Deputado bolsonarista passa recibo e compara Flávio ao nazismo na Alemanha

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Por Hora do Povo — Hora do Povo

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Só faltou reconhecer as semelhanças entre Bolsonaro e Hitler

O deputado federal Cabo Gilberto Silva, do PL, abriu o verbo e comparou a eventual vitória da extrema-direita nas eleições presidenciais deste ano no Brasil à ascensão do nazismo com Hitler na Alemanha, no início do século passado.

Segundo o bolsonarista, a eleição de Flávio Bolsonaro representaria uma “resposta” à “humilhação” perpetrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao condenar e sentenciar seu pai, Jair, a 27 anos de prisão (ainda que, no momento, em caráter domiciliar). “As urnas disseram isso”, avaliou o cabo à Rádio Arapuan.

Em sua avaliação, a eleição do “01” de Bolsonaro e o avanço do PL no Senado Federal abrirá espaço para decidirem pelo afastamento (impeachment) do ministro Alexandre de Moraes.

“A gente quer fazer justiça, e a justiça é cassar o ministro Xandão, para ele pagar pelos seus crimes. Mas sem ultrapassar a questão da humilhação. A gente tem que respeitar”, continuou o deputado, ignorando, solenemente, que Jair Bolsonaro só foi condenado em razão das robustas provas de seu envolvimento com golpe de estado que estava em curso, cujo desfecho, também comprovado, poderia ter sido o assassinato do presidente Lula, de seu vice, Geraldo Alckmin, e do próprio Moraes.

Nada disso importa para o bolsonarista que passou recibo, recorrendo, pela lógica, à ascensão de Hitler, depois que a Alemanha, quando os nazistas ainda eram uma força marginal, como o bolsonarismo no Brasil, foi derrotada e “humilhada” na 1ª Guerra Mundial.

Aliás, outro bolsonarista de carteirinha, Roberto Alvim, então secretário de Cultura de Bolsonaro, plagiou, com gestos, Joseph Goebbels, o todo poderoso ministro de propaganda de Hitler.

“Eu gosto muito de história e, no final da 1ª Guerra Mundial, Winston Churchill e os vencedores humilharam a Alemanha nazista (sic). Antes de ser Alemanha nazista. Então, a Suprema Corte vem humilhando o povo brasileiro, a liberdade do povo brasileiro, junto, nesse conluio com o PT. Então, a população está vendo isso. Tem um certo limite”, disse o cabo.

A versão equivocada da história remete a uma passagem envolvendo o grande líder nacionalista Tancredo Neves. Após o golpe de 64, alguns aliados tentavam convencê-lo a votar em Castelo Branco no Colégio Eleitoral em razão de um compromisso do marechal, rasgado pouco tempo depois pela linha dura do regime, pelo restabelecimento das eleições diretas em 1966. Alguém teria dito ao político mineiro que Castelo era diferente, pois se tratava de um militar culto, que já havia lido mais de mil livros, ao que Tancredo respondeu, categoriamente: “É, pode ser, mas leu os livros errados”.

O cabo, pelo jeito, não apenas não tem a cultura que Castelo tinha, mas, certamente, também não leu os livros corretos. Churchill só se tornou 1º ministro do Reino Unido em 1940, quando já havia eclodido a 2ª grande contenda mundial, desta feita contra a Alemanha nazista.

“Quando se está com poder, não se pode humilhar os adversários”, afirmou o cabo, confundindo humilhação com o ato de justiça que foi praticado contra os que tentaram, deliberadamente, um golpe de estado, intervenção nas instituições republicanas e morte de seus opositores, frustrados pela reação da sociedade e a decisiva postura da maioria militar, inclusive da alta cúpula.

“O Tratado de Versalhes [que encerrou oficialmente a 1ª Guerra Mundial] gerou revolta na Alemanha, foi alimentando o ódio dos alemães, e Hitler ascendeu ao poder inicialmente eleito democraticamente”, continuou o cabo.

“O PT humilhou todos nós com o conluio com a Suprema Corte, perseguição, a maior prisão ilegal da história [de Bolsonaro]. O eleitor foi enganado com promessa de picanha e no final o governo mandou comer foi ovo”, prosseguiu, esquecendo-se da fila dos ossos durante o desgoverno de Jair Bolsonaro.

