O cabresto no bolso
Por Carlos Odas — Brasil 247
A elite brasileira é violenta e inculta. Toda elite é, dirão. Concordo. A nossa só é mais. Foi a última das Américas a largar o chicote e nunca pagou a conta. E nunca entendeu que país de miseráveis é mau negócio, até pra ela.
Getúlio entendeu. Não era de esquerda, era estancieiro. Mas industrializou o país e criou o salário mínimo, a CLT e a Petrobras. Pagou com um tiro no peito, em 1954. “Saio da vida para entrar na História.” Entrou, e adiou o golpe por dez anos.
O golpe veio em 1964, contra Jango. Custou-lhe o mandato e o exílio. Morreu na Argentina, em 1976, sob uma suspeita nunca esclarecida.
Lula é os dois juntos, com uma diferença: é povo de verdade. Retirante, torneiro, sindicalista. E com outra: nunca fechou o Congresso nem flertou com qualquer atitude autoritária. Chegou pelo voto, saiu pelo voto, voltou pelo voto. E luta pelo voto. Trabalhismo sem ditadura. Imperdoável.
Os ciclos históricos se assemelham tanto que, entre um e outro, houve ainda “os príncipes”. JK e FHC, mimados pela imprensa, porque deles não se temia nada. Mesmo assim, JK foi cassado em 1964. Quando a elite se assusta, não poupa nem os seus.
A elite econômica brasileira agora decidiu que o pacto de 1988 deu errado. Não porque o Estado social ficou pela metade, mas porque alguém resolveu cumpri-lo por inteiro. O preço para a elite? Caraminguás caídos do bolso. Um imposto mínimo de até dez por cento para quem ganha mais de 50 mil por mês, para isentar quem ganha até 5 mil. E o fim das bets, que drenavam o salário dos pobres e lotavam os intervalos do futebol. As casas de apostas notificaram clubes e emissoras, a Globo entre elas, de que poderiam romper contratos que, somados, passam de um bilhão. Três em cada quatro brasileiros aplaudiram a proibição. Quem vende o intervalo e a camisa, não.
Por dinheiro, aceitam tudo. Aceitam o filho de um golpista condenado a 27 anos. Aceitam o crime organizado lavando dinheiro na Faria Lima. Aceitam a corrupção institucionalizada em emendas parlamentares sem rosto. Aceitam o sarampo de volta, e a pólio também, se vier: os filhos deles se vacinam na clínica. Não percam de vista o quanto essa elite é inculta. Aceitam cuspir em 700 mil covas da Covid, a maioria sem lápide. Só não aceitam que se mexa na renda. Na dela.
O filme é velho, repetido. Nos anos 1940, Eugênio Gudin queria o Brasil fazenda, com Estado mínimo e mercado desregulado. Roberto Simonsen queria o Brasil fábrica, com forte intervenção estatal em infraestrutura e planejamento. Nenhum dos dois falava em democracia. A elite ficou com a fábrica superfaturada de um e com a alma de capataz da fazenda do outro: Estado para absorver o risco e socializar o prejuízo, quando houvesse; mercado para concentrar o lucro. Industrializamos sem democratizar, modernizamos sem incluir. Gudin virou ministro da Fazenda logo depois do tiro no Catete, assumindo um processo de industrialização inspirado nas ideias de seu contendor.
Mas, e os 47% de Flávio? Não é a elite votando. É a elite fazendo votar. Quem votou nele não é o inimigo. É o trabalhador com medo do assalto. É a mãe que só tem a igreja. É o rapaz do aplicativo que aprendeu na tela que a culpa da sua falta de perspectiva é do Estado, não de quem o explora. São angústias reais, capturadas por máquinas de transformar engajamento em dinheiro para seus proprietários.
Os barões do café precisavam de muito mais: voto aberto, cabresto, ata a bico de pena e, se algum “outsider” furasse esses filtros, degola no Congresso. Mulher e analfabeto nem votavam. Quem acabou com isso foi Getúlio, com o voto secreto e a Justiça Eleitoral, em 1932. Os herdeiros dos barões aprenderam a contornar a herança getulista. O cabresto saiu da mão do coronel e foi para o bolso do eleitor. Chama-se celular. Ninguém precisa mais vigiar o seu voto. Basta escolher o que você vai temer e quem você deve odiar.
Golpe para quê, se há as redes? E não confunda o nojo de parte dessa elite pelo 8 de Janeiro com escrúpulo moral ou ético. Em 2022, empresários sonhavam com golpe num grupo de WhatsApp. O problema do 8 de Janeiro, para essa gente, foi ter dado errado. Golpista, para eles, não é criminoso: é sócio desastrado. Tanto que o Congresso já reduziu as penas, e Flávio promete tirar da cadeia o pai, que nem lá está: cumpre pena em casa.
Sísifo, então? Não.
A pedra rola, mas para cada vez mais acima. A ditadura não ousou revogar a CLT. FHC anunciou o fim da Era Vargas em 1994. Trinta anos depois, ainda discutimos pejotização, Petrobras e BNDES. Discutimos Getúlio.
Com Lula será igual. Em 2056, o Brasil ainda vai discutir o legado lulista nas políticas sociais, no combate à fome, nas ações afirmativas na educação, no aumento real do salário mínimo e na inclusão dos ricos no imposto de renda. A agenda real é a dele. Os adversários ficarão na nota de rodapé, ou no processo criminal. A agenda deles é de fumaça: fundada em recalques, focada em desmontar tudo, não em construir algo.
Em 2023, o golpe fracassou. Em 2025, pela primeira vez, golpistas foram julgados e condenados, general inclusive. É isso que está em jogo no dia 25. JK anistiou os rebeldes de Jacareacanga, e os de Aragarças também foram perdoados. Vários estavam nos quartéis em 1964. A anistia de 1979 perdoou os torturadores, e em 1981 veio a bomba do Riocentro. Golpista anistiado não se arrepende. Espera a vez.
Mas a anistia apaga a pena, não os autos. Está escrito que houve um plano para matar o presidente eleito. Os torturadores perdoados em 1979 foram nomeados um a um pela Comissão da Verdade. A História não assina indulto.
E nada está decidido. Menos de dois pontos separam os dois Brasis que se opõem simetricamente, e faltam três semanas. Sísifo empurrava a pedra sozinho. A do Brasil tem milhões de mãos. Venceremos.
Getúlio saiu da vida para entrar na História. Lula entrou nela vivo, pela porta da frente. E está longe de sair.
Fonte: Brasil 247