Quem lhes deu esse poder? As eleições também foram disputadas no Vale do Silício
Por El sovietista — Esquerda Diário

Meta, X, TikTok, Google e, agora, também os sistemas de IA concentram um poder crescente sobre a circulação de informações políticas. As eleições brasileiras de 2026 mostraram mais uma vez até que ponto algoritmos, publicidade segmentada e plataformas privadas podem interferir no debate público. Pode haver plena soberania política se a infraestrutura por meio da qual uma sociedade se informa, debate e forma opinião é controlada a partir do Vale do Silício?
Durante décadas, quando se falava em interferência estrangeira em uma eleição, pensava-se em financiamento clandestino, operações de inteligência ou pressão diplomática. Sem dúvida, isso ainda existe, basta observar a ajuda financeira de Trump e Bessent a Milei no ano passado, mas hoje existe também outra camada de poder: a da infraestrutura digital por meio da qual milhões de pessoas se informam, debatem política e formam opinião.
A Meta (que engloba Facebook, Instagram e WhatsApp), o X (antigo Twitter, comprado por Elon Musk), o TikTok e o Google (que, além do buscador, detém o YouTube, o Gemini e outras plataformas) não são simples canais neutros. Seus sistemas decidem o que aparece primeiro, o que é recomendado (e o que sofre shadowban), qual publicidade pode circular e, inversamente, qual conteúdo é moderado. E, com a ascensão da inteligência artificial, essas plataformas começam também a responder diretamente a perguntas sobre candidatos, propostas e legitimidade eleitoral.
As eleições de domingo no Brasil nos permitem visualizar esse poder com bastante clareza.
Meta, o bloqueio e a desinformação que passa pelos filtros
Em 23 de setembro, a Meta suspendeu, sem explicação pública, a conta de anúncios da campanha de Lula no Facebook. Embora tenha restabelecido a conta no mesmo dia, o episódio evidenciou como uma decisão tomada dentro da plataforma poderia impedir — ainda que por algumas horas — que uma campanha presidencial comprasse publicidade na reta final da eleição.
Por outro lado, vieram à tona dois experimentos independentes sobre os mecanismos de controle da Meta.
A organização britânica Ekō criou 15 anúncios que violavam as normas eleitorais brasileiras e os submeteu ao processo habitual de aprovação do Facebook e do Instagram. A Meta aprovou 13 deles, ou seja, 87% do total.
Entre os anúncios aprovados, havia uma imagem gerada por IA do presidente do Tribunal Superior Eleitoral anunciando falsamente uma mudança na data das eleições. Outra mostrava Donald Trump ao lado de Flávio Bolsonaro com o slogan “vote em Flávio”; uma terceira afirmava falsamente que as seções eleitorais estariam fechadas; e outra convocava a “retomar Brasília”, em referência ao 8 de janeiro.
Como se isso não bastasse, havia outra irregularidade: os anúncios foram carregados a partir de uma conta sediada nos Estados Unidos — prática proibida para a propaganda eleitoral brasileira —, e as imagens sintéticas também não continham a identificação obrigatória de conteúdo gerado por inteligência artificial.
O outro experimento foi realizado pela Anistia Internacional, que obteve resultados semelhantes ao criar 15 anúncios em português brasileiro: 14 continham desinformação eleitoral e um era neutro. Oito dos anúncios falsos foram aprovados.
Inclusive, três de quatro anúncios com retórica militar golpista passaram pelo sistema de moderação. Assim como a Ekō, a Anistia programou os anúncios para uma data futura e os cancelou antes que pudessem ser vistos por usuários reais.
A isso soma-se o papel do WhatsApp, também de propriedade da Meta. O UOL Confere monitorou, desde 27 de setembro, grupos vinculados às estruturas digitais das campanhas e encontrou pelo menos dez conteúdos falsos difundidos pela rede “Direita Já” — ligada ao PL e utilizada pela campanha de Flávio Bolsonaro —, em comparação com um caso detectado na plataforma “Pode Espalhar”, ligada ao PT. A rede bolsonarista reunia cerca de 900 grupos com aproximadamente 900 integrantes cada um — um alcance potencial próximo de 810.000 pessoas —, e as próprias mensagens incentivavam os usuários a redistribuir o conteúdo.
X, TikTok e o algoritmo de recomendação
Para evitar que os algoritmos concedessem vantagens arbitrárias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) brasileiro determinou que as plataformas excluíssem as contas oficiais de candidatos de seus sistemas de recomendação orgânica.
Uma investigação da Folha e do Sleeping Giants Brasil revelou que o X não havia aplicado corretamente esse filtro e que mais de 1.400 perfis continuavam sendo recomendados, entre eles o de Alfredo Gaspar, vice de Flávio Bolsonaro.