“O governo humilha e pensa que vai manter o voto com programa social. Se ganharmos, temos que fazer justiça sem humilhar, cassar o ministro Xandão e restabelecer o Estado de Direito”, como se o bolsonarismo, que atentou em praça pública contra esse estado de direito, tivesse alguma moral para defendê-lo.

Durante a entrevista, o jornalista Luis Torres perguntou se o deputado comparava o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a Hitler.

“Não, comandante, não. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, comandante. Nada, zero. É só um fato histórico que ocorreu, que hoje a população está mostrando de forma democrática, diferentemente do da Suprema Corte, que trabalha de forma ditadora, a ditadura do Judiciário”, respondeu, na defensiva, o cabo.

Mais uma afirmação que se choca com a flagrante realidade dos fatos.

As semelhanças entre o nazismo e o bolsonarismo são visíveis e se explicam não apenas no gesto de Roberto Alvim.

Senão, vejamos, em algumas frases e posturas de Bolsonaro:

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

O slogan dissimula um patriotismo que nunca existiu, mas, sim, a subserviência doentia do clã ao império do norte, na figura igualmente patética de Donald Trump. Hitler também dizia uma frase bastante conhecida entre os nazistas: “Deutschland über alles”, que significa, em português: “Alemanha acima de tudo”.

DESRESPEITO PELOS DIREITOS HUMANOS E PRECONCEITO RACIAL

“Conosco não haverá essa politicagem de direitos humanos. Essa bandidada vai morrer porque não enviaremos recursos da União para eles”.

“Nós não podemos escancarar as portas do Brasil para tudo quanto é tipo de gente. Isso vai virar a casa da mãe Joana”.

Em 23 de agosto 2018, durante ato de campanha na cidade de Araçatuba, no interior paulista, Bolsonaro discursou em cima de um carro de som, condenando organizações que defendem direitos humanos. Segundo o então candidato, esses movimentos prestam um “desserviço para o Brasil” e, por isso, não merecem repasse de dinheiro do governo.

Em dezembro de 2016, Bolsonaro criticou o projeto do Estatuto da Migração, que regulamenta a entrada e permanência de migrantes e visitantes no Brasil. Para Bolsonaro, os imigrantes são uma ameaça à segurança nacional, porque “o comportamento e a cultura deles é completamente diferente da nossa”.

Já o regime de Hitler, na Alemanha, representou uma das maiores e mais sistemáticas violações dos direitos humanos da história da humanidade. Sob seu comando, o Estado alemão institucionalizou o preconceito, a discriminação e o extermínio em massa através de teorias de supremacia racial.

INIMIGOS INTERNOS COMO CAUSA UNIFICADORA

“Vamos unir o Brasil pela vontade de nos afastarmos de vez do socialismo, do comunismo, nos vermos livres desse fantasma do que acontece na Venezuela”.

Em uma transmissão ao vivo em sua página no Facebook, no dia 6 de outubro, véspera do primeiro turno das eleições, Bolsonaro afirma que os partidos da esquerda brasileira encarnam o “socialismo e o comunismo”, trazendo à memória a triste lembrança do lema do campo de concentração mais letal do nazismo, Auschwitz, que trazia em seu portão de entrada os dizeres: Arbeit macht frei [O trabalho liberta]

Ódio às mulheres

“Jamais iria estuprar você, porque você não merece”.

A frase foi dita por Bolsonaro em 2003, direcionada à deputada federal Maria do Rosário, nos corredores da Câmara dos Deputados. O candidato ainda empurrou a deputada, ameaçando dar uma “bofetada” nela e chamando-a de “vagabunda”. Em 2014, Bolsonaro repetiu a ofensa à deputada, dessa vez, em discurso no plenário da Câmara do Deputados. Pela ofensa, o candidato foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a pagar indenização de R$ 10 mil à Maria do Rosário.

Na Alemanha de Hitler, as mulheres foram amplamente afastadas de cargos públicos, do judiciário, da medicina e de posições de liderança dentro do próprio Partido Nazista. Hitler afirmava que o mundo da mulher era a família, enquanto o do homem era o Estado e a luta.

