Um novo sentido para a lucidez
Por Iuri Tonelo — Esquerda Diário

Todos os trabalhadores e jovens com algum nível de criticidade sobre a situação do capitalismo contemporâneo receberam com desgosto o resultado das eleições no Brasil, uma vitória expressiva da extrema-direita no executivo e no congresso. O tamanho da derrota, no entanto, fez questionar os lugares comuns da lucidez.
Particularmente uma ideia se pôs a prova: em 2022, mesmo os com perspectiva radical, socialista, haviam de pensar com sabedoria e resiliência. O raciocínio: com um cenário tão difícil, não havia outra possibilidade a não ser se aliar a direita para combater o neofascismo. Foi a novidade da frente ampla, escancaradamente ampla, mas que defenderia a democracia. Existia outro caminho? Sim, manter coerência programática e estratégica, e acumular forças na sociedade diante do que se constituía. Mas a nova proposta era que junto a (neo)liberais no congresso, “alas democráticas” no STF e demais instituições, “a democracia venceria a barbárie”.
Era dita a análise lúcida, que reconhece a correlação de forças e age para evitar o pior. O problema da história é que ela cobra com seu balanço, e não cobra como um embate escolástico de ideias, mas com a realidade. O resultado foi um fortalecimento expressivo da extrema-direita em 2026, um fortalecimento categórico, que não deixa margem para dúvidas sobre o balanço.
Certamente há fatores a se considerar. Estamos em uma eleição com ingerência histórica de Trump e sua doutrina Donroe, que passa por taxações, ameaças, acordos com empresários, ação algorítmica das big techs (que temos inclusive dificuldade de dimensionar, precisamos investigar melhor). Mas essas iniciativas, tais como estão sendo feitas aqui, agem como catalizadores, não definem tudo.
Há a explicação técnica: comunicação, falta de habilidade nas redes, falta de construção midiática, falta de capacidade do povo de votar (essa inclusive é bem antiga, culpar o povo). Dos aspectos de comunicação, há que se analisar os deputados mais votados, todos com perfil jovem e bem articulados nas redes, indica que sim é um tema relevante. Mas não existe separação entre as melhorias técnicas e comunicativas e a….política.
Isso leva a pensar onde está ancorado o enraizamento da extrema-direita. Os fatores decisivos são, antes de tudo, materiais: a força no agronegócio, em instituições religiosas, milícias (e organismos de repressão) e, sobretudo, na capacidade que tiveram de angariar um setor trabalhador arrasado com a precarização do trabalho. Cada jovem que se esfola para trabalhar no sol e na chuva em cima de bicicletas ou para vender produtos no Instagram, sem férias, sem descanso, sem sábado e domingo, sem décimo terceiro, sem auxílio saúde, é alvo da política neoliberal da direita e dos valores reacionários, de soluções radicais contra “tudo que está aí”. Alguns setores de trabalhadores de app, sindicato, intelectuais e juristas compreenderam isso e enfrentam firme a regulamentação da uberização, contra a terceirização, propondo a luta por mais plenos direitos para os trabalhadores, uma batalha estratégica nesses anos. Existe uma disputa pela esquerda dessa fração da classe, e é decisivo unificar a classe trabalhadora e lutar por seus direitos, mas essa política se restringiu a uma vanguarda.
Não despropositada a ênfase sobre os efeitos da obra econômica do golpe institucional e sua importância. Nós insistimos muitas vezes que se mantivéssemos a reforma trabalhista, previdenciária e o teto de gastos (arcabouço fiscal) de Michel Temer estaríamos fortalecendo a extrema-direita. E sem recolocar o programa da reforma agrária, programa histórico defendido por qualquer progressista nos anos 1980, não barraríamos as bases da fascistização no campo. Sem falar de uma reforma urbana radical, retomando as demandas de junho, de saúde, educação, transporte, não conseguiríamos debater contra o programa insistente de “segurança” da direita. Sem falar de dívida pública, seria difícil falar em soberania e enfrentar a financeirização imperialista e seu extrativismo no Brasil.
O projeto do PT nas últimas décadas tem sido administrar o capitalismo brasileiro com um reformismo sem reformas, com a esperança (ou falsa ilusão) que com uma melhor administração do arcabouço fiscal e o tripé macroeconômico neoliberal, progressivamente, a correção de forças vai melhorando. Essa estratégia falhou, é inegável.
Por isso, insistimos que pensar todos as melhorias táticas (incluindo a comunicação, mundo digital etc) por fora da política, da estratégia, do programa, é um erro primordial. A luta contra a escala 6×1 mostrava que um programa correto poderia penetrar no coração da sociedade e do mundo do trabalho, e mudar a correlação de forças. Os métodos clássicos de luta da classe teriam sido decisivos para sua aprovação (mas se insistiu na boa vontade da direita no congresso, e agora já estamos no segundo turno).
Feito o balanço, a pergunta histórica reaparece. Que fazer?
Nos próximos dias estar na linha de frente de enfrentar Flavio Bolsonaro e seu programa e lado a lado com todo jovem e trabalhador para debilitar o máximo a força da extrema-direita até o fim das eleições.
Mas também creio que se abre um período refletir e buscar de agarrar as coisas pela raiz, uma reflexão de mais folego. Abrir um sério debate político, programático e estratégico.
Sobre o último ponto, iniciar por travar um balanço definitivo sobre o rotundo fracasso da estratégia da frente ampla, que chegou a fazer que socialistas vissem em ministros neoliberais do STF um ponto de apoio (!). Ponto dois, começar imediatamente uma campanha pelo fim da escala 6×1, envolvendo sindicatos, auto-organização dos trabalhadores, com agitação nas redes, mas também com os decisivos atos de rua; ponto 3, retomar o debate programático, que inclui pensar todas as formas digitais criativas de comunicar, isso é importante, mas que tenham como premissa atacar as bases materiais da extrema-direita; por isso voltar a reforma agrária e urbana radicais, questionamento da dívida pública fraudulenta e embate com sistema financeiro; e o decisivo combate contra a precarização do trabalho. Um diálogo com a juventude mais estrutural sobre a opressão que vivem as mulheres, negros LGBTs, mostrando as raízes no patriarcado e racismo perpetuados cotidianamente pelo sistema.
E toda crise é assim: desvela as verdadeiras relações. Não é fácil fazer o balanço do que se passou, das ilusões perdidas. Mas toda crise abre a possibilidade do novo. E o novo sentido da lucidez é voltar a radicalidade de nossas paixões mais profundas, de mudar esse sistema, de não se conformar com a exploração, com as opressões, com a violência estatal, de não se resignar. Isso exige militância. Abre a janela e respira, olha pro lado, lutas importantes na Bolívia, jovens lutando hoje na França. Como dizia o poeta, o tempo não para.
E vale terminar com o seguinte. Toda e todo trabalhador e jovem da vanguarda, todos os que se comoveram com as possibilidades da transformação socialista, é o momento de sustentar um olhar sério para aqueles que nos requisitavam paciência, resiliência, conciliação. Convidar à luta, enfrentar a resignação. A juventude particularmente esta convocada a “sacudir as vestes poeirentas de nossos dias”. Sem perder de vista as belas tradições, afinal, fazendo um trocadilho de sentido com a música e assumindo seu sentido de luta, podemos dizer que “quando a lucidez aninhar, pode deixar. Quando a solidão apertar, olho pro lado, estarei por lá”.
Fonte: Esquerda Diário