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O mero (Epinephelus itajara) é um gigante dos mares: pode chegar a 400 quilos e atingir o tamanho de um Fusca! Classificado como criticamente em perigo de extinção no Brasil, está entre as espécies que precisam de proteção para não desaparecer. Para sobreviver, o mero desenvolveu estratégias impressionantes, entre elas, a capacidade de se camuflar mesmo com um corpo que pode ultrapassar dois metros de comprimento. Mas, por mais adaptado que esteja ao ambiente marinho, esse gigante não conseguiu escapar de uma ameaça muito maior: a pressão provocada pelo ser humano.
Longe de ostentar as cores vibrantes como azuis elétricos ou amarelo neon, que costumam roubar a cena entre os peixes recifais, sua paleta é discreta, composta por tons terrosos. Esse padrão de cores contribui para a camuflagem e o mimetismo, permitindo que o mero se esconda em ambientes, apesar do seu tamanho colossal, mas não consiga escapar da pesca ilegal, principalmente com arpões.
Há mais de duas décadas, pesquisadores-mergulhadores do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), monitoram a área onde foram instalados os Recifes Artificiais Marinhos, em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nessa paisagem submersa, a ciência ganha contornos de galeria de arte. Ao observar os cardumes que adotaram as estruturas como abrigo, fica evidente que cada mero carrega uma identidade única em sua pele.
Ao longo dos anos, os blocos de concreto foram colonizados por algas, corais, esponjas e comunidades de organismos coloridos que lembram um jardim de flores, onde a vida pulsa, quase 20 metros abaixo da linha d’água. É nesse ambiente que o Mero encontra refúgio, alimento e, quem sabe, parceiros para se reproduzir.
A espécie ajuda a regular as populações de peixes, crustáceos e outros animais marinhos dos quais se alimenta
Reprodução/Rebimar
Lá embaixo, a espécie ajuda a regular as populações de peixes, crustáceos e outros animais marinhos dos quais se alimenta. Por estar no topo da cadeia alimentar, sua presença contribui para manter o equilíbrio e o bom funcionamento do ecossistema.
Com os mergulhos científicos, é possível ter contato com diversos indivíduos circulando nesse jardim improvável. Esses meros possuem padronagens de cores muito características. Cada um apresenta uma textura visual com manchas e sombreamentos. “O Mero usa seu padrão como estratégia de sobrevivência. Além da atração de parceiros, as manchas e tons simulam as texturas de rochas, plantas aquáticas e fendas, permitindo que ele quase ‘desapareça’ no ambiente, apesar do tamanho”, explica o oceanógrafo e mergulhador André Cattani, atualmente diretor-executivo da MarBrasil.
Enquanto é jovem, a espécie se desenvolve em manguezais. Olhando com atenção, é possível ver que o padrão de faixas verticais lembra perfeitamente as raízes de mangue e troncos das árvores submersas. Quando adultos, a colocação é muito parecida com as rochas onde ele procura abrigo e alimento.
E olha que curioso:o Mero tem a capacidade de mudar de tonalidade, escurecendo ou clareando levemente sua pele para se ajustar à luminosidade do ambiente em que se encontra, como cavernas e recifes abertos.
Em expedição recente aos Recifes Artificiais Marinhos, foi avistado um indivíduo de coloração cinza clara, semelhante às próprias rochas de concreto afundadas no fundo do mar.
Coincidência?
Talvez seja melhor chamar de evolução.
No oceano, parecer uma pedra pode ser muito mais importante do que parecer bonito.
Mero “passeando” em seu jardim subaquático.
Reprodução/Rebimar
Mas o mero não é apenas um mestre da camuflagem. É também um gigante que ocupa uma posição importante na cadeia alimentar. Apesar do tamanho, costuma permitir a aproximação de mergulhadores. “Quando se sente incomodado, porém, muda de comportamento: pode emitir um som semelhante a um esturro e abrir as nadadeiras, aumentando ainda mais a impressão de tamanho”, comenta Cattani.
E funciona.
Diante de um peixe que pode pesar o mesmo que um Fusca, a melhor estratégia é não testar seus limites.
O problema é que o maior predador do mero não está no fundo do mar.
Está fora dele.
A pesca predatória colocou a espécie sob enorme pressão e contribuiu para que o mero entrasse na lista de espécies ameaçadas. No Brasil, a captura é totalmente proibida. O animal pode viver por décadas, cresce lentamente e demora anos para atingir a maturidade sexual.
Ou seja: perder um mero adulto não significa simplesmente perder um peixe.
Significa interromper décadas de vida e um ciclo reprodutivo que levou anos para acontecer.
É por isso que olhar para o mero apenas como um peixe enorme é pouco. Ele é também um indicador de que aquele ambiente ainda consegue sustentar um predador de grande porte, e, portanto, de que existe vida suficiente abaixo da superfície para manter uma cadeia alimentar funcionando.
Proteger esse gigante é proteger muito mais do que suas manchas.
É preservar uma estratégia de sobrevivência construída pela evolução, um papel ecológico e uma história que começou muito antes de nós.
No litoral do Paraná, os recifes artificiais se tornaram parte desse cenário. Duas balsas naufragadas e um corredor de blocos de concreto foram incorporados ao ambiente marinho e hoje funcionam como estruturas de abrigo e concentração de vida.
Ali, onde antes havia apenas estruturas submersas, a natureza criou um novo cenário.
E o mero, com seu discreto animal print, encontrou ali um lugar para continuar sendo exatamente aquilo que a evolução o ensinou a ser:
Um gigante que, apesar do tamanho, sabe desaparecer entre as pedras.
Confira o vídeo do Parque dos Meros feito pelo documentarista e mergulhador Gabriel Marchi clicando aqui.
*Sandrah Souza Guimarães é jornalista e coordenadora de comunicação do programa Rebimar, iniciativa da Associação MarBrasil patrocinada pelo programa Petrobras Socioambiental.
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Fonte: umsoplaneta

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