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

“Nós somos um país cristão! Deus acima de tudo. Essa historinha de Estado Laico, não! É Estado cristão! E as minorias que se curvem!”

Em discurso em cima de um carro de som em Campina Grande, na Paraíba, em fevereiro de 2017, Bolsonaro afirmou que aqueles que acreditam em Deus são a minoria da população e, por isso, devem “se curvar” ao Estado cristão.

Agora, recentemente, o bolsonarismo patrocinou a apresentação de um projeto retirando de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, certamente por ser a única santa negra reconhecida pela Igreja Católica.

Já o regime nazista de Adolf Hitler promoveu perseguições sistemáticas motivadas por racismo ideológico e intolerância religiosa, resultando no assassinato de milhões de judeus e na repressão de grupos cristãos dissidentes.

REVERÊNCIA AO CAPITAL, ESPECIALMNTE AO GRANDE CAPITAL, E ATAQUES AOS DIREITOS TRABALHISTAS

“Hoje em dia é muito difícil ser patrão no nosso país”.

“Um dia o trabalhador vai ter que decidir: menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego“.

Em entrevista no Programa do João Kleber, em agosto de 2016, Bolsonaro criticou os direitos trabalhistas e falou que o sistema trabalhista brasileiro “é paternalista demais”.

Embora o programa (de 1920) do Partido Nazista contivesse elementos anticapitalistas, na prática, ao chegar ao poder, Hitler fez uma aliança com as grandes corporações econômicas privadas e os bancos, que sustentaram seu governo e sua sanha agressora durante a 2ª Guerra Mundial.

ÓDIO ÀS ARTES E AOS ARTISTAS

“Já está feito, já pegou fogo. Quer que eu faça o que?”

Essa foi a frase de Bolsonaro, em coletiva de imprensa, após o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro. Bolsonaro também criticou a verba governamental destinada à cultura, dizendo que “não falta dinheiro para quermesse e negócio de homem nu” [em alusão à performance de Wagner Schwartz, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), apresentada em setembro de 2017]. Não por motivo, Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, criando uma pasta subordinada ao Ministério da Educação que, se pudesse, extinguiria também.

Por sua vez, Hitler chamou de “degenerados” os artistas que não se identificam com o nazismo. Livros foram queimados, telas modernas foram confiscadas ou destruídas e a criatividade livre foi substituída pela idolatria ao nazismo.

NEPOTISMO E CORRUPÇÃO 

“Não vem me rotular de corrupto aqui, não”.

Em entrevista ao comentarista da Jovem Pan, Marco Antonio Villa, em maio de 2017, Bolsonaro tenta negar o recebimento de R$ 200 mil em propina do grupo JBS, afirmando que devolveu o dinheiro para o partido. Também apareceu na “Lista de furnas” acusado de receber propina e é reconhecido por passar para os filhos a prática da “rachadinha” quando exerceu mandatos de deputado. Nepotismo também é outra marca do clã, com a recorrente contratação de parentes e milicianos que integram a grande famiglia. As “relações tenebrosas”, como denunciou o presidente Lula, entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro e presidiário Daniel Vorcaro , chamado de “irmão” pelo candidato, que buscam sofregamente ocultar, é outra faceta da podridão bolsonarista.

Da mesma forma, Hitler dissimulava o combate à corrupção e ao nepotismo. Embora a propaganda nazista promovesse uma imagem puritana e implacável contra privilégios ilegítimos da antiga República de Weimar, o Terceiro Reich operava sob uma estrutura profundamente corrupta, sustentada por privilégios pessoais, favorecimento de aliados (nepotismo) e subornos institucionais institucionalizados a partir do topo do poder.

Como se vê, se o cabo tivesse lido os livros certos, talvez estivesse do lado correto da história e não a falsificaria tão grosseiramente, como reconheceria as trágicas e irrefutáveis semelhanças políticas e ideológicas, consideradas as devidas circunstâncias históricas no tempo e no espaço, entre o nazismo e o bolsonarismo.

MARCO CAMPANELLA

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Fonte: Hora do Povo

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