O capital existe. Agora, a transição climática precisa sair do papel
umsoplaneta

Depois de alguns dias acompanhando as discussões da Climate Week em Nova York, uma percepção se tornou particularmente clara: a agenda climática entrou em uma nova fase. O principal desafio já não está em formular compromissos sobre redução de emissões de gases de efeito estufa, mas em encontrar os meios econômicos, regulatórios e financeiros para transformá-los em realidade.
A pergunta que ganhou espaço nas conversas da Semana do Clima de Nova Iorque deste ano foi: “E então, como fazer acontecer?”. Como transformar compromissos em projetos financiáveis, como criar indicadores capazes de demonstrar resultados, como mobilizar capital privado, estruturar mecanismos de mercado e assegurar previsibilidade suficiente para investimentos que, muitas vezes, precisam de décadas para maturar?
Por isso, competitividade industrial, segurança energética, minerais estratégicos, preço do carbono, escalabilidade dos projetos e custo de capital passaram ao centro da agenda climática.
Durante muitos anos, nossa participação na agenda internacional do clima foi analisada principalmente a partir dos desafios ambientais. Mas existe outro lado dessa equação: poucos países reúnem simultaneamente uma matriz elétrica majoritariamente renovável, disponibilidade de recursos naturais, base mineral estratégica, capacidade industrial e conhecimento técnico capazes de sustentar parte importante da transição para uma economia de baixo carbono, como é o caso do Brasil.
A questão é como transformar esses diferenciais potenciais em vantagem econômica real, pois dispor somente dos recursos não basta. É preciso processá-los, industrializá-los, desenvolver cadeias produtivas, incorporar tecnologia e gerar valor no próprio país. Essa discussão apareceu com força em Nova York, especialmente quando se falou de minerais estratégicos. Na nova economia, a competitividade estará na capacidade de transformar recursos em materiais e soluções para eletrificação, armazenamento de energia, infraestrutura e digitalização.
O mesmo vale para a energia. A disponibilidade de fontes renováveis é uma vantagem importante do Brasil, mas a discussão sobre segurança energética depende também de confiabilidade, diversidade, previsibilidade de fornecimento e preço.
Setores como os de metais estratégicos, e mineração estarão no centro da construção da infraestrutura necessária à transição. Ao mesmo tempo, estarão cada vez mais expostos a exigências relacionadas à intensidade de carbono de seus produtos.
Por isso, mecanismos como o CBAM europeu e o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões passam a fazer parte não apenas da política ambiental, mas também das discussões sobre indústria, comércio e acesso a mercados.
O Artigo 6 do Acordo de Paris segue a mesma direção. Se bem estruturado, pode direcionar recursos para projetos de redução de emissões em países em desenvolvimento e contribuir para financiar parte da transição. Para isso, serão necessárias integridade ambiental, regras claras e métricas confiáveis e desburocratizadas, além de atenção para que a comercialização internacional de créditos não comprometa o cumprimento das metas nacionais.
As discussões da semana deixaram clara outra questão: a disponibilidade de capital, por si só, não resolve o problema. Existem recursos, mas nem sempre projetos com escala, risco e retorno estruturados de maneira adequada para recebê-los.
É aí que mecanismos como blended finance e a atuação coordenada de órgãos públicos, bancos multilaterais e investidores privados ganham importância. O ponto central passa a ser transformar soluções climáticas em projetos economicamente viáveis, capazes de atrair recursos e produzir resultados concretos.
Ao mesmo tempo, a discussão climática está se ampliando. Durante muito tempo, mitigação ocupou praticamente todo o espaço do debate. Hoje, adaptação e resiliência assumem uma dimensão econômica cada vez mais clara. Eventos extremos, disponibilidade hídrica, segurança alimentar e infraestrutura resiliente já influenciam custos, operações e decisões de investimento.
Essa evolução também modifica a forma como sustentabilidade é tratada pelas empresas. Ela passa a fazer parte das discussões sobre geração de empregos, política industrial, desenvolvimento territorial, competitividade e gestão de riscos.
O Brasil reúne condições para ocupar uma posição relevante nesse novo cenário. Grande parte da narrativa sobre a transição energética ainda é construída nos Estados Unidos e na Europa, enquanto muitas das soluções necessárias para viabilizá-la estão em países como o nosso, seja em energia renovável, minerais estratégicos, biocombustíveis, restauração florestal, agricultura de baixo carbono ou produção industrial de menor intensidade de carbono.
O desafio é conectar esses ativos a investimento, inovação e agregação de valor, além de criar condições para que os benefícios econômicos dessa transformação alcancem também os territórios e comunidades em que os projetos acontecem.
Esse deve ser um dos debates relevantes no caminho até a COP31, em novembro. Depois de uma longa etapa de construção de compromissos, o avanço da agenda climática será medido cada vez mais por perguntas concretas: quanto capital foi mobilizado? Quantos projetos saíram do papel? Quanto carbono foi efetivamente reduzido? Que capacidade produtiva foi criada a partir desses investimentos?
A próxima fase exigirá menos distância entre ambição e execução. Para o Brasil, isso representa a oportunidade de não apenas participar da transição, mas de oferecer parte das soluções necessárias para torná-la realidade.
As condições existem. Agora é preciso transformá-las em ação.
Sobre o autor
Leandro Faria é gerente Geral de Sustentabilidade, Segurança e Meio Ambiente da CBA
Mais Lidas
Fonte: umsoplaneta