Lavareda: Lula não foi ultrapassado por uma arrancada de Flávio — perdeu votos para a abstenção
Por Benedito Tadeu César — Brasil 247
A interpretação de que Flávio Bolsonaro protagonizou uma arrancada espetacular nas últimas horas da campanha e ultrapassou Lula nas urnas pode estar olhando para o fenômeno pelo lado errado.
Para o cientista político Antonio Lavareda, ocorreu principalmente o contrário: Flávio chegou às urnas aproximadamente com o tamanho que as pesquisas já lhe atribuíam; foi Lula quem encolheu porque uma parcela importante de seus potenciais eleitores não compareceu para votar.
“É uma ilusão de ótica”, afirmou Lavareda em entrevista a Ricardo Noblat e Guga Noblat, no Metrópoles. Segundo ele, Flávio aparecia com cerca de 35% do eleitorado nas pesquisas de sua empresa às vésperas da votação e obteve percentual praticamente igual quando considerado o conjunto do eleitorado. Lula, ao contrário, aparecia com aproximadamente 39% e terminou em torno de 34% nessa mesma base de comparação.
A conclusão de Lavareda é direta: “Lula perdeu pelo menos cinco pontos”, de acordo com as pesquisas de seu instituto.
Lula perdeu votos para a abstenção
A análise muda significativamente a leitura política do primeiro turno.
Flávio efetivamente cresceu durante a reta final, sobretudo absorvendo eleitores das candidaturas menores de direita. Mas Lavareda afirma não haver evidência, na comparação entre as pesquisas finais e as urnas, de uma onda adicional de voto útil em Flávio no próprio dia da eleição.
A diferença fundamental teria ocorrido no comparecimento.
O eleitorado socialmente mais pobre, no qual Lula apresenta desempenho melhor, enfrenta custos maiores para votar e tende a apresentar taxas mais elevadas de abstenção. Lavareda lembra que fenômeno semelhante já havia ocorrido em 2022.
Há ainda outro componente. Ele sustenta que Lula tende a perder proporcionalmente mais votos para erros na urna e votos nulos porque possui vantagem expressiva entre parcelas de menor escolaridade e entre analfabetos funcionais.
Isso significa que a diferença observada nas urnas não representa necessariamente a mesma diferença existente no conjunto do eleitorado.
Segundo Lavareda, quando se considera o eleitorado total, a vantagem de Flávio sobre Lula teria ficado na casa de 1,4 a 1,5 ponto percentual.
É uma diferença pequena — mas o segundo turno começa com uma dificuldade adicional para Lula.
Flávio deve aparecer na frente nas primeiras pesquisas
Lavareda considera “quase impossível” que Flávio Bolsonaro não apareça à frente de Lula nas primeiras pesquisas do segundo turno — e provavelmente com uma diferença maior do que aquela observada no primeiro turno.
A razão é simples: os votos das candidaturas menores precisam encontrar novo destino.
Como a maior parte dessas candidaturas está situada à direita, seus eleitores tendem a migrar preferencialmente para Flávio.
Lavareda faz, porém, uma distinção importante. O apoio formal dos candidatos derrotados não determina mecanicamente o destino de seus votos. A proximidade ideológica dos eleitores é mais importante.
Ele recorre ao exemplo de 2018: Ciro Gomes não apoiou Fernando Haddad no segundo turno e viajou para Paris, mas grande parte de seus eleitores votou no candidato do PT.
“Os eleitores não foram para Paris”, ironizou.
Portanto, Lula não pode simplesmente esperar pelos apoios partidários. Precisará disputar diretamente esses eleitores.
Lula precisa fazer quatro movimentos
Da análise de Lavareda emerge praticamente um roteiro para a campanha de Lula.
O primeiro movimento é reduzir a abstenção entre seus próprios eleitores.
Em 2022, lembra o cientista político, ocorreu algo incomum: a abstenção no segundo turno foi menor do que no primeiro. Cerca de 550 mil a 560 mil eleitores que não haviam comparecido voltaram às urnas.
