Filmes políticos
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
Há uma tradição que o Festival do Rio mantém edição após edição: além de apresentar grandes filmes, provoca o público a pensar, questionar e discutir o mundo em que vive. Em sua 28ª edição, não poderia ser diferente. Em um ano marcado por uma eleição especialmente complexa, a política atravessa a programação em documentários e ficções que revisitam ditaduras, democracia, autoritarismo, disputas de poder, direitos humanos e questões sociais contemporâneas.
Alguns desses filmes já passaram pelas telas do festival, como “Dragões”, de Miguel Antunes Ramos, e “O Sertão das Nossas Memórias”, de Lúcia Murat. Mas ainda há bons títulos pela frente até o encerramento, no dia 11 de outubro. E vale ficar de olho na repescagem: como acontece tradicionalmente, filmes que despertaram interesse do público podem ganhar novas sessões, oferecendo uma segunda oportunidade para quem perdeu a primeira exibição.
Entre os brasileiros que colocam a política no centro da tela está “Dragões”, de Miguel Antunes Ramos. O documentário mergulha nas imagens que ajudaram a construir o personagem político de Jair Bolsonaro, dos primeiros vídeos no YouTube ao fim de seu mandato na Presidência. Lives, selfies e discursos são utilizados para investigar como a imagem se transformou em instrumento de construção de poder e como as redes sociais modificaram a própria linguagem política. O filme integra a competição de documentários da Première Brasil.
A memória da ditadura militar brasileira aparece também em “O Sertão das Nossas Memórias”, de Lúcia Murat, cineasta que mantém a política e a memória do país como temas recorrentes de sua filmografia. Desta vez, ela revisita o assassinato de Carlos Lamarca e José Carlos Barreto, o Zequinha, no sertão da Bahia. O documentário recupera essa história a partir de sobreviventes e mostra como, décadas depois, Lamarca e Zequinha passaram a ser lembrados e homenageados nas cidades onde foram mortos.
Para quem ainda quer conferir o viés político do Festival, a programação reserva outras boas opções. O período da ditadura volta à tela em “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira, que reúne relatos de mulheres que foram presas políticas no Presídio Tiradentes, em São Paulo, entre elas Dilma Rousseff. O documentário ganha nova exibição nesta terça-feira, dia 6, dentro da programação gratuita do Festival.
Também olhando para os anos de chumbo, o curta “Eleição do Grêmio do Colégio São Vicente”, de Toninho Muricy, recupera imagens realizadas em 1974. O filme registra uma eleição para o grêmio estudantil e o exercício da democracia dentro de uma escola em plena ditadura militar. Restaurado, o material ganha novas sessões e debate após uma das exibições.
A política atravessa fronteiras em “O Degelo”, de Manuela Martelli. Ambientado no Chile de 1992, pouco depois do fim da ditadura de Augusto Pinochet, o suspense acompanha uma menina de nove anos em um hotel isolado nos Andes. O desaparecimento de uma adolescente começa a revelar segredos escondidos pelos adultos, tendo como pano de fundo um país ainda marcado pelo passado recente.
O autoritarismo ganha uma roupagem distópica em “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro. Na história, o Estado brasileiro determina que pessoas idosas sejam transferidas para colônias habitacionais, afastadas do restante da sociedade. Controle, liberdade individual e resistência atravessam o filme, que terá sessão gratuita no CCJF.
Já “Por Que Não?”, de Maria Prata, leva para o debate político outro tema urgente: a crise climática. O documentário discute os obstáculos para transformar conhecimento e alertas ambientais em ação coletiva e política.
Das feridas deixadas pelas ditaduras latino-americanas às novas formas de exercício do poder, passando por democracia, meio ambiente, direitos humanos e liberdade individual, a seleção reforça uma característica histórica do Festival do Rio: o cinema como espaço de reflexão, provocação e debate.
E, para quem perdeu algum desses filmes, fica o aviso: vale acompanhar a repescagem. No Festival do Rio, muitas vezes a segunda chance é justamente a oportunidade de descobrir um daqueles filmes que continuam na cabeça depois que as luzes da sala se acendem.
SERVIÇO — PRÓXIMAS SESSÕES
“Torre das Donzelas”
CCJF — Centro Cultural da Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241, Centro
6/10, às 14h30
“O Degelo”
Cinesystem Belas Artes Botafogo 2
Praia de Botafogo, 316, Botafogo
6/10, às 18h30
“Eleição do Grêmio do Colégio São Vicente”
Estação Claro Rio
Rua Voluntários da Pátria, 35, Botafogo
7/10, às 16h15
“O Degelo”
Estação Claro Gávea 2
Rua Marquês de São Vicente, 52, Gávea
8/10, às 16h45
“Eleição do Grêmio do Colégio São Vicente”
CCJF — Centro Cultural da Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241, Centro
10/10, às 17h — com debate após a sessão
“O Último Azul”
CCJF — Centro Cultural da Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241, Centro
10/10, às 18h — sessão gratuita
“Por Que Não?”
Centro Cultural FGV
Praia de Botafogo, 190, Botafogo
10/10, às 18h45 — entrada gratuita
“Por Que Não?”
Estação Claro Rio 5
Rua Voluntários da Pátria, 35, Botafogo
11/10, às 19h — com debate
Fonte: Brasil 247