e incorporar suas experiências à formulação política.

“Nós perdemos essa conexão, nós viramos só a institucionalidade. O PT virou um partido extremamente burocratizado, envelhecido e com pouca capacidade de articulação com a sociedade”, avaliou.

Na análise de Serrano, essa transformação levou a esquerda a depositar expectativas excessivas nas instituições, deixando em segundo plano o trabalho cotidiano de organização popular.

A disputa também acontece nas redes sociais

Outro aspecto considerado decisivo por Serrano é a necessidade de renovar a linguagem e os métodos de atuação política da esquerda.

O jurista destacou o desempenho eleitoral de candidaturas jovens que conseguiram construir uma presença nas plataformas digitais. Segundo ele, a experiência demonstra que as redes sociais deixaram de ser instrumentos complementares de divulgação para se tornarem espaços de organização, disputa política e formação de opinião.

“Nós temos que voltar para a rua, para a rua virtual, inclusive. Tem que ter a juventude no comando desse processo”, defendeu.

Serrano também criticou a resistência de dirigentes à renovação dos quadros partidários. Para ele, a permanência das mesmas lideranças nas estruturas de direção dificulta a incorporação de novas formas de comunicação e organização.

O jurista considera necessário promover uma mudança geracional acompanhada de uma revisão programática. Essa transformação, argumenta, deve permitir que a esquerda reúna diferentes movimentos sociais em torno de objetivos comuns.

Nesse sentido, defendeu a integração entre as lutas dos trabalhadores e as reivindicações por direitos de grupos historicamente discriminados.

“Não há como lutar contra a exploração sem lutar pela emancipação. Não há como lutar pela emancipação sem lutar contra a exploração. Essas lutas não são separadas e não tem uma mais importante que a outra”, afirmou.

Para Serrano, a separação entre essas agendas enfraquece a capacidade de articulação das forças progressistas e dificulta a construção de uma resposta coletiva ao avanço da extrema direita.

O diálogo com os evangélicos

Na avaliação do jurista, uma das tarefas imediatas da campanha de Lula é ampliar o diálogo com os eleitores evangélicos.

Serrano considera que a esquerda precisa compreender o papel desempenhado pelas igrejas na vida cotidiana de milhões de brasileiros. Ele lembrou que essas instituições oferecem redes de apoio social, acolhimento e convivência, especialmente em comunidades nas quais outras formas de organização perderam presença.

“Nós precisamos dialogar com os evangélicos. Estamos falando de um terço da população brasileira, no mínimo. É muita gente. Não dá para achar que tudo é fascista, que tudo é teocrático”, declarou.

O professor também apontou uma possível contradição entre o crescimento parlamentar do PL e a representação de setores evangélicos. Na sua interpretação, essa relação abre espaço para uma aproximação política que a campanha de Lula deveria explorar no segundo turno.

Mas advertiu que o diálogo não pode se limitar à tentativa de convencer os eleitores a partir de posições previamente estabelecidas.

“Dialogar significa se abrir para ouvir, não só falar. Dialogar não é falar, só ficar pregando. É ficar ouvindo também. A gente tem que ouvir essa gente”, enfatizou.

Serrano também defendeu a construção de pontes com setores da direita tradicional e do centrão, argumentando que o avanço da extrema direita alterou o espaço político dessas forças.

“A luta é de cada um, é de todos”

Ao avaliar o desempenho de Lula no primeiro turno, Serrano rejeitou a ideia de atribuir ao presidente a responsabilidade principal pelas dificuldades eleitorais.

Para o jurista, Lula continua sendo a principal liderança popular do país, e o resultado deve ser compreendido a partir das limitações organizativas do próprio campo progressista.

“A culpa não é do Lula. O Lula é o maior líder popular da nossa história. Eu acho até que ele foi bem perto da desorganização da campanha”, afirmou.

Serrano também questionou a tendência de transferir a responsabilidade pelos resultados eleitorais a dirigentes, profissionais de comunicação ou instituições.

“A gente fica sempre delegando: o Judiciário tem que resolver, algum marqueteiro fez cagada. A cagada é nossa. Eu devia ter feito um pouco mais de esforço para tentar, com quem eu conheço, obter mais votos. A luta é de cada um, é de todos e de cada um”, declarou.

Na avaliação do professor, o segundo turno deve ser encarado como uma oportunidade de mobilização e também como o início de uma reorganização política que precisará continuar depois das eleições.

Ele defende que uma eventual reeleição de Lula seja acompanhada de maior participação dos movimentos sociais, fortalecimento da militância e reconstrução das estruturas de base dos partidos progressistas.

“Nós temos que ocupar a rua, a rua virtual tanto quanto a rua real. E temos que nos voltar menos para a institucionalidade, mais para nossas bases sociais”, concluiu.

Para Serrano, a disputa eleitoral não se encerra na escolha do próximo presidente. O desafio é reconstruir a capacidade de organização da esquerda na sociedade, condição que considera necessária tanto para vencer o segundo turno quanto para sustentar politicamente um eventual novo mandato de Lula.

Fonte: Brasil 247

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