O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, detectou um fenômeno semelhante no TikTok. Os pesquisadores criaram quatro perfis experimentais com orientações políticas diferentes e observaram, durante três dias, o que o feed “Para Você” recomendava a eles.
Encontraram 24 vídeos provenientes de 11 contas oficiais de candidatos, apesar da proibição do TSE. Flávio Bolsonaro apareceu cinco vezes, embora Lula e candidatos de outros espectros políticos também tenham sido recomendados.
Com exceção de um caso, as recomendações coincidiam com a orientação política com a qual cada perfil experimental havia sido previamente treinado. O algoritmo oferece continuamente informações compatíveis com o que o usuário já pensa, e toda a maquinaria da extrema direita para disseminar informações falsas e gerar interação surte efeito.
A nova e cada vez mais flexível política de ética do Google e o uso de IA em eleições
Nas eleições de 2022, o YouTube proibia explicitamente afirmar falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras haviam sido hackeadas para alterar votos. No entanto, em 2026, essa proibição específica desapareceu de seus termos de uso. Em um país onde as acusações sem provas contra as urnas eletrônicas estiveram no centro da crise política pós-eleições de 2022, a mudança não é irrelevante.
Outro aspecto relevante das novas campanhas eleitorais diz respeito aos chatbots utilizados para consultar opiniões, posicionamentos e a veracidade de informações.
O InternetLab, o LabDados/FGV e a Rede Conhecimento Social realizaram 1.920 conversas experimentais com oito sistemas de IA generativa, incluindo ChatGPT, Gemini, Claude, Grok, Meta AI e DeepSeek.
Na rodada realizada entre 19 e 23 de setembro, o Gemini, do Google, classificou candidaturas em 64% das conversas do eixo “votos e candidaturas” e chegou a sugerir uma candidatura em 68% delas.
Além disso, em 25,8% de suas conversas surgiram argumentos que poderiam contribuir para deslegitimar o resultado eleitoral antes mesmo da votação. Esse índice foi quase o dobro do registrado pela Meta AI, a segunda colocada nesse indicador, com 12,5%.
Até poucos anos atrás, discutíamos: que informações um algoritmo nos recomendava? Agora, precisamos acrescentar a essa discussão a pergunta sobre o que acontece quando um eleitor pergunta diretamente a uma máquina: em quem devo votar?
Isso não começou no Brasil, embora venha se aprofundando cada vez mais
O precedente inevitável é a Cambridge Analytica. A Federal Trade Commission dos EUA concluiu que a empresa utilizou práticas enganosas para obter informações pessoais de dezenas de milhões de usuários do Facebook, visando à criação de perfis e à segmentação de eleitores.
Os dados obtidos por meio de um aplicativo não se limitaram àqueles que haviam concordado em utilizá-lo: também foram coletadas informações de dezenas de milhões de seus contatos. Posteriormente, esses dados foram combinados com registros eleitorais para desenvolver perfis e serviços de publicidade política direcionada.
A Cambridge Analytica demonstrou, logo no início, o enorme poder dessas plataformas digitais, que concentram uma quantidade colossal de dados, algoritmos de recomendação e bilhões de usuários passíveis de manipulação.
Mas, desde então, esse poder se multiplicou. Já não falamos apenas de microtargeting; as grandes plataformas controlam simultaneamente a publicidade, a moderação, a recomendação algorítmica e, cada vez mais, as interfaces de inteligência artificial por meio das quais buscamos informações.
Soberania em tempos de plataformas digitais?
Que fique claro: não estamos dizendo que a eleição foi definida no Vale do Silício. Nas eleições passadas, Lula formou uma ampla frente eleitoral do “mal menor”, o que resultou em um governo impotente que sequer reverteu a reforma trabalhista de Bolsonaro, entre muitos outros fatores. Mas é inegável o nível de ingerência imperialista exercido pelas empresas de tecnologia.
Um pequeno grupo de corporações privadas, majoritariamente estadunidenses, administra uma parte central da infraestrutura sobre a qual se constrói a opinião pública de outros países. Seus sistemas podem determinar o que é recomendado, o que é amplificado, qual publicidade é aceita, o que é removido e, agora, também qual resposta uma pessoa recebe ao consultar uma inteligência artificial sobre política.
Essa concentração nada mais é do que uma nova forma de invasão da soberania por meio do controle das infraestruturas indispensáveis para a circulação de informações.
Pode existir plena soberania política se a infraestrutura pela qual uma sociedade se informa, debate e forma opinião é controlada a partir do Vale do Silício?
Diante dessa ingerência imperialista, a resposta passa por recuperar a soberania sobre nossas infra estruturas, recursos e tecnologias, e por construir uma força social organizada capaz de disputar o poder hoje concentrado nas grandes corporações e nas potências que as apoiam.
Fonte: Esquerda Diário