Bolotana: a próxima Zona Azul onde as mulheres chegam aos 100 anos
Por Sara Magalhães — Seu Dinheiro
O mapa das chamadas Blue Zones, ou Zonas Azuis, pode estar prestes a ganhar um novo ponto, e, mais uma vez, na Itália. No alto das montanhas da Sardenha, o pequeno vilarejo de Bolotana, com cerca de 2,3 mil habitantes, chamou a atenção de pesquisadores pela quantidade incomum de pessoas que chegam aos 100 anos.
A possível nova zona azul foi identificada em um estudo que tem entre os coautores S. Jay Olshansky, professor emérito de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Illinois em Chicago.
As Blue Zones são regiões associadas a uma alta concentração de pessoas que vivem até os 100 anos ou mais. O conceito reúne cinco locais: Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Icária, na Grécia; Nicoya, na Costa Rica; e Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos.
Só que, desta vez, os cientistas afirmam ter conseguido verificar as idades dos centenários por meio de diferentes registros históricos. Como mostrou o Seu Dinheiro, uma pesquisa do demógrafo Saul Justin Newman levantou dúvidas sobre a qualidade dos registros usados para identificar populações de extrema longevidade em diferentes partes do mundo. O estudo apontou inconsistências documentais em bases de dados de centenários e colocou em xeque uma das premissas que ajudaram a popularizar o conceito.
“O que nos convenceu de que é real foi a manutenção de registros. Trabalhando com o Dr. Gianni Pes e o Dr. S. Jay Olshansky, verificamos datas de nascimento e óbito com registros civis, registros de batismo e casamento paroquiais e histórias familiares que remontam a mais de um século”, escreveu o jornalista e pesquisador americano que popularizou o conceito de Blue Zones Dan Buttner em seu Instagram.
O vilarejo onde chegar aos 100 pode ser menos raro
Bolotana fica na região montanhosa de Marghine, na Sardenha. Em 2024, cerca de seis pessoas com 100 anos ou mais viviam no município, uma concentração estimada em aproximadamente 11 vezes a observada nos Estados Unidos.

Mas o número de centenários vivos em determinado momento não é a única métrica utilizada pelos pesquisadores. A equipe analisou 3.060 pessoas nascidas em Bolotana entre 1900 e 1925 e identificou 38 indivíduos que chegaram aos 100 anos. Além disso, os pesquisadores reconstruíram histórias de vida a partir de registros civis e arquivos paroquiais, cruzando informações de nascimento, morte e batismo.

Segundo S. Jay Olshansky, os registros municipais e religiosos de Bolotana permitem verificar as idades de forma independente. A equipe também selecionou aleatoriamente centenários a partir de fotografias e conferiu seus dados em diferentes documentos históricos.
Mulheres são o verdadeiro fenômeno de Bolotana
Segundo o estudo, 13,8% das mulheres que chegam aos 70 anos no vilarejo têm probabilidade estimada de alcançar os 100. Nos Estados Unidos, a taxa é de aproximadamente 3,6%. Na prática, uma mulher de 70 anos em Bolotana teria quase três vezes mais chances de chegar ao centenário do que uma americana da mesma idade.

Entre os homens, a probabilidade estimada de sobreviver dos 70 aos 100 anos é de 4,92%. Para as mulheres, sobe para 13,83%. O resultado é curioso porque a Sardenha já era conhecida por uma longevidade masculina fora do comum. Bolotana, portanto, parece contar uma história diferente, ali, são as mulheres que concentram a vantagem mais expressiva.
Os pesquisadores estimam que uma mulher de 70 anos em Bolotana tenha quase 21 anos adicionais de expectativa de vida. Entre os parâmetros internacionais analisados, o vilarejo aparece atrás apenas de Hong Kong em expectativa de vida aos 70 e probabilidade de chegar aos 100.

Sem academia, mas com muita caminhada
Bolotana tem ruas íngremes e uma rotina em que caminhar faz parte da vida cotidiana. Não há uma cultura de academia como a encontrada em grandes cidades. Em vez disso, os moradores sobem e descem as ladeiras diariamente, muitas vezes porque precisam se deslocar a pé.
“Então, o que pode estar por trás disso? Ruas íngremes e caminháveis. Laços familiares profundos. Fé forte. Quantidades moderadas de vinho e um azeite local incomum”, afirmou Buettner. “O estudo não afirma que qualquer uma dessas questões seja a causa, mas mapeia as perguntas que mais valem a pena investigar a seguir.”
A alimentação também aparece como uma possível peça desse quebra-cabeça. Segundo a investigação, a dieta tradicional do vilarejo era cerca de 90% baseada em vegetais, com feijão, massas, batatas, azeite, trigo e alimentos cultivados pelos próprios moradores. A carne aparecia, em média, apenas algumas vezes por mês.

Além disso, famílias costumam viver próximas umas das outras e compartilhar tarefas domésticas e cuidados com crianças e idosos. A atividade física cotidiana, aliás, se mistura a outro elemento frequentemente associado ao envelhecimento saudável: a convivência social.
Só que os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: o estudo não prova que nenhum desses fatores seja responsável pela longevidade. Genética, alimentação, atividade física, estrutura familiar e características ambientais podem atuar simultaneamente.
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Fonte: Seu Dinheiro