Aliados tentam animar Lula, mas reunião expõe falta de rumo da campanha petista

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Por Fabio MuraKawa — JOTA

A reunião convocada pelo presidente Lula (PT) na noite desta segunda-feira (5/10) serviu para levantar o ânimo de uma campanha abatida pelo resultado das urnas, mas terminou sem produzir uma mudança de rumo proporcional ao tamanho do problema. Governadores, dirigentes partidários e aliados falaram em buscar votos no Nordeste, aumentar os ataques a Flávio Bolsonaro (PL) e mudar a abordagem da comunicação. Houve também uma dose de teatro político. Diante do presidente, prevaleceram discursos firmes e otimistas. Fora dali, a avaliação de parte dos participantes é bem mais preocupante.

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O encontro contrastou com a reunião virtual realizada na madrugada de domingo para segunda-feira, marcada pelo abatimento diante do resultado das urnas. Desta vez, governadores e dirigentes procuraram convencer Lula de que há jogo a ser jogado. A meta é levar o presidente, no mínimo, ao desempenho do segundo turno de 2022.

Os governadores petistas reeleitos Jerônimo Rodrigues (BA), Elmano de Freitas (CE) e Rafael Fonteles (PI), além do presidente do PSB, João Campos, sustentaram que ainda há votos a buscar no Nordeste. Vários deles estavam envolvidos em disputas locais difíceis e argumentaram que agora poderão concentrar suas estruturas na reeleição do presidente.

A matemática, porém, ajuda a dimensionar a dificuldade. Lula recebeu 53,88 milhões de votos no domingo, contra 57,26 milhões no primeiro turno de 2022. Há quatro anos, cresceu para 60,35 milhões no segundo turno. Para apenas recuperar a votação com que derrotou Jair Bolsonaro, portanto, terá de acrescentar quase 6,5 milhões de votos aos que recebeu agora — boa parte deles dedicada a candidatos do espectro da direita no primeiro turno. Flávio Bolsonaro, por sua vez, já começa a disputa com 56,1 milhões.

Uma das apostas é reduzir a abstenção. Cerca de 33,4 milhões de eleitores não votaram no domingo, 21,08% do eleitorado, ligeiramente acima dos 20,95% do primeiro turno de 2022. No Nordeste, justamente onde a campanha enxerga uma de suas principais reservas de votos, a abstenção foi menor, de 18,15%. Em 2022, havia sido de 19,53%. Há espaço para Lula crescer em seu principal bastião, portanto, mas menos votos disponíveis simplesmente pela mobilização de quem ficou em casa.

Fernando Haddad citou sua própria candidatura presidencial de 2018 como exemplo de que é possível crescer fortemente entre os dois turnos. Haddad saiu da primeira votação com 31,34 milhões de votos, ou 29,28% dos válidos, e chegou a 47,04 milhões no segundo turno, ou 44,87%. Foram quase 15,7 milhões de votos adicionais em apenas três semanas. A recuperação, porém, não foi suficiente para alcançar Jair Bolsonaro, que venceu com 57,8 milhões de votos.

Campanha do ‘medo’ e ataques a Flávio

A estratégia que começou a ser desenhada tem como um dos eixos “desnudar” Flávio Bolsonaro. A ideia é aumentar a carga de ataques e explorar seus muitos telhados de vidro. O outro movimento é abandonar parte da lógica de simplesmente vender as realizações do governo e explorar o medo de perdê-las.

A avaliação é que programas já arraigados na vida da população passaram a ser vistos como direitos e, por isso, rendem menos votos de gratidão a Lula. Em vez de apenas dizer o que fez, a campanha pretende alertar para o que poderia desaparecer num governo Flávio. Pé-de-Meia, Farmácia Popular, valorização do salário mínimo e obras de infraestrutura deverão ser usados nessa lógica. 

O segundo turno tende, assim, a ter uma comunicação mais negativa, baseada na desconstrução do adversário e no risco de perda de políticas públicas.

Ajustes na comunicação

Haverá ajustes, mas não uma revolução na campanha. O ministro da Secretaria de Comunicação (Secom), Sidônio Palmeira, foi alvo de críticas e permanecerá na cúpula. Mais gente, porém, passará a opinar. É o caso de Otávio Antunes, marqueteiro de Haddad, que coversou com Lula na segunda-feira, antes do encontro com os aliados. Antunes é bem avaliado por uma ala do entorno presidencial, mas enfrenta resistências de quem aponta o desempenho abaixo do esperado de Lula e Haddad em São Paulo no primeiro turno.

Lula também decidiu fazer mais programas de rádio para falar diretamente com a população. As jovens deputadas Camila Jara, reeleita pelo PT em Mato Grosso do Sul, e Luna Zarattini, eleita por São Paulo, deverão ganhar espaço nas redes. João Campos e Rafael Fonteles defenderam um trabalho digital mais segmentado, com mensagens específicas para diferentes grupos do eleitorado.

Otimismo na sala, preocupação fora dela

Nada disso, porém, dissipou a impressão de desorganização deixada pelo choque de domingo. Alguns aliados saíram da reunião impressionados com a falta de rumo. Houve muitas intervenções, sugestões e demonstrações de disposição para a batalha, mas pouco planejamento estruturado sobre como transformar tudo isso numa estratégia para as próximas três semanas.

Parte do otimismo teve caráter performático. Políticos procuraram mostrar confiança diante de Lula, embora alguns deles façam avaliações muito mais sombrias quando estão longe do presidente. 

Preocupação com Lula

A preocupação central é justamente com Lula. Ele ouviu bastante durante a reunião, mas há auxiliares convencidos de que ainda não compreendeu a gravidade do resultado. Nas palavras de um ministro, o presidente não entendeu “a dimensão da tragédia”.

Há também a percepção de que Lula enxerga o revés sobretudo como um problema de comunicação. Essa leitura inevitavelmente empurra a crise para o colo de Sidônio Palmeira. Para esses aliados, o problema é maior e exigiria um chacoalhão que Lula historicamente resiste a dar. O presidente parece acreditar que parte das dificuldades se resolverá naturalmente quando ele próprio entrar com mais intensidade na campanha.

Sem sinalização ao mercado

A mesma cautela vale para a economia. A lguns aliados defendem um gesto forte na área fiscal e receberam com entusiasmo o rumor de que Lula poderia anunciar Geraldo Alckmin como futuro ministro da Fazenda, em uma sinalização positiva ao mercado. Não há, porém, qualquer movimento concreto nessa direção. A hipótese expressa mais o desejo de uma parcela da base por um fato político de impacto do que uma decisão em discussão pelo presidente.

Lula saiu da reunião com uma campanha mais animada, mas não necessariamente mais organizada. Há votos a buscar no Nordeste, eleitores a retirar da abstenção, políticas públicas a defender e um adversário a atacar. 

O problema é que, diante de uma diferença de quase 6,5 milhões de votos entre o resultado de domingo e a votação que o elegeu em 2022, ideias gerais talvez não resolvam o problema. E foi essencialmente com elas que a reunião terminou.

Fonte: JOTA

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