Uma vez mais
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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O que se faz necessário é começar a campanha colocando nossas ambições em outro patamar, fazendo a sociedade sonhar com o que ainda não foi feito
A política é o espaço no qual o impossível, muitas vezes, ocorre. A ação humana, quando portada pelo entusiasmo e disciplina, pode modificar as condições e os limites do que somos capazes de fazer. A história é cheia de exemplos dessa natureza. Várias situações nas quais o tamanho da tarefa parecia intransponível, nas quais nossa força parecia sem medida em relação aos nossos inimigos, terminaram por produzir vitórias que iam contra todas as previsões. Ninguém sabe o que pessoas portadas pela consciência profunda de lutar pela sua liberdade, impulsionadas pela fidelidade inquebrantável em fazer avançar seu desejo de emancipação, são capazes de produzir. Mesmo nas piores condições.
Digo isso porque estamos seguramente diante do momento mais dramático da história brasileira neste século. Poderia tentar descrever o que significa para nós, para nossas filhas e filhos, um segundo governo Bolsonaro, e seria ainda uma descrição aproximada. Nunca as bases mais autoritárias da sociedade brasileira foram legitimadas dessa forma, em eleições livres, com maioria eleita no Congresso e diante da possibilidade de reconstruir por completo os quadros do STF.
A violência social a ser liberada é algo que não temos condição de imaginar, as montanhas de cadáveres em favelas em nome da “guerra contra o tráfico” feita por frequentadores de orgias do Vorcaro, a liberação das milicias como forma de organização da sociedade, a perseguição e desaparecimento como arma política, a criminalização brutal de todo e qualquer movimento social. Nossas cidades mais uma vez respirarão as cinzas das grandes queimadas. Quando o pior não tem mais barreiras, nossa imaginação é fraca para imaginar até onde ele pode chegar.
Ou seja, a análise correta seria: voltamos a 1964, mas sem a necessidade de colocar tanques na rua. Um governo Bolsonaro seria um 1964 sem tanques, mas com a mesma brutalidade. Pois foram dos porões da ditadura militar que eles vieram, foram dos esquadrões da morte que nasceram suas milícias. Esse projeto de poder é novamente um projeto de vinte anos. Isso mostra a grandiosidade de nossa tarefa atual: parar a noite mais escura com a força do nosso entusiasmo militante, calar a pior catástrofe com nosso desejo de não sermos massacrados.
Essa tarefa exige organização política espontânea. Pois nunca é demais insistir: quem ganha eleição não é diretor de marketing, estrategista ou mesmo candidato. Quem ganha eleição é o eleitor. É ele quem sai à rua para tentar virar voto, bater na porta do vizinho, discutir em todos os espaços possíveis. No entanto, o eleitor de esquerda, no primeiro turno, estava submerso na apatia, sem entusiasmo algum. E não era para tanto.
Há de se falar as coisas de forma franca. Nunca se viu uma campanha tão despolitizada, envelhecida e equivocada. Recusando-se a debater, em uma inversão completa de sinais. Houve tempo em que a esquerda podia debater em modelo “um contra vinte” e conseguia, pela força de seus argumentos, calar os vinte. No entanto, o que se viu foi uma campanha baseada na crença de que o gerenciamento de escândalos poderia desgastar Bolsonaro. Mas já está claro que seus eleitores podem ouvir seu candidato pedir 80 milhões para Vorcaro e isso não fazer diferença alguma. Ou seja, ganhar exige uma revisão radical de rumo.
Vamos lembrar o que aconteceu nas eleições que a esquerda venceu nesses últimos tempos. Um exemplo robusto vem do lugar mais improvável do mundo, a saber, Nova York. Um candidato a prefeito que dizia em alto e bom som ser socialista, ser muçulmano e que apresentava propostas ousadas que tocavam os problemas que seus eleitores vinham como centrais, tais como preços de alugueis e custo de vida. Mandami ganhou prometendo congelar alugueis (que prefeito de esquerda no Brasil fez isso?) e criar supermercados populares onde os nova-iorquinos podiam fazer suas compras com 30% de desconto. Essas foram as primeiras ações de seu governo, o que lhe granjeou 69% de aprovação popular. O que temos aqui? Propostas ousadas que tocam diretamente as principais preocupações da população e aplicadas nos primeiros meses de governo. Isso em um lugar onde a correlação de forças sempre será desfavorável, onde os lobbys mais sinistros atuam com força.
É algo semelhante que se espera de um governo de esquerda neste momento. Qualquer ideia estapafúrdia de tentar “conquistar o centro” ou recuperar eleitores de Bolsonaro será suicida. Os eleitores de Flávio Bolsonaro não são tontos, eles sabem muito bem a escolha que fizeram. Há um calculo racional catastrófico a sustentar suas escolhas, catastrófico mas racional. Eles admitem que não há sociedade para todos e que quanto menos políticas públicas e impostos, mais cada um poderá individualmente tentar sobreviver por alguma forma de milagre ou empreendedorismo (o que é basicamente a mesma coisa). Eles não são necessariamente fascistas, mas entendem como racional escolher um candidato fascista. Não se trata de uma proposição de identificação (quantas vezes nós mesmos votamos em pessoas com as quais não nos identificamos, mas julgamos o mal menor?), mas de um cálculo pragmático. Esse cálculo não será mudado em três semanas.
No entanto, há 30 milhões que pessoas que se abstiveram e esse deve ser o eixo principal de combate. Essas pessoas não se convenceram de nenhuma das duas propostas na mesa, sua insatisfação não foi ouvida por ninguém e são elas que podem agora nos salvar de sermos empurrados para a noite mais escura de nossas vidas.
Há 25 anos, Lula apresentou a Carta ao povo brasileiro que, infelizmente, era uma carta ao sistema financeiro, prometendo que saberia negociar com suas exigências. Agora, essa campanha precisa começar com uma nova Carta ao povo brasileiro, mas desta vez direcionada para essas pessoas que não se deixaram tocar por nenhuma alternativa. Se elas não votaram agora em Lula é por acharem seu governo ruim. Não se trata de tentar convencê-las de que muita coisa foi feita porque elas passaram quatro anos sem perceber isso. E isto não é um problema de comunicação, mas de uma limitação real das políticas do governo.
O que se faz necessário é começar a campanha colocando nossas ambições em outro patamar, fazendo a sociedade sonhar com o que ainda não foi feito. Como se agora se abrisse um novo ciclo de políticas. Ah, mas como aprovar isso com um Congresso que parece ter saído diretamente dos últimos ciclos do inferno de Dante, permeado de psicopatas, escroques e arruaceiros juvenis? Essa não é a questão. A questão é fornecer para a esquerda um horizonte ousado e robusto pelo qual lutar. Um povo mobilizado quebra Congressos, dobra mediações institucionais apodrecidas e impõe uma dinâmica de lutas que, ao fim, permite a realização de sua vontade. Mas, para isso, é necessário querer vencer, ao invés de ficar à procura de mais uma desculpa para nossa própria impotência.
Mesmo se perdermos desta vez, fará muita diferença se perdermos de pé ou completamente prostrados. Pois as estruturas e dinâmicas de nossas lutas futuras começarão a serem definidas agora, nessas próximas semanas. A história conhece várias derrotas que se tornaram posteriormente vitórias que nos transformam. Podemos muito bem repetir tal história, uma vez mais.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Vladimir Safatle
Filósofo, psicanalista, professor da USP, músico e ativista
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Fonte: Carta Capital