Numa eleição que pode ser decidida por margem estreitíssima, algumas centenas de milhares de votos podem fazer a diferença.
O segundo movimento é disputar os eleitores das candidaturas menores, mesmo que elas estejam situadas no campo da direita.
O terceiro é mais difícil — mas Lavareda considera perfeitamente possível: tirar votos de Flávio Bolsonaro.
Ele lembra que eleições não são jogos de soma fixa. Entre um turno e outro, um candidato pode conquistar eleitores que haviam votado diretamente no adversário.
E há um quarto movimento, talvez politicamente ainda mais importante.
A palavra que Lula esqueceu: mudança
Para Lavareda, 2026 é uma eleição de mudança.
E nisso existe uma assimetria importante entre as duas campanhas.
“A campanha de Flávio Bolsonaro entendeu isso desde o primeiro dia. A campanha de Lula eu acho que começou a entender quando já estava terminando”, afir mou.
Lavareda observou que Lula chegou a falar de mudança em sua última participação no horário eleitoral. Mas, no pronunciamento feito depois do primeiro turno, abandonou novamente a palavra.
“Parece que é uma coisa que lembraram, mas logo depois esqueceram”.
O diagnóstico toca no centro do problema político enfrentado pelo presidente. Lula disputa a reeleição e, portanto, representa simultaneamente governo e continuidade. Flávio tenta ocupar o lugar da ruptura.
Se a demanda predominante do eleitorado é por mudança, Lula terá de convencer o eleitor de que a mudança também pode ocorrer dentro de seu próprio governo.
A vantagem digital da ultradireita
Lavareda vai além da eleição presidencial e identifica uma transformação mais profunda no sistema político brasileiro.
Para ele, o PL tornou-se uma espécie de “grande partido digital”, altamente mobilizado nas redes sociais, capaz de ideologizar sua base e organizar mensagens políticas simples e nacionais.
O exemplo mais evidente teria aparecido na eleição para o Senado.
Grande parte dos eleitores sabe pouco sobre as atribuições dos senadores. O PL conseguiu oferecer a seu eleitorado uma razão concreta para votar em seus candidatos: eleger senadores capazes de apoiar processos contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
Lavareda considera a estratégia extremamente eficiente.
E daí extrai uma conclusão ainda mais relevante: o avanço do PL não ocorreu apenas sobre a esquerda. O principal território ocupado pela ultradireita foi o do Centrão.
“A grande vítima do PL nesse final de semana não foi a esquerda, foi o Centrão”, afirmou.
Segundo ele, pode estar em curso uma “canibalização” dos partidos tradicionais de centro e centro-direita e a formação progressiva de uma bipolaridade ideológica no Congresso.
De um lado, um partido digital; do outro, uma esquerda analógica
É no final da entrevista que Lavareda apresenta seu diagnóstico mais incômodo para a esquerda.
De um lado, vê uma ultradireita populista ascendente, fortemente mobilizada nas redes e profundamente digitalizada.
Do outro, uma esquerda que descreve como “pré-digital”, “analógica” e, em grande medida, “anacrônica”.
A direita ideologiza sua base, ocupa as redes e avança sobre o espaço anteriormente ocupado pelo Centrão. A esquerda, segundo essa leitura, perde capacidade de comunicação e mobilização numa sociedade que mudou profundamente.
Esse diagnóstico ajuda a compreender por que a discussão sobre o segundo turno não pode se limitar à soma aritmética dos votos obtidos em 4 de outubro.
Lula precisa conquistar parte dos eleitores dos candidatos derrotados. Precisa retirar votos de Flávio. Precisa diminuir a abstenção justamente entre os segmentos sociais nos quais é mais forte. E precisa entrar numa disputa que seu adversário começou antes: a disputa para representar a mudança.
A vantagem inicial é de Flávio, reconhece Lavareda.
Mas a diferença do primeiro turno não descreve um eleitorado imóvel. Ao contrário: sua própria análise mostra que uma parcela decisiva da eleição está justamente entre aqueles que podem mudar de voto — e aqueles que podem decidir se vão ou não às urnas.
Fonte: Brasil 247