Por Camilo Irineu Quartarollo — Brasil 247

No amanhecer de um novembro de 1889, o marechal Deodoro se livrou dos pijamas, pôs suas medalhas no peito e subiu no baio encilhado, desfilando pelo Campo de Santana, atual Praça da República e centro do Rio de Janeiro. As  pessoas ali presentes se assustaram com a viração. Limitaram-se em gritar “Viva o imperador!” Não era deboche não. Ninguém sabia de nada. Sem o povo, o súdito deu um golpe que depôs o monarca.

Amigo pessoal de D. Pedro II, Deodoro era um verdadeiro monarquista e sombra do imperador. Agora, seria o primeiro presidente de uma república recém proclamada. Houve muitas brigas entre os comandantes, sem a moderação e o gênio do antigo governante, o qual corria risco de vida.

Os grupos da elite se ajustavam em seus privilégios, porquanto as riquezas iam embora em navios estrangeiros. Os nomes dos eleitos à presidência eram escolhidos entre a elite, num jantar de gala. Depois era só armar a situação em que pobres, analfabetos e mulheres não votariam.

A república instalada serviu aos propósitos dos cafeicultores paulistas e cariocas, representantes da elite econômica. A república deteve os efeitos libertários da Abolição. Prevaleceram valores brancos e europeizados. Essa elite moveu muitas fakes nos jornais contra os povos afros empobrecidos. Os abastados tinham saudade da escravidão e usavam de subterfúgios para mantê-la. Os congressistas atacavam com a chamada Bancada da Lavoura. Toda família imperial pagou o preço com o banimento.

O imperador, um homem adepto das ciências e humanidades, tinha grandes projetos de país, tal como a transposição do Rio São Francisco para o nordeste árido – em vida, Pedro II não pôde fazer. Esse mega projeto foi repensado e lançado em 2004, no primeiro governo Lula e pode terminar em dezembro de 2026. É um sistema de túneis, aquedutos, grandes bombas de recalque, calhas que se entrecruzam para fluir as águas do “Velho Chico”.

O rio São Francisco chega aos vários estados nordestinos ressequidos. O presidente cumpriria uma profecia do Antônio Conselheiro de que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Talvez por isso alguns adeptos do espiritismo digam que Lula seja a reencarnação do monarca banido.

O que não esperavam é que o irmão do “Velho Chico” conseguisse. Contudo, não acho que ele seja reencarnação do Conselheiro ou de D. Pedro II, mas um migrante típico das caatingas. Lula começa sua trajetória política no estádio lotado da Vila Euclides, em 1979. Na última entrevista ao podcast Flow, Lula falou do ser político. Em breves palavras disse:

“O político honesto que você quer, está dentro de você, cara. Ao invés de você ficar protestando, entra na política. Seja candidato a alguma coisa. Participe de um partido político. Participe da comunidade do seu bairro. Não fique paralisado, não fique achando que ninguém presta.”

Fonte: Brasil 247

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